O mercado deixa

Coluna Econômica
22/08/2006
Mais uma vez repete-se o ciclo das expectativas sucessivas. No começo do ano, há uma aposta de crescimento; no meio, a primeira revisão para baixo; no final, a segunda revisão para baixo que será desmentida pelos dados reais, que serão menores ainda.

Não se sabe o que o próximo governo Lula fará. Mas é importante entender a lógica da estagnação e as armas de que irá dispor para romper esse nó górdio.

Hoje em dia há enorme massa financeira na indústria de fundos que, assim que a Selic baixar mais, irá buscar alternativas na economia real, em empresas, imóveis. Para tanto, há a necessidade de mercado para esses investimentos.

Com o real apreciado, sem a exportação como força dinâmica, o crescimento interno depende de espasmos, e não tem se sustentado ao longo dos tempos.

Até agora, qualquer tentativa de mudar as políticas monetária e cambial tinha sido impedida pela vulnerabilidade externa. A grande jogada estratégica de Gustavo Franco, Edmar Bacha e André Lara Rezende foi terem recriado a vulnerabilidade externa e a dependência de capitais voláteis.

A estratégia de Gustavo e André se materializou em três momentos importantes. O primeiro, na partida do Real, ao permitir a flutuação do dólar para baixo, provocando a valorização do real, o fim dos superávits comerciais e a dependência dos capitais voláteis. A disputa entre “comprados” (os que apostavam na manutenção do real apreciado) e “vendidos” na BM&F pode explicar grande parte do desespero da equipe econômica, no segundo semestre de 1994, de segurar a qualquer preço a desvalorização do dólar.

O segundo lance se deu no final de 1994 quando, com o governo praticamente acéfalo na transição para FHC, e José Serra e Pérsio Arida planejando reduzir a vulnerabilidade externa, Pedro Malan e Gustavo passaram a fazer emissões vigorosas de NTNs cambiais, amarrando a dívida pública ao câmbio.

O terceiro lance foi em abril de 1995 quando, ao invés de reajustar o câmbio de uma só vez, abrindo espaço para a normalização externa, Gustavo fixou a banda cambial em 8% ao ano. A medida preservou os investimentos especulativos de qualquer perda e, mais do que isso, permitiu-lhe aumentar ainda mais os ganhos, já que a expectativa de desvalorização cambial de 8% incorporou-se à taxa de juros de equilíbrio.

A partir daí, o país deixou de ter política econômica autônoma, especialmente do lado monetário, e permitiu a Gustavo Franco cunhar sua frase definitiva: “O mercado não deixa” , quando havia sinais de que Lula poderia romper com a ortodoxia do Banco Central.

Se houvesse um mínimo de competência e arrojo de Lula, substituindo a equipe do BC por outra, tecnicamente responsável e competente, e que soubesse aproveitar as janelas de oportunidade para derrubar os juros e desvalorizar o câmbio, seu segundo mandato poderia mudar a história do país.

Nos últimos anos, muitos dos fatores de reverberação do câmbio foram anulados. A dívida externa está quase extinta, reduziu-se sensivelmente o percentual de títulos públicos indexados ao dólar. Enquanto não voltarem os déficits em contas correntes, o mercado “deixa”.

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