Sanções contra o Irã: uma obsessão em cinco atos e um poema

 

Primeiro ato 

No início de seu primeiro mandato, FHC enfrentou um dilema. Para honrar a sua recente conversão ao Consenso de Washington, precisava vender empresas estatais e juntar dinheiro para pagar os juros sobre a dívida que iria acumular rapidamente com os bancos que pagavam o salário dos economistas que tinham inventado o seu novo credo. Queria começar por dar empresas lucrativas como a Petrobras aos brilhantes empresários que tinham ajudado a financiar a sua campanha presidencial, e sabia que nunca conseguiria vender a ideia aos brasileiros; mas também sabia que não cumprir a palavra dada aos financiadores de campanha era a melhor maneira de acabar com a sua carreira política. Precisava encontrar uma maneira de tornar a idéia de privatizar a Petrobras, a Vale e o Banco do Brasil palatável para os eleitores brasileiros, e para isso usou um dos truques mais velhos da história da trapaça política: chutar um cachorro morto, puxar briga com alguém de quem o público não gosta, criar um precedente e depois ir para o seu objetivo real. Assim, a venda das ineficientes, endividadas e impopulares empresas estatais de telecomunicações foi decidida e rapidamente executada. Criado o precedente, liquidar o resto deveria ter sido fácil, e de fato foi até venderem a Vale do Rio Doce por um décimo do seu valor de mercado, mas o plano foi interrompido pela sucessão de crises econômicas que reduziu o segundo mandato de FHC a um governo mendigo, ocupado em andar pelo mundo pedindo empréstimos.

 

Segundo ato

Esqueça os milhares de anos de história, esqueça os monumentos de Isfahan e Tabriz, esqueça Khwarizmi, esqueça os dervixes rodopiantes, esqueça Tusi, Alhazen, Biruni e Al-Farisi, esqueça a cozinha persa e os seus perfumes – e, principalmente, esqueça Omar Khayamm. O Irã é hoje um país que desagrada facilmente, e até é moda considerá-lo de forte mau gosto. Lembrar às pessoas que a história e a cultura do Irã têm um grande papel no que torna a nossa vida diária mais agradável e mais rica é visto como algo abaixo da dignidade de um cavalheiro – ou de uma dama. Depois de três séculos de rigorosa separação entre religião e Estado no Ocidente, a idéia de um país governado por princípios religiosos cheira a fanatismo para os nossos bons cidadãos, mesmo quando muitos de nós, se não a maioria, professam observar mais ou menos os mesmos princípios religiosos no seu cotidiano, embora com um pouco menos de rigor. Além disso, o estilo abrasivo de tantos líderes iranianos e o apoio que dão a grupos afins em outros países pouco faz para tornar o país pelo qual eles falam mais simpático aos olhos dos ocidentais sofisticados e seus clones orientais. E, acima de tudo, a nossa sociedade precisa de inimigos externos, reais ou fictícios, para manter as pessoas ocupadas com outra coisa que não a verdadeira causa dos seus problemas, e um país governado por uma religião que não é “nossa” encaixa-se perfeitamente neste perfil.

 

Terceiro ato

A idéia de separar religião e Estado nasceu simultaneamente com a ascensão de países poderosos e cada vez mais agressivos na parte do mundo em que surgiu pela primeira vez, e pode até ser considerada como parte do que fez esses países poderosos e agressivos. Três séculos de história “laica” viram o poder desses países e os seus princípios sociais e econômicos espalharem-se pela quase totalidade do globo, impulsionado por guerras, invasões, massacres de populações inteiras. O “progresso” foi imposto a um mundo que não o queria muito pelo sangue do dinheiro e a lama do livre comércio, e não é à toa que uma parte tão grande da resistência a esse avanço esmagador, do Brasil ao Irã e à China, tenha assumido a forma de uma luta contra um inimigo “sem Deus”. Depois de três séculos, o acúmulo de poder e riqueza desses países resultou em um virtual monopólio sobre os recursos do planeta. Quando esse monopólio começou a ser desafiado por novas potências emergentes, era natural que os países centrais da ordem mundial cerrassem fileiras na defesa dos seus privilégios. A Rússia, a China, os EUA, a Grã-Bretanha e a França, co-proprietários do mundo desde o fim da Segunda Guerra, não estão dispostos a dividir os frutos dessa propriedade com qualquer um que se apresente diante dos seus portões. Como sempre, e como eles mesmos fizeram no tempo deles, o castelo deles terá de ser tomado de assalto para que eles consintam em desfazer-se dos seus tesouros. As formas que este assalto assumirá estão sendo decididas agora, enquanto os castelões planejam a resistência a ele.

 

Quarto ato

Uma parte crucial desse monopólio é o que se exerce sobre as fontes de energia do mundo. Durante décadas, os atuais donos do mundo contentaram-se em controlar os países ricos em petróleo por procuração e em manter esse controle fomentando a discórdia entre esses países e incentivado um constante estado de guerra de baixa intensidade que às vezes explodia em guerras reais de curta duração. Agora, por uma série de razões, entre as quais o alto custo de evitar que o estado de conflito permanente estoure e degenere em uma guerra total e incontrolável com resultados imprevisíveis, eles querem a posse e o controle diretos. Não podem mais dar-se o luxo de ter as suas necessidades energéticas dependendo dos caprichos dos nativos notoriamente esquentados desses países notoriamente quentes, e precisam ditar os termos. Precisam encerrar os nativos em reservas sobre os quais exerçam um controle total. (O fato de que possam ser obrigados a abandonar Israel aos lobos ao longo desse processo será visto pelos historiadores do futuro como um exemplo da loucura de se colocar o próprio destino nas mãos dos senhores, confiando neles para defender os ex-lacaios da sanha daqueles que se era pago para intimidar em nome deles, quando as condições mudam e os senhores fazem novas alianças.) Esse impulso pelo controle direto foi iniciado pelos EUA em 2001, e a sua primeira fase foi concluída com a invasão do Iraque em março de 2003. No início, esse movimento foi recebido com ceticismo pelas demais potências, mas elas foram entrando na linha desde então e agora têm uma frente unida, e estão prontos para a próxima etapa.

 

Quinto ato

Controlar as fontes de petróleo não basta. A oferta de petróleo não é infinita, e controlar todas as reservas não traz benefício algum se outras fontes alternativas de energia estiverem sendo desenvolvidas enquanto os controladores estão ocupados vigiando os seus poços. É por isto que o desenvolvimento do etanol é sabotado onde quer que não esteja sob o controle deles, e é por isso, principalmente, que eles precisam criar um monopólio sobre a que é hoje a segunda fonte de energia mais importante, a nuclear. O problema com a criação desse monopólio é que a energia nuclear já está aí, disponível para qualquer um com acesso a urânio e um pouco de dinheiro para investir em desenvolvimento; e, como o urânio ocorre praticamente em todos os lugares e os investimentos em energia são sempre uma prioridade em qualquer país, isto significa que, em teoria, qualquer um pode começar a construir usinas nucleares, e neste caso o que é que eles iriam fazer com todo aquele petróleo? Sem mencionar que o pesadelo da possibilidade de que alguém tropece por acaso em um método de fusão nuclear viável para a geração de energia, tornando até mesmo o urânio inútil, aumenta em proporção direta ao número de países cozinhando átomos.

Portanto, é necessário conter a propagação da tecnologia nuclear, e a maneira mais eficaz de fazer isso é proibir que ela seja propagada, e fazer respeitar essa proibição com força militar. Mas não é possível fazer isso, porque o direito ao desenvolvimento pacífico da tecnologia nuclear está consagrado no Tratado de Não Proliferação Nuclear, que foi burramente promovido quando se achava que o petróleo duraria para sempre e a única preocupação era com a disseminação de tecnologia nuclear militar. Então, como vão convencer todos os signatários do TNP a renunciar aos seus direitos à tecnologia nuclear, transformando-a em um monopólio exclusivo dos que já a têm?

Fácil: puxam briga com o menino menos popular da turma e acusam-no de não respeitar as regras do jogo e de esconder bolinhas de gude, e depois confiscam todas as bolinhas dele e proibem-no de continuar jogando, com o apoio integral de todas as outras crianças. Estabelecem o direito de decidir quem pode jogar e quem pode ter bolinhas. Criam um precedente. Em pouco tempo, vão estar alugando bolinhas de gude para as mesmas crianças de quem foram tomadas.

Vão atrás do Irã, aquele país desagradável governado por sacerdotes de uma religião estrangeira, que por acaso é dono do terceiro maior lago de petróleo do mundo. Mas não é no petróleo do Irã que eles estão interessados, é no direito dos iranianos a desenvolverem a sua própria tecnologia nuclear. E não são os direitos do Irã que eles querem suprimir, mas o direito à tecnologia nuclear como um todo. Querem criar um precedente. Querem reformar o TNP para transformar certos aspectos do desenvolvimento de tecnologia nuclear em algo ilegal para todos exceto para si mesmos, e querem ter o poder legal de verificar intrusivamente a conformidade com essas novas regras, impondo essa verificação pela via militar se for necessário. Querem tornar obrigatórios os Protocolos Adicionais, e para isto acusam o Irã de não cumprir regras que, nos termos do TNP atual, os iranianos não são obrigados a observar, para estabelecer o direito de forçar o Irã a assinar esses protocolos, sob a ameaça de um ataque militar. Querem estabelecer um monopólio sobre o direito de definir termos para as partes não conformes, e querem ser reconhecidos como os únicos árbitros dessa conformidade. É por isto que rejeitaram com tanta veemência o acordo o Brasil-Irã-Turquia e, duas semanas mais tarde, mandaram os diretores da AIEA apresentar ao Irã exatamente os mesmos termos que tinham rejeitado, mas desta vez vindos deles e não de dois arrivistas intrometidos que não sabem qual é o lugar deles. É por isso que ministro de relações exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, depois que o país deles e os seus parceiros no Conselho de Segurança se recusaram a reconhecer os resultados de uma negociação e votaram a favor de sanções contra o Irã, declarou no Egito em 30 de junho que a Rússia “não acredita em sanções” e que os russos, franceses e americanos esperam entablar negociações com o Irã sobre o mesmo acordo de troca de combustível nuclear que desprezaram em 10 de junho quando votaram a favor de novas sanções contra o Irã por não jogar segundo as regras deles. Eles têm todas as bolinhas de gude, eles decidem quem pode jogar, e quando e como – e sobretudo com quem.

 

Um Poema

Um poeta brasileiro, Eduardo Alves da Costa, escreveu certa vez uma homenagem ao poeta russo Wladimir Maiakovski, chamada “No caminho com Maiakóvski”, que diz:

Na primeira noite
eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. 

O que está em jogo na questão nuclear iraniana é o direito ao nosso próprio futuro. Se não detivermos os barões nucleares agora, nunca mais conseguiremos.

 

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