O caixa dois norte-americano por trás da extrema direita europeia

Da Grã-Bretanha à Hungria e à Itália, a extrema direita está em ascensão. Investigações do site openDemocracy abertas no ano passado revelaram o papel vital dos conservadores cristãos dos EUA.

O caixa dois norte-americano por trás da extrema direita europeia

Tradução de César Locatelli

Da Grã-Bretanha à Hungria e à Itália, a extrema direita está em ascensão. Investigações do site openDemocracy abertas no ano passado revelaram o papel vital dos conservadores cristãos dos EUA.

Matteo Salvini na Itália

Cinco anos atrás, Matteo Salvini despiu-se e posou seminu para uma série de fotos “sexy” que foram leiloadas no eBay. Na época, ele era um alto funcionário do partido separatista da Itália, o Lega Nord. Sua bizarra sessão de fotos aconteceu à margem de uma conferência da Frente Nacional na França. Os beneficiários do leilão incluíram parte de uma rede italiana antiaborto que se diz “inspirada” pela “herança da cultura cristã” e em resposta a uma “conspiração contra a vida”.

Hoje, o partido de Salvini se transformou em um dos movimentos nacionalistas mais proeminentes da Europa (agora conhecido apenas como Lega). O próprio Salvini se tornou o ministro do Interior da Itália e o político mais reconhecido do país, encorajado pelos impressionantes resultados nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, em que seu partido obteve um terço dos votos italianos (cerca de cinco vezes mais do que os 6% recebidos em 2014).

Marine le Pen na França e Viktor Orbán na Hungria

Junto com Marine le Pen na França, líder do partido Frente Nacional ((agora renomeado como Rassemblement national – partido Reunião Nacional), o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e outros, Salvini está liderando um surpreendente ressurgimento da extrema direita da Europa. Em todo o continente, as mensagens desses populistas de direita estão cada vez mais engenhosas, suas máquinas partidárias são disciplinadas e suas políticas foram cuidadosamente elaboradas para atrair uma gama mais ampla de eleitores.

Brexit e Parlamento Europeu

Em 2013, um membro sênior do partido Conservador desprezou os ativistas anti União Europeia em seu próprio Partido Conservador como lunáticos (swivel-eyed loon). Três anos depois, veio o terremoto político do resultado do referendo Brexit – em que a franja se tornou a maioria. Hoje, os movimentos nacionalistas da Europa passaram por uma mudança comparável de velocidade e magnitude. No mês passado, eles ganharam coletivamente um número recorde de assentos no Parlamento Europeu.

“Salvar” as “raízes judaico-cristãs” da Europa

“É um sinal de uma Europa que mudou”, proclamou Salvini em uma conferência de imprensa triunfante em Milão, pouco depois do fechamento das pesquisas. Segurando um rosário, beijando um crucifixo e agradecendo ao “Imaculado Coração de Maria”, ele proclamou que está na hora de “salvar” as “raízes judaico-cristãs” da Europa. Na Hungria, seu aliado Orbán – autoproclamado defensor da democracia iliberal – saudou “uma nova era na política europeia”.

Esses movimentos não surgiram da noite para o dia, nem desaparecerão tão cedo. Desde meados de 2016, em conjunto com colegas do site openDemocracy, acompanhamos o crescimento dos movimentos nativistas [política que privilegia os habitantes nativos em oposição aos imigrantes] da Europa, desde a campanha Brexit, até o crescente domínio de Orbán sobre os controles do poder na Hungria, até as redes transnacionais que buscam bloquear ou reverter direitos das mulheres e de LGBTs. A estratégia deles começa por influenciar as eleições, os tribunais, a educação e os sistemas de saúde, bem como os formuladores de políticas e a opinião pública, e termina por tomar o poder.

Uma aliança global poderosa e bem financiada de conservadores e ultradireitistas

Começamos este trabalho de investigação quando notamos irregularidades no financiamento da campanha pró-retirada da Grã-Bretanha da União Europeia. Desde então, o quadro que surgiu é de uma aliança global poderosa e bem financiada de ultraconservadores e atores políticos de extrema-direita, muitos dos quais se unem em torno de uma cosmovisão economicamente libertária, mas socialmente conservadora.

A promoção da “vida”, da “família” e da “liberdade” de mercados

Essa visão política é explícita sobre a busca de afastar o poder das mulheres e das pessoas LGBT. Destina-se a promover a “vida” do nascituro (embora desconsiderando os riscos de abortos e gravidezes inseguros às vidas das mulheres); a “família”, que significa um retorno aos papéis tradicionais de gênero, sem qualquer espaço para as pessoas LGBT, e colocando as mulheres de volta ao lar, vistas como seu lugar “natural”; e a “liberdade” de mercados e instituições religiosas, especificamente cristãs, acima de todas as outras reivindicações de direitos ou liberdades.

Declaração de Manhattan

Essa tríade de “vida, família e liberdade” foi consagrada na Declaração de Manhattan, um manifesto escrito há quase uma década por ativistas americanos da direita religiosa. Signatários incluindo líderes ortodoxos, evangélicos e católicos comprometeram-se a agir em uníssono e determinaram que “nenhum poder na Terra, seja cultural ou político, nos intimidará para o silêncio ou a aquiescência”.

Vox, o partido de extrema direita espanhol e o partido Lei e Justiça da Polônia

Hoje, essa coalizão assumiu um tom decididamente transatlântico. Muitos dos líderes de extrema direita da Europa falam abertamente sobre a defesa da “Europa cristã”. Orbán acrescentou esta mensagem ao recente manifesto eleitoral europeu do seu partido, e Salvini frequentemente ataca a “ideologia de gênero”. Vox, o primeiro partido de extrema direita a ganhar assentos na Espanha Parlamento desde a ditadura de Franco, prometeu reverter as leis que punem a violência ligada a questões de gênero. O partido Lei e Justiça da Polônia está pressionando para proibir o aborto e estabelecer limites restritivos ao acesso das mulheres à contracepção.

A surpreendente velocidade de crescimento dos partidos nacionalistas de direita na Europa

Para aqueles europeus que gostam de ver o seu continente como o mundo mais secular e socialmente liberal, estes são desenvolvimentos preocupantes. Não é surpresa, talvez, que os países europeus sejam capazes de produzir movimentos nacionalistas de direita, mas é surpreendente a rapidez com que esses novos partidos cresceram e forçaram sua entrada no mainstream eleitoral – e é impressionante ver quantos estão adotando abertamente retórica religiosa e socialmente conservadora.

Os fluxos financeiros

Parte da explicação para esse aumento, no entanto, tornou-se mais clara para nós quando começamos a rastrear os fluxos financeiros internacionais ligados a muitos dos grupos conservadores cristãos mais poderosos dos Estados Unidos. Vários dos ativistas norte-americanos que assinaram a Declaração de Manhattan, desde então, fizeram inúmeras viagens através do Atlântico, acompanhados de uma grande quantidade de dinheiro para apoiar seus esforços.

US$ 50 milhões de caixa dois

Uma recente investigação do openDemocracy concluiu que a direita cristã dos Estados Unidos gastou pelo menos US$ 50 milhões em caixa dois para financiar campanhas e apoio na Europa na última década. (Pelas medidas do financiamento político dos EUA, isso pode não parecer uma quantia enorme, mas pelos padrões europeus é formidável. O gasto total nas eleições europeias de 2014, por exemplo, por todos os partidos políticos da Irlanda combinados foi de apenas US$ 3 milhões.)

Esses números também são provavelmente a ponta do iceberg: nossa análise focou em apenas doze grupos de direitos cristãos norte-americanos, e havia muitos obstáculos à divulgação que limitavam as informações que poderíamos extrair. Instituições registradas como igrejas, por exemplo, não são obrigadas a publicar seus financiamentos no exterior. O maior gasto parece ser a Associação Evangélica Billy Graham, que gastou mais de US $ 20 milhões na Europa de 2008 a 2014, mas os registros não estão disponíveis para além desse período, então o valor real pode ser muito maior.

Heartbeat International

Além de revisar milhares de páginas de registros do Internal Revenue Service (a Receita Federal dos EUA) desses grupos na última década, trabalhamos com repórteres em toda a Europa para acompanhar o dinheiro aos beneficiários locais. Um dos grupos que analisamos, por exemplo, foi o Heartbeat International, fundado no início dos anos 70. Baseado em Columbus, Ohio, é visto como pioneiro do modelo controverso de “centros de crise de gravidez”, que desestimulam as mulheres a acessar o aborto legal e contracepção. A organização agora tem uma rede de “centros de ajuda de gravidez afiliados” em todo o mundo e parece ter gasto mais dinheiro na Itália do que em qualquer outro lugar na Europa.

As ligações com membros da administração Trump

Como seria de esperar, também encontramos ligações entre esses grupos e membros seniores ou conselheiros da atual administração dos EUA. Nenhum divulga seus doadores, e não há exigência legal para fazê-lo, mas, pelo menos, dois conhecem laços com famosos financiadores bilionários de causas conservadoras, incluindo os irmãos Koch e a família da secretária de educação de Trump, Betsy DeVos. Um dos grupos religiosos que pesquisamos, que injetaram US $ 12,4 milhões na Europa de 2008 a 2017, lista como seu principal conselheiro, Jay Sekulow, um dos advogados pessoais do presidente Trump.

Poderosos críticos ao Papa Francisco

Outro dos grupos norte-americanos que descobrimos que gastam dinheiro na Europa é o Instituto Acton. Com sede em Grand Rapids, Michigan, ele casa o liberalismo econômico com uma agenda social cristã conservadora. Seus documentos do fisco revelam que o grupo gastou pelo menos US$ 1,7 milhão desde 2008 na Europa, onde mantém um escritório em Roma e é ligado a poderosos críticos do Papa Francisco, inclusive através de outro polêmico think tank, o Dignitatis Humanae Institute, do qual O ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, é um patrono.

Steve Bannon e a criação de “gladiadores modernos”

A Dignitatis recentemente divulgou notícias internacionais por causa dos planos de Bannon de usar um mosteiro do século XIII fora de Roma para treinar uma nova geração de Salvinis, Orbáns e Le Pens. “Vamos ter uma academia que reúna os melhores pensadores e que, na verdade, possa treinar…. o que chamamos de gladiadores modernos”, disse Bannon em uma entrevista em abril com Richard Engel, da NBC. Seus planos foram posteriormente frustrados quando o contrato de arrendamento do Instituto foi revogado pelo governo, citando várias violações contratuais. A revogação ocorreu após protestos dos moradores locais que questionaram a legalidade do contrato. Alguns dos documentos apresentados neste processo mostraram como o Instituto Dignitatis Humanae se baseou em Acton para apoiar sua requisição, detalhando as atividades conjuntas entre as duas organizações durante um período de cinco anos.

Contestadores da mudança climática, antiaborto, anti-LGBT, contra o Papa, contra o estado de bem-estar social…

O fundador da Acton, Robert Sirico, disse que o escritório de Roma havia participado desse processo sem o seu conhecimento, e que ele o instruiu a se distanciar de Dignitatis e Bannon. Mas a controvérsia em torno do envolvimento de Bannon deixa de abordar o ponto mais significativo sobre o trabalho de Acton. O think tank tem uma missão explícita de conjugar e apoiar valores do capitalismo de livre mercado e do conservadorismo social. Diferentemente dos EUA, na Europa, essa mistura de fundamentalismos muitas vezes contraditórios é um fenômeno relativamente novo, mas é uma aliança que consegue unir contestadores da mudança climática, ativistas antiaborto e ativistas anti-LGBT em ataques contra o papa “liberal”, por exemplo. Também explica o aumento da retórica contra o estado de bem-estar social que ouvimos no Congresso Mundial das Famílias, uma cúpula ultraconservadora cada vez mais influente, realizada este ano em Verona, onde um palestrante afirmou que “o único estado de bem-estar social que funciona na Itália é a família”. Esse tipo de retórica está ganhando força em lugares como a Itália e a Espanha, onde esses sistemas de benefícios e direitos há muito são populares e fortes.

África e América Latina

O apoio da direita religiosa americana a campanhas contra o aborto legal, direitos LGBT, educação sexual e outras causas na África e na América Latina foi bem documentado ao longo dos anos. Exemplos notórios como o projeto de lei “matar os gays” em Uganda e as leis antiaborto draconianas na América Latina deixaram um rastro de violência, trauma e repressão em ambos os continentes. Mas a escala da entrada dos conservadores religiosos norte-americanos na Europa não foi amplamente divulgada ou bem compreendida.

Trinta anos para a direita cristã conquistar a Casa Branca

“Levou trinta anos para os direitistas cristãos chegarem onde estão agora na Casa Branca”, disse Neil Datta, secretário do Fórum Parlamentar Europeu sobre População e Desenvolvimento, em Bruxelas, reagindo à nossa pesquisa. “Sabíamos que um esforço similar estava acontecendo na Europa, mas isso deveria ser um alerta de que isso está acontecendo ainda mais rápido e em maior escala do que muitos especialistas jamais imaginaram”.

Coordenação Transatlântica

Pouco antes das recentes eleições europeias, Matteo Salvini subiu ao palco em Verona na conferência do Congresso Mundial das Famílias (WCF na sigla em inglês). Em seu discurso, ele ridicularizou as feministas como “interessante para os antropólogos estudarem” e prometeu “lutar contra a teoria do gênero até que ela mude”. A audiência incluía proeminentes ativistas cristãos conservadores e antiaborto dos Estados Unidos, membros do governo russo e da igreja Ortodoxa e representantes de vários partidos europeus de extrema-direita.

O apoio à “família natural”

Em meio a aplausos, uma corrente de políticos italianos se juntou para declarar seu apoio à “família natural”, definida exclusivamente como um homem e uma mulher casados, de preferência com muitos filhos. Seguindo a liderança de Salvini, eles condenaram a “crise de berços vazios” da Europa e moldaram sua guerra cultural contra os direitos das mulheres e das pessoas LGBT como uma solução econômica para os persistentes problemas de baixo crescimento e altas taxas de desemprego de seus países, particularmente entre os jovens.

A coordenação entre ultraconservadores dos EUA com a extrema direita da Europa

Esta foi a terceira vez que o OpenDemocracy mandou repórteres para o WCF, depois da Moldávia no ano passado e de Budapeste em 2017, no qual Orbán também falou. Mas este ano foi diferente. Descobrimos que havia uma imagem mais clara de como os ultraconservadores norte-americanos e seus amigos da extrema direita da Europa estão trabalhando juntos. Encontramos novas evidências daquilo que um grupo de eurodeputados descreveu como coordenação “profundamente preocupante” entre alguns desses movimentos. O mais evidente foi o intenso foco dessa aliança na conquista do poder político.

“Ao controlar o ambiente dos [políticos], você também os controla”

Um dos oradores mais eficazes foi Ignacio Arsuaga, líder do grupo CitizenGo, com sede em Madri. Fundada em 2013, depois de um WCF anterior na Espanha, a CitizenGo tinha a intenção de atuar como uma resposta conservadora às gigantescas plataformas de campanha progressistas on-line, como Avaaz e Change.org. A organização da Arsuaga é mais conhecida por suas petições on-line contra casamento entre pessoas do mesmo sexo, educação sexual e aborto – e por dirigir ônibus em cidades do mundo inteiro com slogans publicitários contra direitos LGBT e “feminazis”. Do palco, Arsuaga protestou contra herdeiros do [líder comunista italiano Antonio] Gramsci, marxistas culturais… feministas radicais… totalitários LGBT”. Ele declarou que “essa guerra cultural é uma guerra global”, e disse aos participantes reunidos para buscarem ambos os caminhos diretos para o poder, via “festas e representantes eleitos”, bem como caminhos indiretos – “controlando o ambiente… você também os controla”.

Um Super Comitê de Ação Política para levar eleitores à extrema direita

Em Verona, ficamos sabendo que a CitizenGo, que conta com o apoio dos ultraconservadores americanos e russos que fazem parte de seu conselho, pretendia desempenhar um papel muito mais ambicioso e influente nas eleições europeias do que nas campanhas anteriores. Agora procurava agir, nas palavras de um alto funcionário da Vox, como um Super Comitê de Ação Política (Super-PAC) para levar os eleitores à extrema direita. Arsuaga disse a um repórter, disfarçado de potencial  doador de recursos, sobre os planos do grupo de veicular anúncios de ataque na Espanha contra os adversários políticos do Vox nas últimas semanas antes das eleições nacionais em abril.

Táticas para burlar limites de financiamento de campanhas

Ele passou a descrever como seu grupo está progressivamente coordenado com movimentos de extrema direita em toda a Europa, e disse ao repórter como ele poderia contornar as leis de financiamento de campanha em seu país. Em vários países da Europa, as leis de financiamento de campanha limitam os gastos políticos durante os períodos de campanha, limitam a coordenação entre os diferentes grupos de campanha e normalmente exigem a transparência dos doadores. As novas táticas delineadas por Arsuaga para bombear fundos potencialmente ilimitados de grupos intermediários para as corridas políticas domésticas é um novo desenvolvimento extremamente preocupante.

Apoios internacionais de peso

A composição do conselho da CitizenGo ilustra a complexidade transnacional do apoio com que pode contar. Ele inclui um parceiro de negócios próximo de Konstantin Malofeev, às vezes chamado de “o Oligarca Ortodoxo”, que tem sido alvo de sanções dos EUA e da Europa por supostamente sustentar a república separatista pró-Rússia no leste da Ucrânia. Ele também inclui um político italiano, Luca Volonte, que está atualmente em julgamento em Milão, acusado de corrupção. Uma conexão norte-americana também é visível: Brianan Brown, chefe da Organização Nacional para o Casamento e proeminente ativista anti-LGBT que também lidera o grupo Organização Internacional para a Família que coordena o WCF, é membro do conselho.

ActRight: “quanto Obama pagou para Harvard admitir sua filha maconheira?”

Arsuaga da CitizenGo disse ao nosso repórter disfarçado que ele recebe conselhos “a cada dois meses ou mais” de um “especialista sênior” em captação de recursos e tecnologia, que é, ele disse, “pago por Brian Brown.” Esse especialista é Darian Rafie, parceiro de Brown em outro grupo norte-americano chamado ActRight, que se descreve como uma “central de ação conservadora”. ActRight recentemente encorajou as pessoas a “agradecer ao presidente Trump por parar a insanidade de transgêneros nas forças armadas”, e perguntou em um post no Facebook: “o quanto você acha Barack Obama pagou a Harvard para admitir sua filha maconheira?

Captar dados pessoais dos celulares de pessoas em um comício, por exemplo

Nosso repórter também falou diretamente com Rafie, um experiente político norte-americano que trabalhou para o Partido Republicano e um canal de mídia Tea Party, e que disse que estava envolvido na campanha de Trump. Ele discutiu seu relacionamento de longa data com a CitizenGo e se vangloriou de sua capacidade de usar a controversa tecnologia de geofencing [um serviço que capta o sinal de um dispositivo que entra em um determinado espaço] para coletar dados pessoais sobre possíveis eleitores reunidos em uma área específica, como um comício de campanha, por meio de seus telefones celulares.

Desenvolvimentos assustadores

Respondendo às nossas descobertas, o ex-senador democrata Russ Feingold, que trabalhou ao lado do senador John McCain nos esforços para reformar as leis de finanças eleitorais americanas, chamou esses desenvolvimentos de “assustadores”. Ele instou as autoridades e reguladores a “avançarem e não cometerem os mesmos erros que foram cometidos aqui nos Estados Unidos”.

A interferência estrangeira no referendo sobre o aborto na Irlanda

O papel crescente que a CitizenGo parece desempenhar ao dar apoio em espécie aos partidos de extrema-direita da Europa é uma nova aplicação de métodos utilizados há muito tempo por guerreiros da cultura internacionalmente conectados que empregam conhecimentos e dinheiro em suas campanhas globais. Por exemplo, durante o referendo histórico do aborto na Irlanda no ano passado, o openDemocracy relatou como os ativistas americanos de alt-right estavam visando os eleitores irlandeses com propaganda na mídia social. Também revelamos como os ativistas estrangeiros poderiam doar para campanhas e continuar a comprar anúncios de mídia social on-line – isso na mesma semana em que Mark Zuckerberg fez uma promessa pública aos membros do Parlamento Europeu de que o Facebook tinha proibido esses anúncios estrangeiros que tentavam interferir em eleições domésticas.

Grande variedade de fraudes nas eleições húngaras

O que está claro no padrão de conexões e apoio entre os ultraconservadores americanos e os grupos de extrema direita europeus é a disposição de ambos os lados de explorar brechas nas regulamentações e adotar métodos inescrupulosos, até mesmo ilegais. No mês passado, openDemocracy trabalhou com um órgão sem fins lucrativos chamado Unhack Democracy Europe para publicar um relatório apontando fraude generalizada pelo partido Fidesz de Viktor Orbán nas eleições húngaras de 2018, incluindo compra de votos, intimidação de eleitores, adulteração de votos postais, sumiço de votos e avarias no software da eleição. (O resultado dessa eleição foi dar a Orbán uma super-maioria parlamentar, o que lhe permitiu fortalecer ainda mais seu controle sobre o judiciário, a mídia e outros órgãos de poder.) O relatório prosseguiu para identificar maneiras pelas quais as eleições parlamentares europeias na Hungria era ainda mais vulnerável a tais abusos do que os nacionais. Unhack Democracy está agora compilando um relatório de acompanhamento sobre o que realmente aconteceu lá nas eleições europeias.

Vazamento interrompeu plano de dar mais poder a lobistas religiosos

Em outro trabalho, no período que antecedeu a votação em toda a Europa, o openDemocracy recebeu um relatório vazado de autoria do vice-presidente do Parlamento Europeu, um parlamentar irlandês sênior, que procurou facilitar uma maior influência para lobistas religiosos em Bruxelas. Esse controverso plano foi arquivado depois que os legisladores protestaram, mas com um bloco maior de membros populistas de direita agora no Parlamento, a proposta deve ressurgir.

A direita radical populista tornou-se a corrente em voga

Embora os partidos de extrema-direita da Europa tenham ficado bem aquém das previsões de que eles redesenhariam o mapa do poder político europeu, por conta de desempenho ruim na Alemanha, Holanda e Dinamarca, obtiveram ganhos significativos – especialmente na Itália, Hungria e França. “Em vez de uma vitória para a democracia”, concluiu o acadêmico holandês Cas Mudde, as eleições europeias mostraram como o populismo, e particularmente “a direita radical populista”, se tornou “a corrente em voga e normalizada”.

“Brexit, a Bíblia e Borders” (as fronteiras) poderiam “tornar a Europa grande novamente”

Na conferência do Congresso Mundial das Famílias, em Verona, na véspera dessas eleições, o clima foi tomado por júbilo. “É ótimo estar entre um grupo de radicais de extrema-direita”, brincou o escritor conservador cristão e personalidade do YouTube, Steve Turley. Proclamando um “despertar”, da América de Trump à Índia de Modi, Turley previu que os conservadores religiosos logo superariam os “secularistas” – simplesmente por superá-los na geração filhos. Outro americano, um advogado do Missouri e ativista republicano chamado Ed Marton, coautor de um livro chamado The Conservative Case for Trump, chegou ao pódio com um chapéu MAGA (Make America Great Again – Faça a América Grande de Novo) e proclamou que “Brexit, a Bíblia e as fronteiras” poderiam “tornar a Europa grande novamente”.

Fortes protestos em Verona

Mas nem tudo sairá como o desejado para Marton e seus colegas. Pela primeira vez na reunião do WCF, as multidões que protestavam do lado de fora eram muito maiores do que a plateia do lado de dentro. Mais de 30.000 manifestantes tomaram conta de Verona depois que o grupo feminista Non Una di Meno, inspirado pelo movimento pioneiro argentino Ni Una Menos (“Nem Uma a Menos”), convocou uma manifestação. As pessoas viajaram de toda a Itália e até da Bielorrússia, da Espanha, da Croácia e da Grã-Bretanha para participar.

“Este é apenas o começo”, diz ativista croata contra o movimento da extrema direita

No dia seguinte, um grupo menor de mulheres encenou um protesto silencioso vestido com as icônicas vestes vermelhas e capotas de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood. Essas vestes foram usadas por mulheres que protestavam contra a reação contra os direitos reprodutivos nos EUA, assim como na Polônia, Austrália, Irlanda e Argentina. Conhecemos uma mulher da Croácia que disse que planejava participar de uma “caminhada pela liberdade” para combater uma “caminhada pela vida” anual contra o aborto quando ela chegasse em casa. “Este é apenas o começo”, ela nos disse.

Este artigo apareceu pela primeira vez na New York Review of Books e a versão aqui traduzida foi publicada no site openDemocracy.

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2 comentários

  1. Triste realidade. Com a crise econômica mundial, cada vez mais as “ongs do bem” terão menos recursos para sobrevida e as instituições de apoio às guerras e ao sectarismo terão mais recursos advindos dos poucos numerosos, porém mais ricos.

  2. Este grande momento podemos classificar com iliberalismo a formação de grupos populistas de direita que assumem o poder pela democracia e lá estando vão tomando as instituições e se reelegendo consecutivamente até consolidada um regime com aparência de democracia liberal.

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