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Como restaurar a credibilidade do jornalismo sem jornalistas?, por Denise Becker

Para reduzir os gastos, as empresas da indústria de notícias se desfazem justamente daquilo que dá qualidade aos seus produtos informativos – os jornalistas.

O jornalismo desempenha um papel fundamental na pandemia. Crédito: The Print

do objETHOS

Como restaurar a credibilidade do jornalismo sem jornalistas?

por Denise Becker

Certa vez, quando eu dava atendimento em Unidade de Terapia Intensiva, numa atividade de estágio da faculdade de enfermagem, não concluída, era comum ouvir conversas nos corredores do hospital entre os profissionais da área histórias sobre a “melhora da morte” – quando um paciente, à beira da morte, já desenganado pelos médicos, apresenta subitamente uma aparente melhora em seu estado de saúde. Justo quando mais ninguém acredita na sua recuperação, a esperança renasce. Entretanto, logo em seguida, o doente vem a óbito.

A melhora da morte do jornalismo é quando surgem pesquisas indicando o crescimento em audiência e relevância de notícias de programas jornalísticos da TV, jornais impressos, rádio e sites de noticiosos. Esse momento de pandemia fez a população buscar fontes garantidas de informação. É uma melhora da morte, quando as plataformas – Google e Facebook – injetam recursos para “socorrer” a mídia nesse momento de emergência, como se grande coisa fizesse.

As medidas dessas empresas, não solucionam os problemas do setor, que são em grande parte causados por elas. O professor Rogério Christofoletti enfatiza como um mantra – “está na hora de taxar as grandes plataformas e financiar o jornalismo” – essas gigantes (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) se apropriam do trabalho jornalístico e ainda drenam dois terços da publicidade mundial. Já existe uma mobilização da Fenaj e um debate no setor.

Os problemas do jornalismo estão se tornando agudos e a próxima consequência da crise será a escassez de jornalistas. O Brasil pode enfrentar uma perigosa ausência de profissionais da informação para combater a crescente infodemia e desinfodemia na pandemia de coronavírus Covid-19. E pior, pode se tornar o novo normal pós-pandemia, com a extinção das redações.

Com o número de mortes confirmadas de Covid-19 no Brasil em ascensão, a força de trabalho jornalística está abalada e ameaçada mais do que nunca. Jornalistas estão relatando a pressão, o aumento do trabalho, redução de salários e demissões. São expostos ao vírus, pois como a atividade é considerada essencial, os jornalistas nunca deixaram de ir às ruas, na chuva, na noite, no vento e no sol para manter as famílias brasileiras bem informadas.

levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) mostra o panorama desses efeitos sobre a categoria e o impacto da Medida Provisória 936/2020, que já afeta quatro mil jornalistas. A MP 936 faz parte do Programa Emergencial de Emprego e Renda do governo federal, que vigora na Lei 14. 020/2020. O Farol Jornalismo trouxe uma pesquisa sobre essa onda de cortes em outras redações.

Como restaurar a credibilidade da mídia sem jornalistas? Para um jornalismo credível é necessário, antes de tudo, de jornalistas e condições de trabalho. Para reduzir os gastos, as empresas da indústria de notícias se desfazem justamente daquilo que dá qualidade aos seus produtos informativos – os jornalistas. Portanto, os problemas são gerados dentro da própria profissão, dentro da corporação.

Claro, é notório o declínio de receitas publicitárias com a recessão econômica provocada pela pandemia. Como já foi dito antes e por outros, o setor há muito tempo é abatido pelas crises: políticas, de legitimidade social, de modelo, moral, ética, de credibilidade etc.

Disse o antropólogo Benedict Anderson que a imprensa é a chave da construção das nações. Como manter estas vigas de pé se mais da metade dos municípios brasileiros não têm cobertura de notícias, isso bem antes da Covid-19. Antes também, o setor das notícias já demitia jornalistas por conta da séria crise financeira e do desaparecimento dos recursos publicitários. Atualmente, os meios de comunicação estão sendo devastados pela pandemia. Ironicamente, a situação recebe pouco ou nenhum destaque nas manchetes da grande imprensa.

O receio que a Covid-19 acelerasse o desaparecimento das redações parece ainda mais próximo. Não é o que desejamos, mas parece ser a tendência. Enquanto isso, cresce a onda da política populista, de líderes extremistas, guiados por ideólogos e especialistas em Big Data, cujo propósito é espalhar a desinformação e a cólera através dos algoritmos – são os “engenheiros do caos”. Esse grupo de dezenas de pessoas chamados de spin doctors trabalham ferozmente para promover a propaganda populista. Sem jornalistas, o mundo se sujeita a interpretar a realidade pelas lentes mentirosas de grupos conspiracionistas e governantes populistas sedentos pelo poder.

Seria um alento acreditar que não existe sociedade sem jornalismo. E não é exagero dizer que a vida dos cidadãos e cidadãs em um momento tão delicado depende dessa atividade. Esse desmonte da profissão tem múltiplas implicações.No entanto, sem políticas planejadas pela categoria e com as organizações de notícias abrindo mão de seus profissionais, o que será do jornalismo depois da pandemia?

Uma solução é uma mudança de cultura e hábitos de notícias. Talvez seja um bom momento para os veículos nativos digitais de projetos coletivos e não ligados a mídia comercial criarem mais recursos para atrair membros para o seu jornalismo. Existe bom jornalismo fora dos grandes grupos de mídia. Em última análise, as saídas são coletivas e não há uma única solução. Pode ser que o futuro represente a transformação da indústria em um negócio sem fins lucrativos onde a comunidade seja responsabilizada e convidada a participar como membro de um novo tipo de jornalismo, independente de gestores dos negócios jornalísticos, de políticos e organizações. Um jornalismo menos preocupado com a propaganda e mais voltado para o público. Um jornalismo menos corporativista, formado, reconhecido, respeitado e sustentado pelos seus membros. Isso não significa ser escravo do público, representa dar ao público aquilo que ele realmente precisa saber. Para que isso aconteça, temos que escutar as suas vozes.

Denise Becker – Mestranda em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora do objETHOS

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