O renascimento da rua Coimbra

A história da feira boliviana da Rua Coimbra

Bem próximo da estação Bresser no Belenzinho, bairro conhecido pela importante presença de imigrantes bolivianos, fica a Rua Coimbra. No início dos anos 90, várias oficinas de costura se instalaram nesta região e, com a grande movimentação, alguns bolivianos começaram a comercializar produtos do seu país. Ali era possível comprar cereais, cartões telefônicos para chamadas internacionais e comidas rápidas, como saltenhas, tucumanas entre outras.

Com o passar do tempo e com o aumento da imigração boliviana para São Paulo, bem como a proliferação das oficinas de costuras por toda a cidade e região metropolitana, a Rua Coimbra foi assumindo outras características. As oficinas migraram para as redondezas e foram se instalando comerciantes de fios, máquinas, restaurantes, bares, casas de show noturno, pontos de chegada e saída de ônibus da Bolívia e, aos poucos, se deu uma intensa movimentação nos comércios, durante a semana, e feira de rua aos sábados e domingos. No trecho da rua que vai entre a Rua Bresser e a Costa Valente, os comércios estão todos identificados no idioma espanhol e mais de 95 % dos imóveis são ocupados por bolivianos.

A mudança

Pelas características apontadas, a Rua Coimbra também passou a ser vista como local passível ao aliciamento de imigrantes bolivianos para o trabalho nas oficinas de costuras. Infelizmente, muitas vezes análogo ao trabalho escravo. Por outro lado, os espaços se valorizaram e começou uma luta entre comerciantes, feirantes e donos de bares noturnos.

A população que fez da Rua Coimbra um pedaço da Bolívia se depara com muitas situações de violência, de roubo e ausência total da presença do poder de polícia do estado. Este, quando aparece, tem com o objetivo de criminalizar os imigrantes como um todo. Como exemplo, podemos mencionar a Festa de Alasita de 2012, que foi violentamente desmontada pela Subprefeitura da Mooca (festa da miniatura hoje constante do calendário oficial da Cidade, pela Gestão Haddad).

Atendendo à reinvindicação dos feirantes, de modo especial da Associação de Empreendedores Bolivianos da Rua Coimbra (ASEMBOL) a atual gestão deu início a um processo de regularização e de ressignificação do espaço público junto aos feirantes, moradores e comerciantes da rua.

As dificuldades eram inúmeras: desordem total, com mais de 400 feirantes num espaço que tecnicamente não cabiam mais do que 160 barracas, pressão de grupos que se beneficiam com a desordem, condenação da feira pelos comerciantes não bolivianos estabelecidos na rua.

Foi preciso realizar uma série de assembleias, intervenções com a Coordenação de Vigilância em Saúde – COVISA, e numa parceria entre a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania e a Subprefeitura da Mooca, foi possível dar alguns passos importantes: organização e formalização da associação de empreendedores, a capacitação dos feirantes em boas práticas no manuseio de alimentos, demarcação e distribuição de postos conforme capacidade da rua (o que levou a uma ampla discussão de negociação feita pelos próprios bolivianos), a regularização da feira com definição de horários para abrir e fechar e as responsabilidades dos feirantes.

Atualmente, ainda existem muitos problemas a serem enfrentados, sobretudo na questão da violência, por se tratar de uma zona vulnerável da cidade. O projeto de revitalização, elaborado pelo Arquiteto André Villas Boas, está sendo debatido de forma democrática e participativa com a comunidade.

Os bolivianos

A imigração boliviana para o Brasil já tem mais de 50 anos. No entanto, em São Paulo, onde se encontra a maior população, ela se intensificou a partir da década de 1990. Há vários estudos sobre este fenômeno, donde se pode afirmar que é uma migração majoritariamente relacionada ao setor das confecções. Estima-se que pelo menos 72 % dos trabalhadores bolivianos residentes em São Paulo se dedicam a este setor. Segundo dados da Polícia Federal, cerca de 63 mil bolivianos vivem em São Paulo. No entanto, as entidades que trabalham com esta população estimam um total de aproximadamente 350 mil bolivianos em São Paulo.

Apesar do refluxo no setor, o Brasil ainda continua sendo um país atraente para imigrantes bolivianos, abrigando, inclusive, imigrantes retornados da Europa e da Argentina. Se por um lado, alguns imigrantes bolivianos acabaram sendo explorados e submetidos ao trabalho degradante, por outro não faltam exemplo de bolivianos que se deram bem no Brasil e conseguiram construir fortuna. Muitos destes imigrantes são comerciantes que investiram na própria comunidade. Há também um grande número de profissionais bolivianos que conseguiram regularizar seus estudos e ter seus diplomas reconhecidos no Brasil, atuando como médicos, engenheiros e outras categorias de profissionais liberais. 

Um momento interessante, onde estas realidades são colocadas em evidência, é a Festa Nacional da Bolívia, realizada anualmente no dia 06 de agosto. Os padrinhos (passantes como eles chamam) se responsabilizam pela realização de grandes festas e bailes como uma forma de agradecimento pelo sucesso. A Prefeitura de São Paulo apoia o evento, que inclusive contou com a presença do Prefeito Fernando Haddad em 2014 e 2015.

 

A parte econômica

A principal característica da atividade econômica da Rua Coimbra é que tanto os estabelecimentos como o comércio de rua estão calcados na comunidade. O público consumidor é 100% de bolivianos e os produtos também. É possível encontrar na Rua Coimbra: fios e linhas para costura confeccionados por empresas de bolivianos em São Paulo;  pães típicos feitos por padarias bolivianas; chunhos (batata desidratada no gelo) etc. Uma profusão de produtos originários da Bolívia. Ao mesmo tempo existem os restaurantes de rua, nos finais de semana; as peluquerias (cabeleireiros); cds de música, chamadas internacionais; pontos de tramitação de documentos e envio de remessas para a Bolívia.

A Prefeitura partiu do reconhecimento destes imigrantes como sujeitos de direitos e constituintes da cidade. Entendeu essa presença boliviana num espaço conquistado por eles, como um patrimônio cultura material e imaterial para a cidade. Por isso, decidiu investir e regularizar a Feira; estabelecer regras de funcionamento, juntamente com os feirantes e passar a estudar a requalificação e revitalização da rua, tornando-a um verdadeiro pedaço da Bolívia em São Paulo. Para a comunidade, a Rua Coimbra é a sua Liberdade, fazendo um comparativo com a feira oriental que acontece todos os domingos no bairro de mesmo nome, na Região Central de São Paulo.

A receita

A imigração deve ser vista como uma oportunidade. As práticas dos Estados Unidos e da Europa, com as políticas de restrição e de criminalização da imigração, têm resultado em um verdadeiro calvário para milhares de pessoas que buscam uma vida melhor. O Brasil é um país que tem suas fronteiras abertas e a Prefeitura de São Paulo segue esta diretriz e assume um compromisso pioneiro na integração e na inserção local dos imigrantes. Reconhecer o papel que tiveram, e continuam tendo, os imigrantes, é a chave para a construção de políticas públicas afirmativas, pautadas nos direitos humanos e na garantia da cidadania.

Neste sentido, a gestão do Prefeito Fernando Haddad tem empoderado os imigrantes, criando centros de referência e acolhida para aqueles que estão chegando e que precisam de uma orientação; realizando cursos de português, de forma descentralizada na cidade; ajudando na empregabilidade, através do Centro de Apoio ao Trabalho; facilitando a abertura de contas e acesso ao microcrédito, através de convênios e acordos com o Banco do Brasil e Caixa; garantindo um diálogo constante, através de conferências com as comunidades.

Para facilitar ainda mais esse diálogo, foi criada, nesta gestão, a cadeira extraordinária para que imigrantes sejam eleitos por seus pares para os conselhos participativos. Também está em fase de implantação o Comitê Intersetorial de Políticas para Migrantes do Município da São Paulo. Há muito por ser feito, no entanto a atuação da gestão Fernando Haddad junto a imigrantes e refugiados já é reconhecida internacionalmente como uma política exitosa, sendo que prefeituras da França, Portugal, outros países da América Latina e várias cidades brasileiras têm vindo a São Paulo para conhecer suas políticas. 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora