O porquê dos juros e da ineficiência

Em seu artigo de hoje no “Estadão” Ilan Goldfajn insiste que os juros não podem baixar enquanto o Brasil não melhorar suas condições de infra-estrutura.

“Diagnóstico – Existem entraves ao crescimento econômico que vão além do binômio juros altos e câmbio apreciado, que mais refletem os problemas da economia do que os causam. O nó básico do crescimento no curto e no médio prazos é a conjunção de uma carga tributária extremamente elevada – necessária para financiar gastos públicos crescentes – com outros entraves à produção e ao investimento (como burocracia, ineficiência jurídica, regulatória, infra-estrutura falha e outros problemas de governança que nos põem na rabeira dos diversos índices de competitividade no mundo)”.

Vamos tentar entender a lógica do Ilan, criador da famosa planilha do Ilan, através de dois sofismas bastante utilizados por alguns economistas.

Um deles é essa história de que juros altos são conseqüência da ineficiência da economia.

Porque a ineficiência da economia produz juros altos? Qual a relação de causalidade?

No Brasil, as taxas de juros são utilizadas para combater a inflação. Inflação não são preços altos: é variação de preço. Suponha que, sem o custo Brasil, determinado produto custe 100 reais. Aí, colocam-se ineficiências variadas, infra-estrutura precária, custo trabalhista, impostos etc. Em lugar de 100 o produto vai custar 150. Só que, se mais nada ocorrer, a não ser a ineficiência, o preço fica estável em 150. Não havendo inflação, o que os juros têm a ver com a ineficiência? O que a ineficiência tem a ver com variação de preços? Tem a ver com preços mais altos, não com variação.

O segundo sofisma, conseqüência do primeiro, é que, antes de baixar os juros e desvalorizar o câmbio, teria que se melhorar a competitividade, o custo Brasil. Mais uma vez, invertem-se relações de causalidade. Aliás, não é possível que um economista preparado como o Ilan acredite que a gente acredite que ele acredite no que acabou de escrever.

Juros altos significa real caro. A desvalorização do câmbio visa, justamente, compensar a falta de competitividade de uma economia, que se reflete nos preços.

É enorme bobagem, uma falta de discernimento sobre os grandes números, supor que qualquer melhoria de produtividade da economia possa compensar o processo de valorização do real ocorrida nos dois últimos anos.

Suponha o produto que custe R$ 150. Com o dólar a R$ 3,00, ele sairá por US$ 50,00. Com o dólar a R$ 2,10, ele sairá por US$ 71,43 – uma alta de 43% em apenas dois anos. Suponha um baita programa de qualidade, de redução de desperdícios que aumente em 10% a eficiência da empresa (e 10% é um número a que se chega suando sangue). O preço cairá para US$ 65,00. Qualquer tentativa de melhora traz impactos minúsculos, perto do peso do câmbio, que impacta o preço final diretamente.

A lógica é inversa. Enquanto não se tem competitividade, compensa-se no câmbio. Mais tarde, quando o custo Brasil cair, houver inovação, pesquisa, marca e outros itens de valor agregado, o real poderá se apreciar. Dizer que, como a competitividade é ruim, o real tem que ser apreciado, equivale a matar duas vezes o paciente.

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