A voz de quem saiu às ruas para se manifestar e teve de fugir da polícia – parte 1

O que era para ser uma manifestação pacífica contra o reajuste da tarifa do transporte público se tornou uma noite de caos. São Paulo viu na noite de 13 de junho de 2013 um confronto de grandes proporções entre estudantes e a Polícia Militar. Resultado: muitos feridos, entre manifestantes e jornalistas.

Vivenciamos uma parte disso quando um grupo de estudantes se abrigou no prédio da redação do jornal, fugindo da violenta repressão policial. Todos jovens, alguns menores de idade, que foram às ruas para mostrar sua insatisfação com o reajuste de tarifas do transporte público paulistano.

Após a tensão inicial e alguns copos de água, manifestantes aceitaram dar seu depoimento sobre o que aconteceu na noite desta quinta-feira no centro da capital paulista. A começar pelo estudante M., de 21 anos, que se juntou ao movimento após sair da faculdade.

 

M., 21 anos, estudante

Depoimento a Tatiane Correia

Eu saí da faculdade mais ou menos umas 18h20, após ter terminado uma prova, pois estudo ali do lado, no Largo São Francisco. Me juntei à concentração lá na frente do Teatro Municipal.

A manifestação por si só estava muito pacífica, mas muito pacífica mesmo. Eu mesmo me surpreendi, porque pelos relatos que tinha visto de dois dias atrás eu esperava uma violência, assim, tremenda, esperava uma anarquia total. O que eu simplesmente não vi.

Muito pelo contrário, eu vi uma galera muito tranquila, e lutando pelos seus direitos. Afinal, já que você está no direito constitucionalmente protegido de manifestação, como direito de resistência.

A polícia estava tranquila até a hora em que ouvimos uma bomba na Praça Roosevelt. Ali começou um pequeno corre-corre. Bomba para todo lado, e open de gás de pimenta, como sempre.

 

Então, aí começou uma certa correria. Naqueles degraus da praça Roosevelt, muita gente caiu, torceu o pé. Inclusive eu me incluo como um deles, estava com dificuldades de pular… me incluo em um desses. E assim começou. O pessoal subiu a Roosevelt, foi até a Augusta, e assim… Nesse meio tempo, demorou mais ou menos uma meia hora.

Se eu vi algum ato de vandalismo? Eu vi sim, eu vi pichação, eu vi alguns quebra-quebras. Mas assim: eu vi por exemplo, lixeira ser estourada por bomba da polícia. Tudo bem. Pode ser que teve vandalismo? Teve, eu vi um rapaz quebrando na bica uma lixeira, assim como eu vi uma lixeira toda estourada de bombas da polícia.

 

Foi uma situação realmente de confronto. Quando meus amigos diziam isso, eu dava risada. Mas eu lembro muito bem de um amigo meu dizendo que a experiência cria a consciência. Eu lembro muito de um grande amigo meu, e finalmente eu entendi que realmente… Para você saber o que se passa, você tem que participar.

A minha família toda é ligada à Polícia Militar. Um ex-policial do Choque é meu pai, ele trabalhava em inteligência, e assim… Pra mim é uma coisa que me causa muito desgosto, porque? Porque eu vejo o seguinte: o sonho da minha família era não que eu fizesse o curso que eu estou fazendo, era que eu fizesse o Barro Branco [academia da Polícia Militar]. Realmente… Quando eu disse que não foi até uma chateação para a galera, que eles sabiam que onde eu quisesse eu passaria.

Mas o problema é: hoje eu vejo que eu acertei. Não tem para onde correr. Eu acho que agora eu acertei, e assim: meu pai foi alguém que largou a Polícia Militar por não concordar com as ações. E realmente, ele largou porque ele não concordava. E hoje em dia eu vejo que tanto eu acertei quanto ele.

Porque assim, queira ou não, eu não acreditava nisso. Eu acreditava que realmente existia certa humanidade quando você via certos movimentos, mas eles nos veem como inimigos, assim como a gente os vê como inimigos. Por eu viver nos dois mundos, eu vejo como é.

E, uma vez eu li um livro de um cara do Facção Central, o Eduardo, A Guerra não declarada na visão de um favelado, e sinceramente tudo o que ele diz ali é verdade. É incrível, mas realmente isso é uma espécie de guerra.

Como eu disse, a experiência traz a consciência. Eu entendi muito mais, mas agora eu vou buscar outra coisa além disso. Eu nunca consegui conversar com as pessoas que estavam perto de mim para tentar mudar a visão delas. Eu nunca tentei.

Eu sei porque a maioria delas não se interessa, mas eu vi o seguinte: ou a gente ganha essa galera, ou a guerra é perdida. Nós somos fracos, nós somos poucos. Mas temos ideologia. A gente precisa, sinceramente, ganhar a massa. A massa ainda não é nossa. Enquanto as pessoas acharem que ré ealmente um bando de vândalos que não tem que trabalhar, que não trabalham – que absurdo, eu trabalho e eu estudo e estou lá – que fazem esse tipo de manifestação, nós não teremos vitória. Uma coisa que os comunistas falam muito – eu não sou comunista, mas os comunistas falam muito – é a chamada consciência de classe.

Na terça-feira, eu vi na televisão que teve uma provocação muito grande, inclusive ferimento a policial, e isso é verdade, por parte de um grupo de amigos meus manifestantes que estavam, eram anarquistas. Então, eu achava que teria isso para começar qualquer embate. Não teve. Estava todo mundo afastado da polícia, e de repente começou.  

Ou seja, não foi uma defesa do direito de ir e vir. Foi uma repressão do direito de manifestação. Eu acho que isso caberia até uma ação pelo Ministério Público, deveria caber.

Mais uma coisa que aprendi hoje: realmente existe criminalização de movimentos sociais. É incrível. E antes eu não acreditava nisso.

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