Brasilianas: Novas tecnologias devem revolucionar mercado da energia como conhecemos hoje

Com o aumento de residências geradoras e novas possibilidades tecnológicas de produção própria, qual será o futuro da regulamentação? É a pergunta que Guilherme Dantas, um dos maiores estudiosos do tema hoje no Brasil, tentou responder no seminário Brasilianas
 
Guilherme Dantas (GESEL/UFRJ)
Guilherme Dantas. Foto: Euler Jr/Cemig
 
Jornal GGN – Nos últimos 120 anos, as inovações no setor elétrico, assim como no setor de telecomunicações, ocorreram lentamente. Com a revolução digital esse quadro mudou drasticamente e o desenvolvimento espantoso ainda terá consequências difíceis de avaliar. Algumas delas foram antecipadas, num esforço de interpretação da realidade atual e de projeção futura, por um dos maiores estudiosos do assunto do país, o professor Guilherme Dantas, doutor em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, durante o painel “Impacto das novas tecnologias, residências geradoras e política tributária”, realizado no âmbito do fórum Cidades Inteligentes e o novo mercado de energia, realizado pela Plataforma Brasilianas em parceria com a Cemig, nesta quinta-feira (30), em Belo Horizonte. 
 
Depois de uma rápida exposição sobre o Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel/UFRJ) do qual participa, Dantas afirmou que “o mundo da geração terá que se aproximar do mundo da distribuição, inclusive com a simulação de tarifas modais”. A geração centralizada vai continuar, mas os dois estarão alinhados. Segundo o professor, as empresas de distribuição ainda vivem no tempo do fit-and-forget (instala e esqueça), o que precisa ser modificado.
 
Para repensar a distribuição, o momento vai exigir atenção às novidades, como medidores inteligentes, com carregamento, e de tensão, que serão necessários diante das mudanças que trarão impacto na distribuição dentro da ótica econômica e técnica. Os investimentos em redes inteligentes se tornarão necessidade básica. O compartilhamento de dados e informações também terá que se tornar mais próximo entre a geração e a distribuição.
 
Além disso, não se pode perder de vista a questão de que o consumidor vai querer ser mais participativo e auto suficiente, o que gera outras perguntas. Se alguém instalar placas fotovoltaicas e com isso, conseguir reduzir o pagamento da conta de luz para ele mesmo, vai continuar a usar a mesma rede instalada, com um custo que continuará elevado para quem não pode arcar com esse tipo de investimento?
 
Outra dificuldade está na forma de negociação da energia excedente. Um telhado poderá ser alugado para a instalação de placas fotovoltaicas para que energia possa beneficiar outro estabelecimento comercial, uma padaria, por exemplo? Que papel poderá desempenhar agências reguladoras, como a Aneel num mercado futuro para os ajustes dos preços de tarifas? Para o professor, esse é o momento de se repensar tudo.
 
Será que uma cidade, em que o fornecimento de energia antigo funcione bem, vai querer arcar com o custo da substituição por outro de custo mais elevado? A Siemens já enfrenta essa dúvida na Alemanha. Nem sempre o consumidor pode ser onerado pelos investimentos.
 
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Estabelecer mercados, portanto, será também importante. A energia será vendida pelo consumidor ou pelo operador da rede? Os fios vão continuar? O operador da rede vai se manter como o dono dos fios? O dono do fio poderá ser um investidor em distribuição? Qual será o papel do distribuidor?  São muitas questões ainda em aberto, pondera Guilherme Dantas.
 
Para os próximos 30 anos, com relação às distribuidoras, o pesquisador admite que ainda não vê maiores problemas. Ainda assim, não se pode deixar de avaliar o que está por vir. E mais: há que se levar em conta os enormes problemas sociais e os desafios da universalização. Soluções precisam ser implementadas na medida em que se fazem necessárias.
 
Quanto às tarifas, Dantas lembrou que ninguém é contra a sustentabilidade, mas é preciso trabalhar direito o conceito. Afinal, o fato de a energia excedente poder ser compensada à noite vai significar o uso da rede no tipo 0800? Sem pagar? Isso seria razoável? Os grandes questionamentos relativos a custos regulatórios persistem com relação ao que será aceito ou não.
 
O passado deixará de ser referência para os custos futuros? Tudo isso e muito mais pode ser avaliado, ainda, em duas publicações das quais Guilherme Dantas é coautor: Políticas Públicas para Redes Inteligentes, escrito com Nivalde de Castro, e Experiências Internacionais em Geração Distribuída: motivações, impactos e ajuste. Para quem estiver interessado, é uma leitura recomendável.
 
Guilherme Dantas é mestre em Economia e Política da Energia e do Ambiente pela Universidade Técnica de Lisboa e Graduação em Economia pela UFRJ. Especialista em Economia Industrial, Economia da Regulação e Fontes Alternativas de Geração de Energia Elétrica. Além disso, realiza avaliação econômica do aproveitamento de biomassa para produção de energia elétrica, biocombustíveis avançados e/ou plataformas químicas.
 
Perspectivas de descentralização dos sistemas elétricos
 
Difusão de recursos energéticos distribuídos associada a redes inteligentes tende a resultar em grandes transformações no paradigma operativo do sistema elétrico, acredita Dantas. Os sistemas energéticos distribuídos caracterizam-se por fluxos multidirecionais de energia, flexibilidade da demanda e consumidores mais participativos. Ele acredita que não apenas novas relações irão surgir entre os agentes, como também novos agentes.
 
A operação e o planejamento das redes de distribuição precisarão ser revistos, vide o fato que metodologia “fit-and-forget” deixará de ser adequada e a relação com a rede de transmissão será modificada e a necessidade de examinar as melhores alternativas tecnológicas para expansão da rede de distribuição, considerando parâmetros técnicos e econômicos
 
Difusão de sistemas energéticos distribuídos exigirão que distribuidoras passem a ter controle ativo da rede
 
Segundo Dantas, é possível fazer analogia com mercado atacadista/sistema de transmissão. Contudo, é preciso ressaltar algumas especificidades do sistema de distribuição. Isso porque redes de distribuição são mais complexas e ramificadas; mercados para os serviços de distribuição são locais e pouco líquidos; usuários pagam tarifas reguladas pelo uso da rede de distribuição e, finalmente, recursos energéticos distribuídos podem ser fornecidos para a rede ou para consumidores finais.
 
Modelos tarifários
 
Tarifas adequadas são condição basilar para correta coordenação das transações entre provedores de serviços e consumidores. Haverá crescente necessidade de considerar as diferenças existentes entre os usuários da red. As tarifas do uso da rede devem ser simétricas e neutras em relação à tecnologia adotada. Segundo o professor, é crescente a importância de tarifas com sinais temporais e locacionais. Dentro desse contexto, será necessário comparar os benefícios do aumento da granularidade dos sistemas de preços e tarifas com o custo de implementação e aceitação social.
 

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