Para entender a necropolítica de Bolsonaro, por Luís Nassif

Existe e é simples de entender, tão primária e irresponsável quanto é o próprio Bolsonaro.

Sergio Lira - Poder360

Que Jair Bolsonaro tem a compulsão da morte, não se discute. Há inúmeros estudos, inclusive um estudo definitivo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, destrinchando a ação genocida, sistemática e deliberada. Mas seria apenas pelo fato de ser um sociopata, ou existe uma lógica nessa necropolítica?

Existe e é simples de entender, tão primária e irresponsável quanto é o próprio Bolsonaro.

Há duas consequências da pandemia. A mais grave é o aumento de casos e óbitos; a secundária são os problemas econômicos e sociais decorrentes do isolamento social. Digo secundária porque, em última instância, a melhoria econômica depende do sucesso do combate à pandemia.

Ao combater o isolamento, Bolsonaro joga a conta dos problemas daí decorrentes na conta dos governadores. Eles são obrigados a recorrer a isolamentos drásticos, despertando a reação irada do comércio e de bolsonaristas alucinados. Em vários momentos, Bolsonaro acenou com futuros problemas sociais, saques, violência, decorrente das necessidades criadas pelo isolamento.

Para que essa estratégia dê certo, a situação de penúria não pode ser amenizada. Sem recursos, sem comida, as pessoas terão que enfrentar a morte, pelo Covid, para escapar da morte, pela fome. No limite, recorrerão a saques para poder alimentar seus filhos. E, aí, seria a consumação da necroestratégia de Bolsonaro, com os governadores pagando a conta.

É essa estratégia política que explica os sucessivos atrasos de Paulo Guedes na liberação do auxílio emergencial ou para pequenas e micro empresas.

Guedes, aliás, comporta-se como uma barata tonta. Ontem, no dia mais trágico da pandemia, até agora, ele aparecia em público para anunciar a retomada da economia, das reformas e anunciar a reforma administrativa. É o próprio alienista.

Por seu turno, em plena efervescência de um evento absolutamente anormal, o Banco Central não consegue escapar das fórmulas prontas e acabadas.

O que se tem, atualmente:

1. Uma pressão de custos provocada pela desvalorização cambial e pela dolarização das cotações de commodities.


2. A alta de preços é captada por indicadores como o Índice Geral de Preços, e também pelo Índice de Preços no Atacado. Reflete-se menos nos índices de custo de vida, porque diluída com outros itens que sentem mais os efeitos da queda de demanda.


3. A lógica do BC é aumentar a taxa Selic – em 0,75 – esperando que se repita o fenômeno de outros tempos: + juros + entrada de dólares levando à apreciação do câmbio e a redução da pressão dos preços dos comercializáveis.


Com isso atende-se o objetivo político de Bolsonaro, com 3 consequências óbvias:

1. Atraso maior na recuperação da economia, com todas as implicações políticas daí decorrentes.


2. Problemas sociais explodindo ampliando os riscos políticos mapeados pelas empresas de consultoria internacionais


3. Aumento no custo da dívida pública, piorando ainda mais os indicadores financeiros do governo.


Esta semana, Martins Wolff, do Financial Times, provavelmente o mais influente analista econômico da Europa, escreveu um artigo básico, com uma lição: é preferível quebra de bolsas do que quebra de países.

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