EUA: A disputa pelo voto latino na eleição de 2020, por Roberto Moll Neto

De acordo com o Pew Research, importante centro de pesquisas estadunidense, 32 milhões de latinos, ou hispânicos como preferem, estarão aptos a votar para presidente em 2020.

Crédito: Shutterstock

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

A disputa pelo voto latino na eleição de 2020

por Roberto Moll Neto

A novidade

Uma novidade na corrida eleitoral dos Estados Unidos da América (EUA) em 2020. Pela primeira vez na história, os latinos serão a minoria étnico-racial com maior poder de voto em uma eleição presidencial, superando os negros. Ao contrário do que alguns podem imaginar, porém, os latinos não formam um bloco eleitoral uniforme e com voto imutável, muito embora tenham preferências claras por algumas pautas. Por isso, os dois principais candidatos na disputa – Joe Biden, pelo Partido Democrata, e Donald Trump, pelo Partido Republicano – estão em busca do voto latino, que pode decidir a corrida eleitoral.

Os latinos e os hispânicos

De forma geral, no contexto estadunidense, latino é um termo compreendido como redução de latino-americanos e utilizado, frequentemente, para caracterizar todos aqueles que nasceram ou têm ancestrais na região da América Latina e do Caribe. Portanto, inclui imigrantes e seus descentes de todos os países da região, mas não se refere a todos os falantes das línguas latinas, como italianos e franceses. Oficialmente, o governo de Richard Nixon (1969-1974) adotou o termo hispânicos, popularizado e consolidado no censo estadunidense em 1972, para se referir a todos aqueles que nasceram ou têm ancestrais na América Latina, incluindo países que não foram colonizados pela Espanha e não utilizam o espanhol como língua oficial, como Brasil e Haiti.

Neste sentido, hispânicos e latinos são termos intercambiáveis para definir o mesmo grupo: imigrantes que nasceram na América Latina e no Caribe e seus descendentes que nasceram nos EUA e são cidadãos estadunidenses. Entretanto, no que se refere à identidade e à organização política e social, os termos “latino” e “hispânico” não são exatamente intercambiáveis e nem sempre incluem todos aqueles nascidos na América Latina e no Caribe, como os jamaicanos e os surinameses, que não foram colonizados pela Espanha, ou por qualquer outro país latino, não falam espanhol, ou outra língua de origem latina e não têm nenhuma ascendência hispânica, ou latina.

O poder do voto dos latinos em 2020

De acordo com o Pew Research, importante centro de pesquisas estadunidense, 32 milhões de latinos, ou hispânicos como preferem, estarão aptos a votar para presidente em 2020. São imigrantes em situação legal e/ou naturalizados e todos os latinos que nasceram nos EUA e, consequentemente, têm cidadania plena. Vale lembrar que imigrantes em situação ilegal não estarão aptos a votar. Em 2000, os latinos eram apenas 7,4% dos indivíduos aptos a votar. Em 2020, os latinos serão 13,3% dos eleitores. Em comparação, os latinos terão mais poder de voto do que os negros e asiáticos, que compõe 12,5% e 4,7%, respectivamente, dos indivíduos aptos a votar. Em 2000, negros e asiáticos eram, respectivamente, 11,5% e 2,5% dos indivíduos com direito a se registrar para votar. Esses dados mostram três variáveis importantes.

Primeiro, os latinos se tornaram a minoria étnico-racial com maior poder voto nos EUA. Segundo, o crescimento meteórico dos latinos aptos a votar entre 2000 e 2020 aponta que, provavelmente, a maioria nasceu fora dos EUA e/ou são jovens estadunidenses com ascendência latina que adquiriram o direito de votar nas últimas eleições. Portanto, esta variável está diretamente atrelada a outras duas: o voto dos imigrantes e o voto dos jovens. De fato, o Pew Research aponta que, nas eleições de 2020, um em cada dez indivíduos aptos a votar nasceu fora dos EUA. No que tange ao voto dos jovens, 10% dos indivíduos aptos a votar nasceram depois de 1996. Desses, 21% são latinos. Terceiro, latinos, negros e asiáticos corresponderão a, aproximadamente, 1/3 dos indivíduos com poder de voto.

As preferências dos eleitores latinos

Os eleitores latinos não votam como um grupo homogêneo. Como aponta outra pesquisa do Pew Research, 71% dos latinos aptos a votar dizem que o governo federal deve fazer mais para resolver os problemas do país. O número é expressivo. E é similar ao percentual de eleitores negros que pensam da mesma forma, 74%. Neste sentido, negros e latinos estão significativamente acima da média do eleitorado. Em comparação, 52% dos cidadãos aptos a votar pensam que o governo federal deveria fazer mais para resolver os problemas dos estadunidenses. Entretanto, 27% dos eleitores latinos consideram que o governo já faz muito e é melhor que empresários e indivíduos resolvam seus próprios problemas.

A mesma pesquisa mostra que, em 2020, três questões gerais ganharam destaque entre latinos aptos a votar: acesso a saúde, controle de armas e salários. Neste sentido, 71% dos latinos aptos a votar acreditam que o governo federal deveria assegurar cobertura de saúde para todos os estadunidenses. Destes, 38% desejam a construção de um sistema estatal de saúde, e 32% preferem um modelo misto, com coparticipação do setor privado. Contudo, 28% dos eleitores latinos acreditam que o governo federal não deve assegurar cobertura de saúde para todos estadunidenses.

Sobre o controle de armas, 68% dos latinos aptos a votar acreditam que o governo deve adotar leis e critérios mais rígidos para aqueles que querem adquirir armas. Entretanto, 24% dos eleitores latinos estão de acordo com as leis e com os critérios atuais. E 7% preferem leis e critérios menos rígidos. Em comparação, 59% dos cidadãos estadunidenses aptos a votar gostariam que o governo federal adotasse medidas mais rígidas para adquirir e portar armas.

No que se refere aos salários, a pesquisa mostra que 79% dos latinos aptos a votar dizem que o governo deveria aumentar o salário mínimo federal para US$ 15 por hora de trabalho, enquanto 65% dos eleitores estadunidenses pensam da mesma forma. Vale lembrar que o salário mínimo federal nos EUA é de US$ 7,25 por hora de trabalho e não é reajustado desde 2009. Antes da pandemia do novo coronavírus, 61% dos latinos ganhavam menos do que US$ 15. Em comparação, 53% de todos os eleitores ganhavam menos do que US$ 15. Depois da crise econômica que a pandemia trouxe a reboque, o desemprego entre os latinos atingiu 18,9% em abril de 2020, maior percentual da série desde 1975. Consequentemente, os salários caíram ainda mais.

Sobre temas mais específicos, 83% dos latinos elencam como prioridade que o governo federal deveria estabelecer medidas para regularizar imigrantes em situação ilegal e, consequentemente, garantir a permanência dos mesmos nos EUA. Em especial, 86% dos latinos querem que o Congresso, em consonância com a Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA), reconheça o direito de permanência e cidadania dos imigrantes sem documento que chegaram aos EUA na infância, trazidos por pais, ou outros tutores.

Desde 2017, a administração Trump luta para acabar com o programa DACA e, consequentemente, deportar cerca de 800.000 imigrantes que chegaram aos EUA ainda crianças. Alguns não têm nenhum laço familiar, ou comunitário, com os países em que nasceram. Além disso, 79% dos latinos querem que o governo federal receba refugiados que tentam escapar da violência na América Latina e em outras partes do mundo. Entretanto, 76% dos imigrantes acreditam que o governo federal deveria melhorar os procedimentos de segurança para todos na fronteira; 66% acreditam que o governo federal deveria aumentar o controle na fronteira entre EUA e México para evitar os fluxos ilegais; e 41% concordam que o governo deveria aumentar a deportação de imigrantes ilegais.

Biden e Trump em busca dos latinos

Este padrão de preferências alinha os latinos aptos a votar com o Partido Democrata, mas não exclusivamente. Pelo menos 62% dos eleitores latinos se identificam ou estão filiados ao Partido Democrata. Entretanto, 34% se identificam ou estão filiados ao Partido Republicano. Como comparação, entre os eleitores negros, 84% se identificam ou estão filiados ao Partido Democrata. E apenas 8% se identificam ou estão filiados ao Partido Republicano.

Em maio de 2020, apenas 60% dos eleitores latinos estavam inclinados a votar nas eleições presidenciais. Desses, somente 49% estavam decididos a votar em Joe Biden. Nas primárias do Partido Democrata, Biden investiu muito pouco na aproximação com os eleitores latinos. Com isso, Bernie Sanders despontou como candidato preferido da comunidade. Em Nevada e na Califórnia, Sanders venceu Biden entre os eleitores latinos com uma superioridade de aproximadamente 30% dos votos.

Na corrida contra Trump, para mobilizar os eleitores latinos, Biden tem como assessora Julie Chávez Rodríguez, neta de César Chávez, importante líder sindical do movimento de luta dos trabalhadores rurais latinos por direitos civis e sociais nos anos 1960. Mas, mais do que isso, Biden tem buscado ampliar as propostas para dialogar diretamente com os eleitores latinos, exatamente de acordo com as pesquisas.

Neste sentido, o plano de Biden para os latinos inclui: proteger o Obamacare e oferecer assistência pública de saúde para todos os estadunidenses, incluindo ainda mais os latinos; ampliar o financiamento para os centros de saúde comunitários, que frequentemente atendem imigrantes sem documentos; aumentar o salário mínimo federal para US$ 15; recuperar a economia e os empregos afetados pela pandemia da COVID-19, sobretudo entre minorias; ampliar créditos e investimentos nos pequenos negócios, especialmente com proprietários negros e latinos; investir na educação desde o ensino infantil até o último ano do ensino secundário, com especial atenção ao ensino fundamental e médio, onde 25% dos alunos são latinos; reduzir a desigualdade entre as escolas públicas dos bairros ricos e dos bairros mais pobres, onde está a maioria das comunidades latinas; ampliar o acesso ao ensino superior, oferecendo dois anos de curso gratuito nas faculdades comunitárias, linhas de crédito e subsídios e um investimento de US$ 70 bilhões em instituições voltadas para as minorias; reformar o sistema de imigração, incluindo a proteção e a concessão de cidadania àqueles que entraram sem documento nos EUA quando eram crianças; proteger as fronteiras de forma humana; rever todos os processos e pedidos de proteção temporária de imigrantes que buscam refúgio e asilo, incluindo aqueles que buscam alívio para a crise humanitária na Venezuela; estabelecer uma legislação mais rigorosa para compra e porte de armas; proteger as comunidades latinas da poluição; diminuir o encarceramento, com investimento em mais justiça social, detenção apenas para crimes não violentos, desmonetização das fianças e descriminalização do uso de maconha; e priorizar o julgamento sobre os crimes de ódio. Além disso, Biden prometeu construir um Museu voltado para história e cultura da comunidade latina no complexo Smithsonian em Washington, D.C.

Em 2016, Donald Trump recebeu 30% dos votos latinos sem fazer muito esforço. Agora parece ainda menos preocupado com o crescimento e o impacto do eleitorado latino. A plataforma de campanha de Trump ainda não tem nenhum plano específico direcionado para os eleitores latinos, apenas reforça o compromisso com o controle da imigração e a deportação de imigrantes sem documentos. Entretanto, como presidente, Trump lançou, em julho de 2020, a Iniciativa para Prosperidade Hispânica.

O programa promete ampliar o acesso dos latinos às novas oportunidades educacionais e econômicas por intermédio de cinco medidas em parceria com o setor privado: identificar e promover práticas para melhorar a educação e a qualificação dos trabalhadores latinos; encorajar parcerias com o setor privado para melhorar o acesso de trabalhadores latinos aos postos de trabalho; desenvolver uma rede nacional de indivíduos, organizações e comunidades a fim de facilitar o acesso às oportunidades educacionais e econômicas para os trabalhadores latinos; desenvolver e monitorar programas educacionais para qualificar os trabalhadores latinos para novos postos de trabalho e negócios; aconselhar o presidente, por meio do Departamento de Educação, sobre questões importantes para os latinos e políticas relacionadas à prosperidade das comunidades latinas.

O poder decisivo e os limites do voto latino

O presidente dos EUA é eleito de forma indireta, através dos colégios eleitorais dos estados. O poder dos eleitores latinos é significativo em cinco estados: Novo México, com até 43% dos votos; Califórnia, com até 30% dos votos; Texas, com até 30% dos votos; Arizona, com até 24% dos votos; e Flórida, com até 20%.

A 90 dias das eleições, o cenário ainda é bastante incerto. Mas as pesquisas pré-eleitorais indicam que Biden tem uma boa margem para vencer na Califórnia, o maior colégio eleitoral do país com 55 delegados. Essa tendência deve ganhar mais força depois que Biden escolheu Kamala Harris, senadora pelo estado da Califórnia, como companheira de chapa. A dupla também deve vencer no Novo México, com cinco delegados. Trump, muito provavelmente, vencerá no Texas, segundo maior colégio eleitoral do país com 38 delegados.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Texas se tornou um estado majoritariamente republicano. Os candidatos democratas venceram no Texas em apenas três ocasiões. Em 1960, John F. Kennedy (JFK) venceu Richard Nixon com uma margem pequena de 2% dos votos. Vale lembrar que o candidato a vice-presidente na chapa de JFK era Lyndon B. Johnson (LBJ), natural do Texas e com uma sólida carreira política no estado. Em 1964, o próprio LBJ venceu Barry Goldwater com uma margem folgada de 26,8% dos votos. E, por fim, em 1980, Jimmy Carter venceu Gerald Ford com uma margem bastante apertada de 3,1% dos votos. Com o crescente poder de voto dos latinos e dos negros, este quadro está mudando, porém. Recentemente, os democratas conseguiram vencer eleições para prefeito em cidades importantes, como Houston e Dallas, e tiveram forte influência nas eleições em San Antonio, com a vitória de um independente.

Os estados do Arizona, com 11 delegados, e da Flórida, com 29, estão indefinidos. Qualquer um dos dois candidatos pode vencer. Na Flórida, o eleitorado latino, capitaneado pelos cubanos que deixaram a ilha após a Revolução comunista em 1959, tende a votar nos candidatos republicanos, que sempre prometem endurecer a relação com Havana. As novas gerações de cubano-estadunidenses e de cubanos que chegaram aos EUA após o final da Guerra Fria têm demonstrado, no entanto, pouco interesse em retornar à ilha. Além disso, o crescimento de outros grupos latinos aptos a votar, como portorriquenhos e centro-americanos, atenuou o poder do eleitorado cubano e cubano-estadunidense no estado.

Por fim, vale ressaltar que ter poder de voto não significa exercer o poder de voto, principalmente no caso dos EUA, onde o comparecimento às urnas não é obrigatório, o processo eleitoral ocorre em dia útil e alguns grupos sociais encontram dificuldades estruturais para votar.

A participação de eleitores latinos nas duas últimas eleições presidenciais, em 2012 e 2016, manteve-se em torno de 48%. A participação de negros nos mesmos pleitos caiu de 66,6% para 59,6%. Em 2020, se esses números ficarem estáveis, o voto dos latinos terá menos impacto do que o voto dos negros. E, juntos, terão menos impacto do que o voto branco. No próximo pleito, 67% dos eleitores serão brancos. Nas duas últimas eleições, a participação de eleitores brancos se manteve em torno de 65%.

Roberto Moll Neto é pesquisador vinculado ao INCT-INEU, professor de História da América na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Segurança e da Defesa na mesma instituição.

** Recebido em 7 ago. 2020. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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