FOOD PORN: entre ludicidades e patologias, por Antonio Hélio Junqueira

FOOD PORN: entre ludicidades e patologias

por Antonio Hélio Junqueira

O hábito de compartilhar imagens, receitas e informações online sobre comida e sobre o próprio ato de comer emergiu e generalizou-se com o avanço das redes sociais digitais, configurando o fenômeno denominado contemporaneamente de food porn, que atrai, arregimenta e afilia milhões de participantes e seguidores em todo o mundo.

O food porn se consolida e se define como uma exposição midiática excessiva e até mesmo obsessiva de fotografias e vídeos de alimentos e de pratos de comida prontos, atraentes e sedutores, em redes sociais como Instagram, Facebook Twitter, Snapchat e Pinterest, entre outras. Seu objetivo principal é o de provocar vivamente o desejo de quem vê a imagem em experimentar o consumo do que produto que está sendo demonstrado. Nesse contexto, as técnicas de produção do food porn passaram a incluir não apenas os alimentos e seus acessórios, mas também todos os aspectos cenográficos dos ambientes gastronômicos (cozinhas, restaurantes, estúdios), como a arquitetura, o mobiliário, a decoração, a iluminação e os elementos representacionais da temperatura, da qualidade e do frescor com que os pratos são servidos (fumaça, gelo, transpiração etc.).

A associação conceitual entre comida e pornografia, pressuposta no próprio termo food porn, tende a remeter primariamente a valores negativos e preocupantes do ponto de vista da saúde e do bem-estar pessoal e social pelo seu inegável potencial de relacionar visões e percepções irreais a respeito do prazer exploratório e vivencial tanto do próprio corpo e da sexualidade, quanto da gastronomia. No entanto, pesquisas realizadas contemporaneamente, especialmente no ambiente das redes digitais, têm sinalizado para o potencial do fenômeno do food porn em promover motivações positivas para a atenção à saúde, ao bem-estar, às aquisições de repertórios culturais e ao engajamento sócio-político, associadas ao prazer de comer.

A ciência tem, de fato, comprovado que a exposição do indivíduo à estímulos visuais de comida é capaz de provocar sensações fortemente relacionadas ao gosto, ao paladar e à fome em seu cérebro, induzindo desejos de consumo. Com base em fenômenos como esses, a indústria alimentícia e o food service vêm explorando as mídias sociais para promover os produtos que oferecem. Mas, de forma não diferente dessa, também instituições de saúde pública passaram a se utilizar dos mesmos apelos e ferramentas para promoverem ações e estilo de vida preventivos de doenças associadas a regimes alimentares e práticas coligadas ao bem-estar pessoal e coletivo. Ambas iniciativas se baseiam na inquestionável penetração social das mídias digitais na contemporaneidade e na multissensorialidade mentalmente provocada pelo apelo do consumo através da exposição de imagens estimulantes associadas ao consumo alimentar. Assim, estímulos sensoriais ligados ao prazer de comer podem, paradoxalmente, ser direcionados tanto à promoção da gula, do excesso e do comportamento patológico (como no caso da anorexia e da bulimia), quanto da saciedade, moderação e adoção de hábitos saudáveis.

O termo food porn, às vezes substituído por gastro porn, foi cunhado na segunda metade da década de 1970, no âmbito dos movimentos de consolidação internacional da nouvelle cuisine, para designar o processo de estimulação do desejo de saborear pratos culinários ou gêneros alimentícios, a partir da sua exposição em imagens sedutoras e atraentes. Sua criação é atribuída ao jornalista político Alexander Cockburn em resenha sobre o livro French Cookery, de Paul Bocuse, que publicou no periódico New York Review of Books. A palavra surgiu, mais especificamente, nos comentários que ele fez a respeito de uma receita de crayfish – uma espécie de lagostim de água doce – gratinado à la Fernand Point. O seu texto descrevia emoções e sensações de desejo provocadas frente a uma promessa degustativa praticamente inalcançável, visto que a referida receita era feita com ingredientes impossíveis de serem encontros nos Estados Unidos. Dizia ele: “o verdadeiro gastro porn aumenta a excitação e também o sentido do inacessível, ao oferecer fotografias coloridas de várias receitas completas” [True gastro-porn heightens the excitement and also the sense of the unattainable by proffering colored photographs of various completed recipes].

Nos dias de hoje, o fenômeno food porn tem sido apontado, também, como elemento de conscientização ambiental e ecológica, ao ensinar, esclarecer e militar nas causas que dizem respeito tanto às sazonalidades da produção alimentar, quanto ao fortalecimento e valorização da produção local dos gêneros, preocupações essas centrais para movimentos éticos e políticos associados às práticas alimentares, como o locavorismo e o foraging – um tipo de caçada aos próprios alimentos na natureza ou nos espaços urbanos que vem crescendo em todo o mundo, incluindo o Brasil.

Nessa direção, vale destacar o trabalho executado pela parceria entre o chef japonês Yoshiriro Narisawa e o fotógrafo brasileiro Sergio Coimbra, que tem resultado em imagens únicas, que traduzem contextos ecológicos específicos. Desde a sua proposta de composição, os pratos e suas imagens fotográficas visam combinar alimentos cujas épocas de obtenção coincidem somente no momento de sua elaboração. É o caso do prato “baby ayu”, que combina o peixe ayu – só disponível para consumo no início do verão no Japão – e a flor da cerejeira, sakura, que surge, naquele mesmo país, ao final da primavera. Assim, o prato só se torna possível nesse período particular do ano, entre o final da primavera e o começo do verão, pois é impossível encontrar os dois ingredientes em outra. Trata-se, portanto, de uma narrativa ao mesmo tempo poética, educativa e conscientizadora sobre as condições e limites ambientais e sazonais para a obtenção dos alimentos ou de seus ingredientes.

Pensar a generalização dos atos de produzir, distribuir e consumir imagens e informações sobre comida no ambiente digital contemporâneo requer um posicionamento analítico mais complexo e profundo do que meramente considerá-los ações de marketing e entretenimento (ou como proposto na terminologia criada para esse fim: eater-tainment). Exige pensar as novas e múltiplas formas assumidas pela biopolítica alimentar contemporânea e cotidiana. Neste contexto, circulam tanto apelos de consumo para os produtos da indústria massiva, globalizada e padronizada, quanto outros dirigidos à resistência e engajamento sócio-político em prol da reestruturação dos sistemas de produção e distribuição dos gêneros alimentícios e da recuperação de formas tradicionais de produção, obtenção, preparo, compartilhamento e consumo (confort food, locavorismo, Comunidades que Sustentam a Agricultura, entre outras). Nesse sentido, a midiatização da comida – em suas inextricáveis relações com o mercado alimentar – torna-se objeto relevante para a investigação e a análise crítica de cientistas sociais de diferentes campos como a geografia, a antropologia, a sociologia, os estudos culturais e do comportamento do consumo.

Ao falarmos de food porn, obviamente, estamos nos reportando à fetichização social da comida e do ato de comer. Porém, cabe desde logo a questão: em que medida, ou a partir de que ponto a fetichização deve ser considerada uma patologia social? Trata-se de questão das mais difíceis de responder, se é que existe, de fato, uma resposta definitiva e convincente para ela.

Pesquisadores do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo debruçaram-se por cerca de dez anos na investigação das patologias sociais e das arqueologias do sofrimento psíquico nas sociedades contemporâneas. No que diz respeito, especificamente, ao fetichismo, suas análises não são concludentes. O fenômeno contém evidentes elementos e sintomas de patologia e perversão, ao alterar os mecanismos do reconhecimento social dos objetos, relações e práticas cotidianas, ao conter possibilidades de exagero e exacerbação dos sentidos e das representações e, finalmente, por serem portadores de sofrimento.

Contudo, segundo os próprios autores dos estudos, estamos ainda longe de uma percepção suficientemente adequada dos fenômenos que, como o food porn, envolvem altas doses de fetichismo. Certo é que jamais poderemos ignorá-los, se quisermos seguir tentando minimamente entender a realidade do mundo em que estamos todos irremediavelmente imersos.

Fotografemos e compartilhemos, pois, imagens de nossas ceias de Ano Novo em nossas redes sociais. E façamos todos os nossos esforços para que elas sejam, cada vez mais, a cada novo ano, mais saudáveis, nutritivas, ecossustentáveis, justas, socialmente inclusivas e repletas do sincero espírito e desejo da partilha.

Um feliz 2019!!!

 

(A propósito da referência citada, ver: FAVARETTO, Caio M.R. et alii. O fetichismo: “o mundo é mágico! ”. Em: SAFATLE, Vladimir; SILVA JÚNIOR, Nelson; DUNKER, Christian (orgs.). Patologias do social: arqueologias do sofrimento psíquico. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018. P. 185-233).

Antonio Hélio Junqueira – Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Professor Colaborador e Pesquisador do Mestrado Profissional em Gestão de Alimentos e Bebidas (Universidade Anhembi Morumbi – UAM) e de Pós-Graduação em Comportamento do Consumidor e em Agronegócios, Abastecimento e Alimentação (ESPM e UAM).

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