O ping pong de Dilma na Folha

O texto do Nassif parte de uma visão de política eminentemente manipulatória, em que os protagonistas são, exclusivamente, os políticos e os poderosos e em que o povo e a militância servem para “apoiar” quando necessário (nos embates, na campanha eleitoral), mas não serve para opinar sobre o rito de governar (e de transigir, contemporizar, capitular), que segue o “protocolo” do “responsável” (segundo a definição do “status quo”, tido como natural).

É uma visão que contempla, a política, simplesmente, como uma profissão técnica, com suas regras naturais e imutáveis, neutra e não ideológica (ou seja, paradoxalmente, não política!). Na fase da campanha eleitoral – momento exclusivo de participação da militância – pode-se ser “ideológico”, ou seja, “irracional”, “irresponsável”, “partidário”. Pode-se fazer o contraponto, a guerra, a disputa. Uma vez ganho o governo, é o momento da “responsabilidade”, da composição com os poderosos. Não é mais o momento da militância.

É a hora da adaptação ao “status quo” aos limites do natural, que é a positividade do sistema que está aí.

É uma concepção que vê com naturalidade o conchavo com os detentores do poder e da riqueza no “status quo” para se manter no governo (não no poder, que está, sempre, nas mãos de quem detém o controle da produção da riqueza e o manejo das armas) – mas, se não é para desafiar o “status quo”, por que, para a esquerda, estar no governo? E para a militância e o povo que a apoiaram? Basta um agradinho manipulatório, como simbolismo, para que não a deixem na próxima jornada eleitoral.

É uma visão que olha a imprensa – mesmo a mais raivosa e suja, que apoia ditaduras e torturas – como, incrivelmente, não ideológica (afinal, ideologia não faz parte da prática da responsabilidade, da racionalidade do “status quo” administrado, mas do momento-paixão da campanha política, o “carnaval da democracia”).

Ausente desta visão estão os interesses de classe e a encarniçada disputa pelo controle da produção da riqueza e reprodução dos papeis sociais hierarquizados, que – se necessário – devem ser preservados a ferro e fogo, por meio de golpes, tortura e morte, como foi após 1964 ou, mais ilustrativamente, no Chile de Allende, onde tudo estava em jogo.

Se observamos por este outro ângulo, vemos que, ou um governo de esquerda se rende totalmente ao “status quo” e não implementa nenhuma mudança significativa, ou, não importa que agrado faça aos poderosos, será bombardeado por eles com todos os recursos, legais ou ilegais, pacíficos ou hostis, que esses poderosos dispuserem. E o único refúgio de um governo de esquerda que não se rende é a irrupção na arena política daquele mesmo povo, daquela mesma militância que o texto quer restringir ao carnaval da disputa eleitoral tão somente.

Mas, para que esse povo, essa militância possa se instrumentalizar para a luta política, é necessário à líder política de esquerda que não se dobra aos poderosos que fale claro, que preze o discurso verdadeiro, de princípio, que não tema analisar a realidade como ela é e dar nome aos bois (como Allende, por exemplo, fazia – acompanhem o documentário A Batalha do Chile, de Patricio Guzmán).

Este, aliás, é o último ponto em que, a meu ver, o texto do Nassif peca: a descrença da palavra, a desimportância dela, que pode ser manipulada ao bel-prazer das circunstâncias sem maiores consequências na consciência das pessoas, do povo, da militância. A presidenta pode fazer um discurso, no aniversário do jornal mais prestigiado da classe dominante, vindicando o discurso do inimigo e, ao mesmo tempo, desqualificando o discurso da própria militância em sua defesa, sem que isso seja mais do que um agrado, um aprochego manhoso à elite dominante (que, ingenuamente, pensa-se, vai desarmar essa elite cheia de interesses materiais em jogo), sem nenhum impacto na consciência das massas e no árduo processo de desmistificação que arma os setores dominados para as lutas (afinal, como disse Marx, “a arma da crítica não podia evidentemente substituir a crítica das armas, porque a força material não pode ser derrubada senão pela força material; mas, logo que penetra nas massas, a teoria passa a ser, também ela, uma força material”).

Essa visão da política é um terrível obstáculo para o avanço da consciência e das lutas dos trabalhadores e oprimidos, mas é sintomático de uma esquerda que renunciou a essas lutas pelo caminho (ou beco sem saída!), aparentemente mais fácil dos acordos com os poderosos. 

Comentário

Uma leitura mais atenta do meu post mostrará a preocupação com a possibilidade de afastamento do governo Dilma dos movimentos sociais. Agora, não dá para ignorar outros personagens relevantes – e até agora dominantes – da política.

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