A forte alta dos rendimentos dos títulos públicos em grandes economias, como Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido e França, reacendeu o temor de uma desaceleração da economia global e de novas perdas nos mercados acionários. Mas o movimento dos títulos não necessariamente indica uma crise à frente.
A avaliação é do economista Nouriel Roubini, professor emérito da Universidade de Nova York e consultor da Hudson Bay Capital, em artigo publicado pelo Project Syndicate. Para ele, é preciso observar a causa da alta dos rendimentos: dependendo de sua origem, juros maiores podem representar tanto uma ameaça ao crescimento quanto um sinal de uma economia mais forte.
Nos Estados Unidos, Roubini argumenta que parte importante da elevação recente dos rendimentos dos Treasuries está relacionada a fatores estruturais, como o aumento dos investimentos privados em tecnologia e inteligência artificial (IA), a maior demanda por crédito e uma possível elevação do crescimento potencial da economia.
A diferença é fundamental. Quando os juros dos títulos sobem porque investidores esperam inflação mais elevada ou questionam a capacidade do governo de administrar sua dívida, o resultado tende a ser negativo para a economia e para as bolsas. Quando sobem porque empresas estão investindo mais e demandando crédito para ampliar sua capacidade produtiva, o movimento pode sinalizar crescimento futuro.
Nem toda alta dos juros é sinal de crise
Segundo Roubini, existem pelo menos três razões distintas para uma alta dos rendimentos dos títulos.
A primeira é um choque de oferta que eleve a inflação. Tarifas comerciais, guerras e interrupções no fornecimento de petróleo podem aumentar os preços ao mesmo tempo em que reduzem a atividade econômica. Nesse cenário de estagflação, os juros sobem e as ações tendem a cair.
A segunda está relacionada às contas públicas. Déficits considerados insustentáveis podem levar investidores a exigir remuneração maior para financiar governos. Se houver expectativa de que os bancos centrais monetizem a dívida, o resultado pode ser inflação mais elevada. Caso isso não ocorra, o aumento dos prêmios de risco dos títulos pode provocar uma crise da dívida ou reduzir o crédito disponível para empresas e famílias.
A terceira possibilidade é justamente a que Roubini considera mais relevante para os Estados Unidos: uma expansão dos investimentos privados, especialmente em inteligência artificial.
Ainda assim, Roubini avalia que a situação norte-americana é diferente da de economias desenvolvidas com baixo crescimento potencial. Nos EUA, a combinação de investimentos tecnológicos e ganhos de produtividade poderia elevar o crescimento potencial de aproximadamente 2% para 3% ou mais.
O contraste é significativo com a zona do euro, cuja taxa de crescimento potencial é estimada em cerca de 1,2%, e com o Japão, que apresenta ritmo ainda menor.
Para o economista, uma economia capaz de crescer mais rapidamente também possui melhores condições para administrar sua dívida pública. Embora reconheça que o déficit fiscal dos EUA, próximo de 6% do PIB, continue sendo elevado e exija medidas de ajuste e reformas, Roubini observa que o crescimento potencial mais alto pode melhorar a trajetória fiscal no médio prazo.
A conclusão, portanto, é que a atual alta dos rendimentos dos títulos não deve ser interpretada de maneira uniforme. Nos Estados Unidos, ela pode refletir uma combinação de maiores investimentos, inovação tecnológica e expansão da capacidade produtiva, fatores potencialmente positivos para as empresas e para a economia.
Em países que enfrentam estagnação, baixo crescimento e elevados níveis de endividamento, porém, o mesmo movimento pode ter significado bastante diferente. Nesses casos, juros maiores podem representar o aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores diante da deterioração das contas públicas e da ausência de perspectivas de crescimento.
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