“A máfia prospera onde o capital econômico é mais poderoso do que o capital social”, avalia Vincenzo Romania

"Não são lutas simples, para as quais não há receitas prontas, mas devemos ter coragem para lutar”.

“A máfia prospera onde o capital econômico é mais poderoso do que o capital social”, avalia Vincenzo Romania

por Arnaldo Cardoso

O aniversário de 30 anos – na última segunda-feira (23) – do Massacre de Capaci, atentado de autoria de mafiosos da Cosa Nostra, que matou o juiz italiano Giovanni Falcone, sua esposa e mais três agentes de segurança, numa estrada nos arredores de Palermo, foi lembrado pelo atual Presidente da República, Sérgio Mattarella, como um “estrondo seguido por silêncio ensurdecedor” simbolizando a desorientação do país diante do golpe contra a república italiana. (Dois meses depois foi assassinato o juiz Paolo Borsellino, também engajado em operação de combate à máfia). Cinco chefes mafiosos da Cosa Nostra envolvidos com os assassinatos foram condenados à prisão perpétua.

Embora o premiê italiano Mario Draghi avalie que hoje a Itália “é um país mais livre e mais justo” depois dos “golpes decisivos [infligidos por Falcone e Borsellino] contra a máfia”, essas históricas organizações criminosas não foram derrotadas. No último dia 10, em Roma, foi desencadeada a operação “Propaggine” que levou à prisão 77 pessoas ligadas à máfia calabresa ‘Ndrangheta, entre elas o prefeito da cidade de Cosoleto, Antonino Gioffré. A ‘Ndrangheta é considerada uma organização criminosa com complexa ramificação de negócios e com atuação global.

É nesse contexto que estabelecemos um diálogo com o sociólogo italiano Vincenzo Romania, professor associado de Sociologia da Universidade de Pádua.

Iniciamos o diálogo pedindo-lhe que fizesse uma avalição da situação atual da segurança pública na Itália frente ao crime organizado – questão que tem afligido cada vez mais, também o povo brasileiro – tendo em perspectiva os últimos 30 anos. Vincenzo fez o balanço abaixo:

“Em 30 anos na Itália muitas coisas mudaram. Passamos de uma fase de máxima insegurança em relação ao crime, no início dos anos noventa, para uma posterior fase de relativa estabilidade. Quando os magistrados Giovanni Falcone e Paolo Borsellino foram mortos, as máfias italianas tinham dado um salto qualitativo, encontrando uma unidade prolongada entre entidades territoriais para lutar uma luta direta contra o Estado. Desde então, as investigações continuaram sobre a relação Estado-Máfia, ou seja, sobre as conversas secretas entre representantes das instituições e chefes da organização mafiosa, mas além de pistas amplas e substanciais, uma substancial verdade jurídica nunca foi estabelecida. Essa fase correspondeu na Itália a uma era de profunda anomia política, dada pelo fim da Primeira República e o desmantelamento dos grandes partidos da representação popular: a Democracia Cristã e o Partido Socialista Italiano fortemente envolvidos nas investigações de Tangentopoli (Operação Mãos Limpas), e finalmente o Partido Comunista Italiano que se transformou com o fim da Guerra Fria.

A situação atual, se analisada através de dados estatísticos, é de grande segurança. O número de assassinatos a cada ano flutua entre 300-400 assassinados, para uma população de 60 milhões de pessoas, é menos do que o que acontece em uma única metrópole americana. Os mesmos crimes contra o patrimônio e contra a pessoa estão em grande declínio, também como resultado de políticas sociais eficazes (a partir da renda básica) e de um envelhecimento demográfico da população.

A internacionalização das máfias

Mas isso não significa que as máfias foram derrotadas. Elas mudaram bastante sua natureza, investiram sobretudo em mercados internacionais rentáveis, como é o caso da ‘Ndrangheta que é a máfia dominante na Europa para o tráfico de drogas e que mantém importantes relações políticas, sociais e econômicas com muitas nações da América do Sul como Colômbia, Bolívia e Brasil.  As máfias ainda desempenham um papel importante na expansão capitalista industrial, através da gestão de resíduos e de uma série de outros crimes menos visíveis, relacionados à aquisição de matérias-primas e à exploração do trabalho.  E então eles encontraram um equilíbrio interno entre máfias e com as instituições. Isso não quer dizer, portanto, que a política local, a justiça e a informação estão fora de perigo. Pelo contrário, a máfia ainda tem grande poder especialmente nas regiões do sul, mas também em áreas ricas do norte da Itália, do Veneto à Lombardia”.

Na sequência dessa competente síntese oferecida pelo sociólogo italiano perguntamos se as instituições jurídicas e políticas italianas se encontram hoje mais resistentes e eficientes no combate às máfias.

Vincenzo avançou na análise expondo conquistas, mas que não permitem excesso de otimismo.

“Após os primeiros maxi-julgamentos dos anos noventa, os meios e a organização do sistema de justiça certamente cresceram. Medidas legais como o congelamento de bens tiveram um efeito claro, por exemplo, no fim dos sequestros. Mas seria um erro grave pensar que instrumentos legais ou políticas sociais são suficientes para derrotar as máfias. Para derrotar as máfias precisamos de uma grande participação popular, um movimento de emancipação que implemente práticas diárias para combater abusos da máfia.

A máfia prospera onde o capital econômico é mais poderoso do que o capital social

Em outras palavras, a máfia prospera onde o capital econômico é mais poderoso do que o capital social. É errado pensar que a máfia surge nas áreas mais despossuídas.  São áreas com grandes desigualdades internas, mas sobretudo com um enorme problema de fracos laços sociais. 

Em 1978, na pequena vila calabresa onde meus pais nasceram, um moleiro foi morto porque ele não baixou a cabeça para uma família mafiosa que tinha forçado todos os comerciantes a fechar seus negócios por respeito ao luto de um de seus membros. Desse assassinato nasceu um forte movimento de opinião, apoiado pelo Partido Comunista Italiano e um mural que reúne essa luta popular, que considero muito adequado para a luta que estamos lutando: “Luta, unidade e participação popular para o crescimento civil e democrático de Gioiosa Jonica e do Sul”.

Alternância entre governos tecnocráticos e populistas

Neste momento do diálogo com Vincenzo Romania deslocamos o foco para a dinâmica política institucional. Perguntamos a ele se compartilha da avaliação de que a disputa eleitoral política na Itália nas últimas duas décadas produziu uma alternância entre governos tecnocráticos e populistas, e se há uma superação para isso. Vincenzo foi bastante assertivo e franco em sua resposta.

“Sim, concordo plenamente com este resumo, embora eu seja muito cético sobre ambas as categorias. Governos tecnocráticos são geralmente a expressão de uma estrutura econômica que encontra na política representantes de seus interesses, legitimados por seu aparente distanciamento do mundo político. Mas eles não são realmente estranhos a algumas lógicas francamente neoliberais. Governos tecnocráticos, em várias áreas do mundo, da Argentina à Itália, produziram de fato uma estabilidade substancial e um anestesiamento dos conflitos sociais, visando à afirmação da vontade das grandes instituições financeiras. São, portanto, uma expressão da disciplina biopolítica, que comprime significativamente os direitos dos mais frágeis em favor de uma expansão descontrolada dos mecanismos de privatização e mercantilização do espaço público”.

Quando o Estado se torna o fiador do mercado, ao fazê-lo abdica de sua própria função

“Estamos de fato em uma realidade já descrita por Karl Polanyi (1886-1964), mas se quisermos ir ao extremo: o Estado se torna o fiador do mercado, mas ao fazê-lo abdica de sua própria função. Um exemplo recente dessa dinâmica tem sido a luta contra a pandemia Covid-19 que, não surpreendentemente, garantiu muito mais os segmentos mais ricos da população ou os interesses das grandes multinacionais. O Brasil é, nesse sentido, um exemplo trágico de subestimação consciente do risco pandêmico e adaptação aos interesses capitalistas do mercado.

O populismo, por outro lado, é uma categoria vaga e flexível. Fenômenos muito diferentes estão incluídos, do peronismo aos modelos participativos do Podemos espanhol, passando pelo Movimento Cinco Estrelas na Itália. O que une essas experiências históricas muito diferentes é a crise das formas tradicionais de representação partidária e democrática.

Na Itália, a força dos movimentos populistas tem razões diferentes. Em primeiro lugar, decorre de uma situação significativa de compromisso dos partidos de direita com ilegalidades. Em segundo lugar, associou negativamente os partidos de esquerda e, em particular, o Partido Democrata, com a suposta perda de soberania ligada à integração europeia e à restrição do Estado de bem-estar social. Na prática, motivos internos e dinâmicas internacionais, comuns a todas as grandes democracias contemporâneas, se cruzam. Estamos em uma fase em que as demandas antipolíticas da Liga do Norte e do Movimento Cinco Estrelas foram muito enfraquecidas pelo próprio envolvimento desses partidos nas formas legítimas do estabilishment. Mas a fase de transformação política dos partidos tradicionais ainda está em curso, e não será muito curta”.

Atentos e interessados pelo particular e pelo geral, pelos contextos e dinâmicas específicas que caracterizam o nacional e, ao mesmo tempo, pelas questões transversais globais, observamos que, mais intensamente na última década, com o fortalecimento eleitoral da extrema direita ou da “direita radical populista” em vários países, a bandeira antissistema tem sido levantada por esses líderes iliberais e, para a esquerda, o que tem restado é o papel de fiador das instituições, muitas das quais, com mau funcionamento e alvo de críticas dos cidadãos.

Ressaltei que no Brasil, Bolsonaro se apresenta ao seu eleitorado como a verdadeira força popular da transformação e que, analistas políticos, como recentemente o fez o filósofo Vladimir Safatle, identificam como um problema a falta de “imaginação política” da esquerda no tratamento conceitual e prático dos problemas estruturais que afetam a sociedade brasileira.

Vincenzo fez na sequência as considerações que seguem, concluindo esse fértil diálogo.

“Há dinâmicas peculiares do contexto italiano, que o tornam, pelo menos em parte, muito distinto do Brasil. A esquerda italiana, em particular, tem sido atacada nas últimas duas décadas por seu “abandono das classes trabalhadoras”, sua aparente abertura aos fluxos migratórios e sua incapacidade de repensar efetivamente as políticas sociais. No entanto, na minha opinião, foi sobretudo uma incapacidade analítica de prever e neutralizar as transformações econômicas e do mercado de trabalho ligadas à digitalização e à globalização.

A pandemia e a subsequente onda inflacionária ligada ao conflito russo-ucraniano parecem ter mudado os processos de globalização e isso constitui uma situação provavelmente favorável para repensar o papel da esquerda no novo cenário nacional. Acredito que é fundamental, neste momento histórico, poder ouvir os crescentes movimentos ambientais, pois é sobre políticas ambientais que o futuro será jogado primeiro. Em segundo lugar, a esquerda deve mudar sua atitude em relação às instituições internacionais e ser capaz de negociar mais fortemente a defesa do Estado de bem-estar social. Em terceiro lugar, a saúde deve se tornar um tema de luta política absoluta, juntamente com a defesa dos principais bens comuns: água, energia, educação.

Não são lutas simples, para as quais não há receitas prontas, mas devemos ter coragem para lutar”.

* A comunicação foi estabelecida originalmente em italiano, traduzida para a presente publicação.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela PUC-SP, escritor e professor universitário.

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