A transformação do Partido Republicano sob a liderança de Donald Trump seguiu um padrão previsível de seis etapas de adaptação política — processo que pode começar a se repetir entre os democratas diante do fortalecimento da ala socialista do partido.
Em artigo no site Axios, os jornalistas Mike Allen e Jim VandeHei argumentam que a consolidação do trumpismo entre os republicanos não ocorreu de forma abrupta, mas por meio de um processo gradual de acomodação, no qual lideranças inicialmente críticas ao então candidato passaram, ao longo dos anos, a defendê-lo e reproduzir sua retórica.
Para os autores, mudanças profundas em partidos políticos tendem a seguir um roteiro recorrente, identificado por alterações graduais no discurso de parlamentares, dirigentes e eleitores.
As seis etapas da transformação
Segundo o Axios, o processo observado entre os republicanos pode ser dividido em seis fases.
A primeira é a rejeição, quando lideranças criticam abertamente o novo movimento ou liderança. Como referência, o texto cita declarações feitas durante as primárias republicanas de 2016 por figuras como Lindsey Graham e Ted Cruz, que classificaram Trump como inadequado para a Presidência.
Na segunda fase, chamada de relativização, as críticas passam a ser evitadas. Parlamentares deixam de confrontar diretamente episódios polêmicos e recorrem a justificativas como a necessidade de enfrentar um adversário considerado mais perigoso.
A terceira etapa é descrita como a da racionalização. Nesse momento, os críticos reconhecem aspectos controversos da liderança, mas argumentam que seus resultados políticos compensam os problemas de estilo ou comportamento.
Em seguida vem a submissão, quando o custo político da divergência se torna elevado, citando como exemplo o ex-presidente da Câmara Kevin McCarthy, que responsabilizou Trump pelos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, mas posteriormente reaproximou-se do ex-presidente republicano.
Na quinta fase ocorre a amplificação, caracterizada pela adoção da linguagem, das prioridades e do estilo político do novo líder. O exemplo citado é o atual vice-presidente JD Vance, que passou de crítico de Trump durante a campanha de 2016 a um de seus principais aliados.
Por fim, a sexta etapa corresponde ao expurgo, quando integrantes que mantêm posições divergentes passam a perder espaço político ou deixam o partido. O artigo menciona nomes como Liz Cheney, Jeff Flake e Bob Corker, além de derrotas recentes de parlamentares republicanos em disputas internas apoiadas por Trump.
A hipótese aplicada aos democratas
A partir desse modelo, os jornalistas sugerem que o Partido Democrata pode estar entrando nas fases iniciais de um processo semelhante, impulsionado pelo crescimento de candidatos identificados com o socialismo democrático.
Os autores destacam pesquisas do instituto Gallup mostrando aumento da receptividade ao socialismo entre eleitores democratas, especialmente entre os mais jovens, além de recentes vitórias de candidatos alinhados à esquerda em eleições primárias, como o avanço de Zohran Mamdani em Nova York e a derrota de parlamentares tradicionais para candidatos ligados ao socialismo democrático em disputas locais.
Segundo a análise, parte dos democratas estaria adotando uma estratégia semelhante à observada entre republicanos nos primeiros anos do trumpismo, procurando substituir referências explícitas ao socialismo por temas considerados eleitoralmente mais palatáveis, como o combate ao alto custo de vida e políticas de acessibilidade econômica.
Apesar da comparação, os próprios autores reconhecem que há diferenças importantes entre os dois contextos, uma vez que o socialismo democrático ainda enfrenta forte resistência entre lideranças do Partido Democrata e que o movimento não dispõe, por enquanto, de uma figura com capacidade de exercer influência nacional comparável à de Trump sobre o eleitorado republicano.
Além disso, parte significativa da imprensa tradicional norte-americana permanece crítica às propostas socialistas e que candidatos desse campo ainda precisarão demonstrar competitividade em eleições gerais, especialmente em distritos considerados decisivos para o controle do Congresso.
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