Genéricos: como vencer uma discussão sem ter razão

A Internet consagrou uma nova retórica, não propriamente fruto dela, mas vinda da lavra brilhante de Olavo de Carvalho e seu “como ganhar uma discussão sem ter razão”.

Esse estilo foi copiado por alguns blogs de esgoto e rapidamente assimilado por José Serra. Dará belo material de pesquisa futuro, para algum linguista ou psiquiatra analisar essas relações, de uma pessoa assumir a personalidade, o estilo e a retórica de outra e incorporar de tal maneira que passa a raciocinar igual. É como se o ventríloquo passasse a ser controlado pelos bonecos.

Um dos recursos é o da minimização ou maximização de um fato, de acordo com as circunstâncias.

Quando fui alvo de ataques desse povo (não do Olavo, esclareça-se), atacavam honra, família, sexualidade, não respeitando nada. Se reagisse, diziam: isso é choradeira sua. E esse mantra era repetido por seguidores na rede.

Exemplo típico de assimilação de estilo é Serra, um dia, brandir a retórica do medo. Quando a estratégia rasa é denunciada e a reação ganha escala, ele diz: «não vim aqui para discutir isso, mas os problemas reais da economia», como se nunca tivesse explorado o assunto.

Outro recurso é juntar informações que não são necessariamente mentiras mas que, no final, permitem não contar a verdade – uma das formas de mentir.

São estratagemas que funcionam no ambiente restrito de um blog. Quando praticados sob a visibilidade conferida por uma campanha, são desarmados na hora. Enganam trouxas, irritam os leitores mais racionais. Mas, mais cedo ou mais tarde, são anulados.

Confira nessa história dos genéricos. Os fatos:

  1. Em 1993 o Ministro Jamil Haddad deixou pronto um decreto criando os genéricos. Mas o projeto não andou.
  2.  Em 1999, o deputado Eduardo Jorge (na época do PT) voltou ao tema e conduziu uma ampla negociação para a aprovação da lei dos genéricos. Negociou com deputados, com o Ministério, com entidades do setor, com conselhos de saúde e conseguiu a aprovação. O Ministério da Sáude, com Serra à frente, era um dos interlocutores – não o que conduzia o processo.
  3. Aprovando a lei, é obrigação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regulamenta-la. Foi feito. Aliás, o diretor era o Gonçalo Veccina, se não me engano. É possível que Serra tenha dado alguma força.
  4. Entrando em vigor a lei, saiu pelo país fazendo campanha explícita de promoção de alguns laboratórios. Na época cheguei a ligar para ele para alertá-lo que um dos laboratórios promovidos era de um baita barra pesada que esteve envolvido com a Funasa na época de PC Farias. Mas, tudo bem, fazia parte do oba-oba político.

Em cima desses fatos, qual a versão que Serra espalhou para tentar assumir a paternidade individual da criança.

  1. Foi na sua gestão no Ministério da Saúde que a política de genéricos foi implementada. Correto. E muitos e muitos outros fatos devem ter ocorrido naqueles anos.
  2. Foi em sua gestão que a Anvisa regulamentou o uso dos genéricos. Correto.
  3. Em seu site, Serra diz que “só havia remédios de marca” e esse quadro mudou na sua gestão. Correto.
  4. Aí se entusiasma com os próprios feitos e escorrega: «foi Serra quem “mudou” isso, em 1998, ao assumir o Ministério da Saúde e regulamentar a Lei dos Genéricos». E aí deixou de lado toda uma luta histórica, pioneiros, contribuições coletivas e individuais e se apropriou o mérito de terceiros. 

Teve o mérito de enfrentar a outrora poderosa Febraban para consolidar os genéricos.

Confira matérias recentes sobre os genéricos;

G123/07/2010

http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/07/serra-diz-que-governo-lula-faz-privatizacao-diferente.html

Serra voltou a propor a criação de policlínicas de saúde no país. Segundo ele, as unidades poderiam atender 15 mil consultas por mês e realizar 40 mil exames. Também citou programas criados quando ministro da Saúde, como os medicamentos genéricos e os mutirões para a realização de cirurgias eletivas (que não são de emergência) e para a detecção de doenças como o câncer de colo de útero.

O tucano afirmou que o governo parou de “turbinar” iniciativas de sua gestão no ministério. “Parece que coisas que eram associadas a mim, como os genéricos e os mutirões, foram deixadas num segundo plano”, disse.

G1 21/07/2010

Serra diz que os genéricos foram regulamentados na sua gestão no Ministério

http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/07/presidenciaveis-disputam-versao-sobre-autoria-da-lei-dos-genericos.html

Em seu site de campanha, o tucano José Serra destaca que a lei foi regulamentada em sua gestão no ministério e critica a atenção dada ao tema pelo PT. “A Lei dos Genéricos foi regulamentada há onze anos, na gestão de José Serra no Ministério da Saúde, para ampliar o acesso da população a medicamentos, principalmente os de tratamento contínuo. (…) Mas poderia avançar muito mais.O governo do PT boicotou os medicamentos genéricos.”

Não mente completamente, só no essencial.

 (…)A campanha do PV afirma que, em 1993, o então ministro da Saúde Jamil Haddad “baixou um decreto que abriria caminho para a criação dos genéricos, mas a iniciativa não teve sucesso”.

Eduardo Jorge voltou à carga em 1999, quando Serra era ministro da Saúde. “Negociamos um substitutivo mais moderado do que meu projeto original e tivemos a aprovação da Lei 9787/99. Assim muitos ajudaram, porém o autor da lei sou eu mesmo”, disse Eduardo Jorge em nota divulgada pela campanha do PV. 

 Aprovada a lei, caberia à Anvisa regulamentá-la. Obrigação dela, aliás. Mas Serra pegou esse ponto para se conferir a paternidade dos genéricos»

http://noticias.r7.com/brasil/noticias/serra-reage-a-provocacao-de-dilma-e-reivindica-implantacao-de-genericos-20100720.html

A aprovação da Lei dos Genéricos no Congresso, porém, só ocorreu em 1999, durante a gestão de Serra na Saúde. Ele deu o passo final ao promover regulamentação da lei pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que especifica as normas técnicas para que os genéricos sejam idênticos ao remédio de marca.

Os oito anos de tramitação da lei, porém, mostra que outras pessoas contribuíram para sua aprovação. Antes dela, foi necessáriaa aprovação de outra lei, em 1997, que regulamenta a propriedade intelectual no país. A norma incluiu o Brasil nos padrões da OMC (Organização Mundial do Comércio), pelos quais qualquer produto tem sua patente protegida somente até 20 anos de seu registro.

No seu site, Serra diz:

O texto do site ressalta ainda que antes “só havia remédios de marca” e que foi Serra quem “mudou” isso, em 1998, ao assumir o Ministério da Saúde e regulamentar a Lei dos Genéricos.

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