A oposição e a democracia de massa

Coluna Econômica – 26/06/2010

A divulgação da última pesquisa do IBOPE mostra a candidata Dilma Rousseff a dois pontos da vitória no primeiro turno – se se levar em conta seu percentual de votos sobre o total de votos válidos. Há outros pontos sustentando seu favoritismo: empatou com José Serra no voto feminino; passou-o no sudeste. E ainda conta com 25% do eleitorado que ainda não sabe que ela é a candidata de Lula.

O grande desafio, daqui para frente, será preservar as bases do que poderá ser a oposição ao provável futuro governo Dilma.

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Para a oposição, o ponto central será entender a nova dinâmica social e política brasileira. Por não entender os novos tempos, o Partido Democrata norte-americano perdeu o bonde das eleições da Guerra da Secessão até a eleição de Franklin Delano Roosevelt, nos anos 30.

Infelizmente para o PSDB, a era Fernando Henrique Cardoso deixou marcas. Embora sociólogo, de uma família de construtores da pátria, nem ele nem José Serra souberam interpretar adequadamente os novos tempos. Fernando Collor teve essa percepção – quando identificou o fenômeno dos “descamisados” – assim como Lula. FHC passou ao largo e, passada a euforia inicial, com a vitória contra a inflação, deixou o PSDB sem bandeiras. Pior, como a imagem comprometida para se beneficiar dos novos ventos trazidos pelas mudanças sociais e econômicas do país.

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O processo é bastante similar ao que chacoalhou os Estados Unidos no século 19. As mudanças decorrem da inclusão das massas pobres ao mercado de consumo.

Primeiro, houve um processo de industrialização na costa norte do país, que ganhou impulso a partir da década de 1820. Quando essa região ganhou musculatura, havia a necessidade de ampliar o mercado. Esse movimento levou presidentes a ampliarem programas de integração social.

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Em 1828 foi eleito Andrew Jackson, herói de guerra, o primeiro a perceber a nova democracia de massas que se desenhava. Apresenta-se como homem comum, usa um linguajar bem simples, abre os portões da Casa Branca à população e passa a percepção de que um homem do povo poderia governar o país – embora fosse de posses e proprietário de escravos.

Foi um governo de altos e baixos. Liquidou com reservas indígenas, provocou uma recessão com seu rigor fiscal, mas passou a entender o país como fruto de um desenvolvimento integrado, de setores, classes sociais, da política e da diplomacia (em 1823 surge a Doutrina Monroe, que definia a área de influência dos EUA). O país só avançaria dentro de um pacto federativo, que permitisse juntar esforços da União, estados e municípios. Essa idéia da coesão em todos os níveis – regionais (com a conquista do Oeste), sociais, inter-setoriais, federativo – marca o novo modelo.

Assim como no Brasil de hoje, a sociedade civil organizada exerceu um papel fundamental na consolidação do modelo norte-americano. Houve uma febre de associações civis, políticas, empresariais por todo o país, com os mais variados objetivos.

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Em cima dessas lições históricas, os princípios para uma oposição viável:

1.    O desenvolvimento é um sistema integrado, atendendo a todas as partes. Mas não será viável nenhum projeto político que não contemple os excluídos, as novas classes sociais e o desenvolvimento regional. Se não entender a era da democracia de massa, dança.

2.    Nesses processos de grandes mudanças, sempre haverá o choque entre a civilização (os que procuram uma transição pacífica) e a barbárie. O pior que poderia acontecer para o país seria a radicalização de qualquer lado. Nos EUA, levou à Guerra da Secessão, anos depois.

É sobre esses pontos que deverão se debruçar os novos líderes da nova oposição que surgirá. E, aí, trata-se de uma luta civilizatória. Se o estilo FHC/Serra prevalecer, até por falta de condições de rachar o país, a oposição desaparecerá – e o país pagará um custo altíssimo de não ter uma alternativa de poder. Se prevalecer a visão dos novos líderes, poderemos entrar em uma era de democracia estável.

Por Joao Carlos RB

Nassif, o problema é que é essa nova dinâmica social que determinará o surgimento de uma nova oposição. No Brasil existem as classe A, B, C, D e E. As classes A e B são inexpressivas eleitoralmente, mas partidos políticos que as representam sempre ganharam as eleições. Daí surgiu a hipótese dos formadores de opinião e das “ondas do lago”, indicando que a classe B influenciava as outras classes sociais.

Havia alguns problemas com essa hipótese. A classe C aparentemente não seria influenciada pela classe B, pois a classe C sempre foi o núcleo dos eleitores e militantes do PT, os tais de 30% que o Lula sempre tinha em eleições. Isso deve-se ao fato que a classe C são constituídos, em sua maioria, por trabalhadores com carteira assinada e sindicalizados, vide os operários do ABC, que é onde o PT surgiu.

Todavia, de 2006 para cá a classe B não está influenciando o resultado de qualquer eleição nacional e devemos, portanto, procurar outra hipótese de trabalho. Resta a análise de que as classes D e E são conservadoras, hipótese defendida pelo Sader. Ao promover a melhoria da vida dessas classes, as classes D e E procuram conservar o que guanharam no governo Lula, daí decidiram votar na continuidade que é a Dilma.

Entretanto, observem que o processo de desconcentração de renda, que é devido muito mais às políticas do governo Lula do que a oposição atual consegue admitir, gera a ascenção das classes D e E para a classe C. Por ascenção à classe C entenda-se não só a melhoria no padrão de vida e na capacidade de consumo, mas questões sociais básicas como ter carteira assinada. Esse constingente, ao longo dos próximos anos, incorporará as características básicas da classe C, incluindo a sindicalização. A tendência, ao longo dos próximos 10 a 20 anos, é se somarem aos eleitores e militantes do PT, não importando a situação histórica e econômica do momento. Portanto, não esperem deles uma base social para a oposição.

O que pode acontecer é que, caso o crescimento econômico continue forte nos próximos anos, o que acredito possível, pois aparentemente entramos num novo ciclo de crescimento acelerado, se desenvolva uma nova classe B. Todavia, enquanto a classe C parece incorporar sem resistências a ascenção das classes D e E, duvido que tal processo ocorra com a classe B sem traumas.

A classe B que existe atualmente é o núcleo social do antipetismo e possui como característica essencial o elitismo. Antes que alguém tente discutir o último comentário, o fato é que quando houve a massificação do ensino básico durante o regime militar, a classe B retirou os filhos das escolas públicas e colocou-os em escolas particulares, demonstrando ser uma classe elitista e excludente.

A atual classe B não aceitará de bom grado a ascenção da classe C, que para eles é “petista” (observem nos comentários em vários blogs como qualquer defesa do governo Lula ou crítica à oposição sempre aparece a acusação de que o comentarista é “petista… 


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