As lições do caso CSN-Corus

A tentativa de compra da inglesa Corus pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) é um lance de ousadia, que poderá se transformar em um capítulo relevante da internacionalização dos grandes grupos brasileiros – com lições preciosas, dando ou não certo.

A Corus é uma grande empresa siderúrgica que, há quatro anos, atravessou uma crise brava. Foi salva por um programa de reestruturação, mas – muito mais – pelo excepcional desempenho do consumo e dos preços mundiais dos produtos siderúrgicos. A compra pela CSN poderá resultar no quinto maior grupo siderúrgico do mundo.

No final de semana recebi uma ligação de Benjamin Steinbruch de Londres, explicando os detalhes da operação. Juntando com outras informações postadas no meu blog, conclui-se o seguinte:

1. Há uma enorme liquidez disponível no mundo para financiar aquisições. E um sistema de garantias focado na empresa a ser adquirida. Assim sendo, o diferencial entre as diversas propostas pode estar mais na capacidade de agregar valor à empresa comprada (através de políticas sinérgicas) do que na própria capacidade financeira do comprador.

2. Por essa lógica, a operação não teria impactos sobre o “rating” da CSN, já que apenas uma parcela do endividamento recairia sobre ela.

3. Supõe-se que o faturamento conjunto das duas empresas seja bem maior do que o faturamento individual das duas, somados. Esse “a mais” supostamente irá garantir o financiamento, sem descapitalizar a empresa que será adquirida. Mas o valor atual, tanto da Corus quanto da CSN, depende do preço atual do minério de ferro. Haverá, portanto, um componente de risco nessa operação. Aliás, sem esse fator de incerteza, certamente a Corus não estaria à venda.

4. Para as empresas brasileiras que pretendem se internacionalizar, soa cada vez mais importante as boas relações com os trabalhadores no país. Muitas dessas companhias adquiridas terão que passar por processos de reestruturação penosos. No caso americano, por exemplo, grande parte do passivo decorre de planos de saúde e de aposentadoria. Não se irá conseguir avançar sem uma política aprimorada de contrapartidas que legitimem a operação perante a comunidade, sem comprometer a rentabilidade da empresa adquirida. Matéria recente do “Financial Times” alertava para os problemas ocorridos entre a CSN, os empregados e a comunidade de Volta Redonda. A torcida deles era para que a compra fosse vencida pela indiana Tata. Antes, para exportar, havia a necessidade apenas de respeitar o meio ambiente e as condições de trabalho. Para se internacionalizar, terá que se avançar muito mais na direção de uma empresa socialmente responsável.

5. Do ponto de vista estratégico, a aquisição da Corus poderá ser relevante para a CSN por sua rede de distribuidores, seu departamento de desenvolvimento de novos produtos. A operação seria completamente legítima se, paralelamente a ela, a CSN conseguisse montar uma estrutura de novas fábricas e parceiros, que pudessem trazer valor agregado ao minério de ferro da Casa da Pedra – cujo fornecimento para a Corus será peça essencial da operação.

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