O economista Rui

A política monetária de Rui Barbosa foi uma inovação na época, ao tirar as amarras do padrão ouro -pelas quais um país só podia emitir moeda se tivesse o correspondente lastro em ouro—e permitir a emissão com lastro em títulos públicos.

Só que grande parte do desastre que provocou (e que resultou no “Encilhamento”, o grande movimento especulativo que eclodiu na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) decorreu da implementação torta do programa, com o claro intuito de beneficiar alguns banqueiros da época -particularmente o Conselheiro Mayrink.

Ao tomar a decisão individual de beneficiar Mayrink, Rui se enfraqueceu politicamente junto à opinião pública e aos próprios colegas de Ministério. Foi obrigado a ceder a Campos Salles, que queria um banco emissor para São Paulo, e a outros colegas.

Vários trabalhos contemporâneos comprovam o levantamento de Raimundo Magalhães Jr, das sucessivas gambiarras a que Rui foi obrigado a recorrer para dar sobrevida a Mayrink -cujo banco sequer tinha capital integralizado. Foi uma série de concessões que alimentou a fogueira do “Encilhamento”

Aos 27 anos, Gustavo Franco -eleitor de Rui na enquete e autor do artigo que fala de Rui economista – produziu uma belíssima monografia sobre ele, vencedora do Prêmio BNDES de monografia. Quem não ler mais nada sobre o “Encilhamento” concluirá, a partir da monografia, que os erros de Rui foram amplos e estavam ligados, no nascedouro, aos privilégios concedidos a Mayrink. Mas Gustavo insiste o tempo todo de que faltou apenas um Banco Central forte para que o plano tivesse dado certo.

Um século e quatro anos depois, Gustavo implementa uma política de remonetização inspirada claramente em Rui, contando com um Banco Central forte e independente. E repete o mesmo desastre de 104 anos antes.

No seu artigo na revista, Gustavo diz que as idéias econômicas de Rui se impuseram no século 20 no Brasil. Qual século? Do Encilhamento à Revolução de 30 vigorou novamente o padrão ouro. De 1930 a 1980, a economia fechada e o controle do fluxo de capitais. Apenas a partir de 1994 a pior parte das idéias de Rui voltou a se impor, no desastre cambial do Real, que expôs novamente a economia brasileira às crises internacionais. Em comum, se tem economias estagnadas no pós-Encilhamento e no pós- Real.

O desastre do “Encilhamento” matou a primeira grande oportunidade de salto no crescimento brasileiro, na mesma época em que a Argentina se aproveitava dos ventos internacionais para se tornar economia de primeiro mundo. O Real matou a última oportunidade.

Rui saiu do Ministério sócio de Mayrink em três ou quatro empresas fundadas durante o “Encilhamento”.

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