O depoimento de Odebrecht a Moro e o timing para prender Lula

Nada do que foi vazado, ontem, do depoimento de Marcelo Odebrecht a Sergio Moro era totalmente desconhecido da grande mídia. A questão é como as denúncias repercutem às vésperas de Lula viajar a Curitiba para falar do triplex
 
 
Jornal GGN – “Hoje é o Dia da Vitória”, publicou O Antagonista na manhã de segunda (10), dia em que o depoimento de Marcelo Odebrecht foi tomado por Sergio Moro, agora com um diferencial: o herdeiro do Grupo Odebrecht, por causa da delação premiada que está sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, não poderia se negar a dar detalhes sobre a “organização criminosa lulista”, coroando “3 anos de trabalho extraordinário da PF, do MPF e do juiz Sergio Moro”. Parece até que a Lava Jato viveu para ver esse dia.
 
O vazamento em tempo real do depoimento de Marcelo Odebrecht caiu como uma luva à parcela da imprensa entusiasta do “trial by media”. O próprio Antagonista, responsável pela divulgação que causou comoção no Twitter, bateu o martelo assim que a audiência com Marcelo terminou: “Acabou, Lula”, manchetou. “Ele [Odebrecht] destruiu Lula e o PT.”
 
O depoimento a Moro, em que Marcelo teria dito que Antonio Palocci era o intermediário da empresa com o governo Lula, e que o ex-presidente teria recebido, em dinheiro vivo, pelo menos R$ 13 milhões ao longo de dois anos, foi comemorado pelo Antagonista como um dos “maiores acertos da história” do blog, que havia antecipado essa informação em postagem de outubro de 2016.
 
Naquela ocasião, sob o título “Lula será preso. Ou: A planilha de Lula no setor de propinas da Odebrecht”, Antagonista cravou que uma “fonte segura da Lava Jato” já havia confirmado que Lula era o “Amigo” que aparece na planilha. A prisão do líder petista ainda vai sair, e é por conta desse dado, garantiu O Antagonista há seis meses.
 
Os R$ 23 milhões que Marcelo Odebrecht tratou como recursos direcionados a Lula já foram motivo para matéria de capa da Isto É, em dezembro de 2016, dizendo que “Lula recebeu dinheiro vivo.” 
 
“Os pagamentos em dinheiro vivo fazem parte do que investigadores costumam classificar de “método clássico” da prática corrupta. Em geral, é uma maneira de evitar registros de entrada, para quem recebe, e de saída, para quem paga, de dinheiro ilegal. E Lula, como se nota, nunca se recusou a participar dessas operações nada ortodoxas. O depoimento é a prova de que, sim, o petista não só esteve presente durante as negociatas envolvendo dinheiro sujo como aceitou receber em espécie, talvez acreditando piamente na impunidade”, publicou a revista, mostrando o que provavelmente constará no próximo PowerPoint da força-tarefa.
 
No Estadão desta terça (11), a jornalista Vera Magalhães escreveu um artigo que resume a repercussão do depoimento de Odebrecht como um fator complicador para a situação de Lula “às vésperas de seu depoimento a Moro”. E acrescentou que ficará ainda pior quando Palocci – que é, para a Lava Jato, o último degrau até o ex-presidente – fizer uma delação “potencialmente explosiva”. 
 
Moral da história: nada do que Marcelo Odebrecht disse no depoimento a Moro era desconhecido da grande mídia. Talvez por isso as notícias sobre o vazamento em tempo real – que o juiz não terminou de investigar, porque pessoas entraram e sairam da audiência sem que os celulares fossem verificados, já que o magistrado não pode obrigar ninguém a mostrá-los – tenham sido o destaque do dia. Mas a questão está em como o depoimento se reafirma gerando pedidos de prisão em uma parte da grande mídia, a poucas semanas antes de Lula ir a Curitiba falar sobre o caso triplex.
 
A Lava Jato nunca escondeu que não quer mais “perder o timing” para prender o ex-presidente. E o GGN já mostrou que a imprensa tradicional, quando decide difundir massiva e indiscriminadamente as acusações feitas pelos procuradores, cria a atmosfera ideal para crises sem precedentes. Foi o que aconteceu às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff, quando a Lava Jato bateu recorde de capas da Folha de S. Paulo em poucas semanas. Os próximos dias vão dizer se e como Lula será vítima dessa aliança.
 
OUTRO LADO
 
Em nota a respeito do vazamento, o Instituto Lula destacou que “a repetição histriônica destes vazamentos seletivos serve apenas para criar, por meio da mídia, uma cortina de fumaça perante a opinião pública.” Para a equipe do ex-presidente, o que a Lava Jato quer é contornar o volume de testemunhas do caso triplex que não apontaram provas cabais contra Lula.
 
Além disso, observou que o vazamento ocorreu não apenas antes da ida de Lula a Curitiba, mas também “um dia antes da exibição, em rede nacional de TV, do programa partidário do PT.”
 
O IL também avaliou que o episódio “desmoraliza a 13ª Vara Federal de Curitiba e as autoridades que nela atuam (do Judiciário, do MPF e da Polícia Federal), expostas como coniventes ou impotentes perante ilegalidades que ocorrem na própria sala de audiências.”

 

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