A questão das mensagens subliminares

Sugerido por Paiva

Em resposta ao post O logo da novela e a bomba semiótica da pararrealidade 

 

O nascimento de uma lenda

(Nota: A íntegra do texto pode ser encontrada no site Projeto Ockham)

 

1.Introdução
2.O nascimento de uma lenda
3.O que NÃO é subliminar?
4.O que diz a ciência
5.Fitas de auto-ajuda
6.O caso Judas Priest
7.Seis idéias básicas para guardar

 

Em setembro de 1957, o especialista em marketing americano James Vicary convocou a imprensa para anunciar o lançamento de sua empresa, a Subliminal Projection Company, na qual era vice-presidente. Na conferência Vicary revelou ter patenteado uma nova técnica de vendas chamada “projeção subliminar” que consistia em utilizar um taquitoscópio (um dispositivo capaz de projetar imagens numa tela muito rapidamente) para exibir imagens entre os quadros de um filme durante uma fração de segundos (para ser mais preciso, 0.00033s).

Como eram projetadas numa velocidade maior que o olho podia captar, estas imagens não eram vistas conscientemente, mas Vicary acreditava que elas atingiam diretamente o subconsciente. Para provar a eficiência de suas propagandas subliminares, Vicary divulgou o resultado do experimento que teria conduzido num cinema de New Jersey. Ao inserir as frases “Drink Coke” e “Eat Popcorn” durante a projeção do filme (em noites alternadas) ele teria aumentado em 57,7% as vendas de pipoca e em 18,1% as vendas de Coca-Cola às portas de saída do cinema. A experiência foi relatada na revista Advertising Age (Vol 37, pág. 127, 16 de setembro de 1957).

A mídia debruçou-se ansiosa sobre a história e deu a ela tratamento sensacionalista. Um dos artigos, do Wall Street Journal, por exemplo, começava assim:

“Esta história pode soar como se um disco voador espreitasse por detrás das cenas, mas você pode ter certeza que todos os personagens nesta novela são reais. O conto começa alguns meses atrás, quando vários homens silenciosos adentraram um cinema de New Jersey e montaram um estranho mecanismo junto ao projetor.”

Matérias como estas, carregadas de mistério e de referências a contos de ficção cientifica, foram comuns e ajudaram a criar a aura fantástica em torno das mensagens subliminares que permanece até hoje.

Desde o início as mensagens subliminares estiveram na mira dos grupos religiosos: logo após o anúncio da experiência de Vicary, a WCTU (Women’s Christian Temperance Union) enviou uma nota à imprensa afirmando que técnicas subliminares estariam sendo usadas para aumentar as vendas de cervejas e outras bebidas alcoólicas. Nenhuma evidência que comprovasse a alegação foi apresentada, assim como nenhuma evidência tinha sido apresentada para comprovar o experimento de Vicary, mas juntas as duas alegações deram credibilidade uma à outra (“How a Publicity Blitz Created the Myth of Subliminal Advertising” de Stuart Rogers, publicado em 1992 no Journal “Public Relations Quarterly”, Volume 37).

Logo as mensagens subliminares estavam no centro das atenções. O autor do clássico romance “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley, escreveu em 1958 sobre um futuro onde “ditadores científicos instalarão máquinas sussurrantes e projetores subliminares em escolas e hospitais”. Mensagens subliminares passaram a ser vistas como uma invisível e indefensável técnica de lavagem cerebral. Editoriais furiosos foram publicados na imprensa exigindo o imediato banimento das propagandas subliminares, enquanto um senador americano pedia a regulamentação do uso da técnica.

Ainda em 1957, o ano em que Vicary anunciou seu experimento, surgiram as primeiras tentativas de replicar o efeito subliminar. A rede de televisão WTWO testou a técnica inserindo imagens que diziam “se você viu esta mensagem escreva para a WTWO”. A WTWO não reportou nenhum aumento na correspondência. No ano seguinte o próprio Vicary concordou em conduzir um experimento público na rede de televisão canadense. A imagem dizendo “LIGUE AGORA” foi inserida 352 vezes durante meia hora de programa, mas nenhum aumento nas ligações foi registrado. Os telespectadores, que sabiam que alguma imagem estava sendo subliminarmente exibida mas não sabiam qual, escreveram para a rede de TV dizendo que haviam sentido uma vontade irresistível de apanhar uma cerveja ou de trocar de canal.

Finalmente em 1962, alarmado com a dimensão que a história recebeu, James Vicary concedeu uma entrevista à revista Advertinsig Age em que confessou ter sido pressionado pelos investidores a publicar resultados de experimentos que não tinha feito realmente(Fred Danzig, “Subliminal Advertising – Today It’s Just Historic Flashback for Researcher Vicary”, Advertising Age, September 17, 1962, pp. 72-73). Disse Vicary:

“…nós fomos forçados a divulgar a idéia (da subliminaridade) antes que estivéssemos realmente prontos… nós não havíamos feito nenhuma pesquisa exceto o mínimo necessário para registrar a patente. Eu tinha pouco interesse na companhia (Subliminal Projection) e uma pequena quantidade de dados, muito pequena para ser significativa.”

A confissão de Vicary esfriou o assunto mas não o esvaziou. Em 1973, houve um renascimento do interesse pelo tema com o lançamento do livro “Subliminal Seduction – Ad Media’s Manipulation of a Not So Innocent America” (Sedução Subliminar – Manipulação da Mídia Publicitária de uma América Não Tão Inocente). O autor, Wilson Bryan Key, acusava as agências de publicidade de usar mensagens subliminares em jornais, revistas e na televisão para aumentar suas vendas. No livro, Key fez várias afirmações bombásticas, dizendo, por exemplo, que “as agências de publicidade gastam boa parte de seus recursos em pesquisas, desenvolvimento e aplicação de estímulos subliminares”, mas sem apresentar nenhum documento, nem testemunhas, ilustradores, desenhistas, artistas gráficos ou nenhum profissional que admitisse, nem anonimamente, haver inserido deliberadamente mensagens subliminares em propagandas. Claro que, segundo Key, tudo estava sendo mantido em segredo pelas grandes corporações e pelo próprio governo.

Uma marca pitoresca do discurso de Key que foi incorporada ao mito das mensagens subliminares é o apelo sexual. Key afirmava que: “palavras como fuck, ass, whore, cunt [vamos deixar você procurar o significado destas palavras no dicionário] e morte são usadas freqüentemente como gatilhos subliminares para motivar comportamentos consumistas”. Por exemplo, no nome da marca de cigarros “Kent”, Key via uma similaridade subliminar com a palavra “cunt” (na verdade Kent era o sobrenome do dono da companhia de cigarros Lorillard na época do lançamento da marca). Como palavrões poderiam influenciar os hábitos de consumo de alguém é uma coisa que Key explicava com uma tortuosa psicologia freudiana. Além de palavras de baixo calão, Key possuía uma habilidade incomum de ver sexo escondido em qualquer coisa. O título de seu livro posterior, “The Clam-Plate Orgy” (A Orgia no Prato de Moluscos), era uma referência à imagem de um prato de moluscos que ilustrava o menu de um restaurante de frutos do mar; em vez de um punhado de moluscos Key viu uma cena de sexo grupal… que incluía um jumento! E o que dizer da afirmação de que os orifícios dos biscoitos Ritz eram dispostos propositalmente para formar a palavra “SEX”?

Capa do livro de Wilson Key. A legenda diz: “Você está se sentido excitado com esta figura?”. Segundo o autor, você deveria ver uma mulher nua nos cubos de gelo.

Por mais que as alegações de Key fossem desprovidas de evidências, elas revitalizaram o mito e o tornaram muito mais “interessante” (sobre uma coisa Key tinha razão: sexo é sempre um tema popular). Como resultado, em 1980 nos EUA 78% da população pesquisada dizia já ter ouvido falar das mensagens subliminares e destes, aproximadamente 50% acreditavam que elas eram usadas comumente pela mídia. Quanto ao “experimento pipoca” de Vicary, este continua sendo usado por todos os que vendem o poder das mensagens subliminares, sem que ninguém se lembre ou se importe com o fato de o próprio autor tê-lo desmentido.

 

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15 comentários

  1. A Diretoria da Globo deve

    A Diretoria da Globo deve passar o dia pensando em como dar alguma coisa para os “trouxas” ficarem se preocupando e esquecerem a DARF (que é muito mais perigosa)…

  2. mensagens e mensagens

    O que este Paiva ainda não compreendeu é que não se trata de mensagem “subliminar”. Trata-se de uma mensagem, óbvia, como bem o comprova a análise semiológica. Deve ler e entender o Roland Barthes….

  3. Falando sério…
    a) qual o

    Falando sério…

    a) qual o nível intelectual de quem assiste novela da Globo? Todos aqui são unânimes em dizer que a audiência vem caindo mês a mês.

    b) Desses que assistem, quantos conseguem enxergar o número 45 no logo da novela/

    c) Quantos sabem que 45 é o número de algum partido?

    d) Do jeito que as novelas são cada vez piores, não é capaz de o número 45 ser associado com “porcaria”?

    • Isso me faz lembrar algo.

      A idéia é muito simples. Neste instante, é apenas deixar o 45 flutuando na mente do eleitor/telespectador, torná-lo familiar.

      Depois, a propaganda eleitoral fará o restante. Enquanto o PT precisará fazer com que o 13 seja lembrado, o 45 já estará lá.

      A idéia não é conquistar eleitores para o PSDB explicitamente, diretamente, e sim ocupar a mente do eleitor desinteressado nas eleições, mas que terá de votar assim mesmo, já que o voto é obrigatório.

      Na cabine de votação, o eleitor que ainda não estiver decidido lembrará mais facilmente de que número?

      Qual a parcela desse eleitorado entre os que assistem as novelas da Globo?

      É um 171, mas é uma grande idéia, uma 51. Ou seja, 10.

  4. Decifra-me ou te devoro.

    O proponente do texto não entendeu muito o que Wilson Ferreira diz.

    E talvez muito menos do próprio texto que trouxe.

    Semiótica tem traços da mensagem subliminar, mas não necessita desta linguagem permanentemente.

    Como nos ensinou Ferreira, a mensagem sub(liminar) esconde algo sob uma realidade conhecida e reconhecida, já as bombas semióticas são realidades pararelas, alteradas para encurralar qualquer chance de julgamento do alvo (espectador).

    Outro ponto: Os “testes” realizados para desmentir a possibilidade e funcionalidade da subliminaridade são hilários: Comparam sofisticadas construções para incentivar e solidifcar (disparar) comportamentos de consumo, cujo o alvo (espectador) já conhece ou idealiza como fonte de recompensa e prazer (coca-cola, cigarro, álcool, etc) com ordens metalinguísticas onde os próprios veículos incentivam comportamentos deslocados de qualquer relaçãod e causa e efeito.

    E por fim fica a certeza: não dá para dar crédito a um texto que tenta descontruir algo que nunca se revela totalmente como ele é, pois caso contrário, se conseguimos decifrar, é porque não atingiu seu objetivo.

     

  5. Café pornográfico.

    Então deve ter sido deste tal de Kay que eu lí um livro, até a metade, em que ele via sexo em tudo e eu não conseguia enxergar nada, embora levitando de tesão e vontade. Só ele via, o tarado, e olha que eu fazia de tudo para acompanhar seu raciocinio e as imagens que o livro trazia. Só faltei plantar bananeira para ver uma cenazinha de sexo, que só ele via.

    Parei de ler quando ele afirmava de forma catégorica que em uma cena de comercial de café, onde havia uma mulher, seu marido e mais um convidado tomando o produto, o ato do convidado mexer com a colher na xícara de café enquanto olhava para a esposa do amigo era um claro convite para a prática sexual. Alí e fechei o livro e o passei prá frente rapidamente.

    Se aquela interpretação fosse levada a sério aqui no Brasil ia dar até morte. Onde já se viu o amigo chamar a esposa do outro para a prática do sexo, assim, na cara dura, na frente do outro? O saud[ável hábito brasileiro de se tomar café junto com os amigos teria quer ser banido.

  6. No início dos anos 60, um

    No início dos anos 60, um espanhol, chamado Carlos Pedregal, possuía um programa de televisão, acho que na TV Tupi do Rio, canal 6, ou na TV Continental, canal 9. Jânio de Freitas, em um artigo, afirma ser TV Rio, Canal 13.

    Neste programa, que, acho, se chamava 900 segundos, Pedregal afirmava, com sotaque inconfundível, que estaria fazendo experiências de projeção subliminar, intercalando uma mensagem, rapidissima e invisível, entre os diversos quadros transmitido durante o programa cuja duração era de 15 minuitos (900 segundos).

    Lembro que o programa era patrocinado pela Imobilíaria Nova York.

    Eu era criança e acreditava profundamente no que o Pedregal afirmava.

    Tentei, por todos os meios, descobrir qual a mensagem que estava sendo passada subliminarmente. Frustradíssimo, acabei desistindo. Sugestionado, tinha uma série de palpites, mas nenhum mais forte do que os demais.

    Após algumas semanas do programa, Carlos Pedregal, finalmente, anunciou o “sucesso” da experiência, dizendo que tinha recebido inúmeras correspondências com o teor correto da tal mensagem subliminar e divulgando qual era esta mensagem. Acho que era alguma propaganda da tal imobiliária Nova York, mas não tenho certeza ante tanto tempo decorrido.

    Depois disso nunca mais soube nada do Pedregal.

    Ao ler o post acima me lembrei deste episódio e fui fazer uma pesquisa no Google sobre o tal Carlos Pedregal.

    De fato, minha memória, que anda bem fraquinha ultimamente, não me desapontou. Encontrei algumas coisas sobre o Carlos Pedregal, embora nenhuma sobre seu programa de TV:

    O artigo de Janio de Freitas, na Folha de S. Paulo em 31 de março de 2004:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3103200421.htm

    Um artigos sobre um filme de Alberto Pieralisi, denominado “O Quinto Poder” de 1962 e que tinha como argumento a dominação humana através da propaganda subliminar.

    http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/o-quinto-poder/

    E surpresa!!!! Um artigo da Veja (Policarpo Jr e Felipe Patury) denunciando Pedregal como Conselheiro da Campanha presidencial de FHC:

    http://veja.abril.com.br/030997/p_028.html

    Enfim… como naqueles filmes em que vários episódios, aparentemente independentes, acabam se entrelançando ao final.

     

     

     

     

  7. Mensagens em filmes no SBT

    Até pouco tempo, o homem do baú colocava mensagens publicitárias em frames inseridos dentros de filmes exibidos pelo SBT. Isto não é teoria da conspiração, é fato. As imagens ficavam bem pouquinho na tela mas eram perceptíveis. Ele botava essas imagens no meio dos filmes tentando empurrar jacuti, jacuringa, um desses troços que ele vende. Não sei se o SBT ainda faz isso, mas desde que eu percebi eu nunca mais liguei a TV nessa porcaria de canal.

    • Não só continua como se

      Não só continua como se espalhou por toda a programação, apesar que essas inserções nada tem a ver com mensagens subliminares.

        • O SBT eh lixo do ex-banqueiro
          O SBT eh lixo do ex-banqueiro Sílvio Santos.

          Esse arremedo de mensagem subliminar da da Jacuti, Jacuzzi,JeJequitibá ou o que quer que seja eh uma das coisas mais risíveis da atualidade.

  8. Deus

    Graças a Deus um post serio, para sair daquela paranoia pseudo evangelica, que mostra que mensagem subliminar ou semiotica é tudo enganação, que não passa de invençao para enganar os bobos e vender “balas”, no caso em questão uma ideia de que com um suposto numero escondido em um comercial de novela podesse influenciar alguma pessoa.

    Acho que nesta questao estão substimando a inteligencia da população, achando que todos são bobos e facilmente influenciaveis.

    E por fim acho que nesta blog deveriamos discutir coisas mais serias e deixar essa questão para sites de evangelicos paranoicos e de escarnio e piada.

     

  9. Fraude é a resposta ao Wilson Ferreira

    Propaganda subliminar não é nada disso. Não funciona se escrever e projetar uma ordem como beba coca-cola. Mas funciona se projetar uma imagem de alguem bebendo uma coca-cola com imenso prazer em uma cena feliz de um filme, por exemplo. A ideia está no signo, não na indução direta. E isso já foi estudado zilhões de vezes na semiótica, na pragmática da comunicação humana e na Gestalt, da psicologia. O tal do projeto ockham é que é uma fraude, pois quer passar a idéia de que o uso da propaganda subliminar não passa de mito com argumentos de uma pseudo ciência. 

  10. AS MENSAGENS SUBLIMINARES ESTÃO NO PIG

    Infelizmente,  não só produtos para serem comercializados são o  foco das mensagens subliminares.

    Elas se dirigem, e muito, à política, fazendo a cabeça dos brasileiros, que não percebem esta ação, muito bem concretizada, e que estão sendo eficazes.

    Os trabalhadores, aqueles que enfrentam as durezas da vida, de sol a sol, ou de madrugada à noite avançada, não têm tempo para assisti-las. Assim, estes não são as presas das velhas raposas que derretem e afundam a ética do jornalismo.

    Difícil e convencer, v. gratia, hoje, o povo que o Brasil melhorou.

    Por que?

    É fácil constatar que as mensagens subliminares, que castigam todos os santos dias os cérebros incautos, trouxeram-lhes um mundo totalmente avesso aos nossos sonhos, mas, acima de tudo,  responsabilizando o governo.  Que governo? Sempre e sempre o governo federal, seja qual for a competência constitucional e legal para administrar a questão que nos importuna. Exemplo disto, a educação fundamental,  que hoje está nas mãos dos governos municipais. É claro que os estados e a União têm responsabilidades também, mesmo em menor atuação, sobre a educação fundamental, mas a chamada é sempre dirigida ao governo, entenda-se, subliminarmente, o governo federal, subliminarmente, a presidenta Dilma..

  11. No caso da Globo com a tal

    No caso da Globo com a tal novela Geração Br45sil  nem podemos chamar de mensagem subliminar. É propaganda escancarrada mesmo. Até os mais obtusos podem perceber isso.

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