Em busca dos caminhos do Brasil.

Este trabalho é um resumo do material por mim colhido em recente viagem de reconhecimento sobre as duas principais vias de ligação entre as regiões Nordeste e Sul-Sudeste: A BR-116 ou Rio-Bahia; e ferrovia anteriomente conhecida por Estrada de Ferro Central do Brasil.

Não foi ainda desta vez que incluí o Velho Chico no roteiro (de Pirapora-MG a Brejo Grande-SE), já que foi este o primeiro caminho de fato pelo interior brasileiro a ligar o Norte e o Sul. Aliás, nem mesmo a intenção de percorrer as ligações norte-sul por terra, seja por ferrovia, seja por rodovia, consegui completar; mas dei uma boa adiantada. A seguir um pequeno roteiro ao qual irei adicionando vídeos, quase todos feitos por mim na viagem.

Quarta-feira, 09 de fevereiro, saio em busca das estradas que levaram os nordestinos para o Sul, especialmente em São Paulo. Foram 13 horas de viagem sacolejando dentro de um ônibus desde Itabaiana, em Sergipe até a terra do poeta Elomar Figueira de Melo, a velha Conquista da primeira metade do século 18, ou, Vitória da Conquista. O lugar fez parte de intensa campanha militar portuguesa contra as tribos indígenas locais com a finalidade de abrir caminho até o Araçuaí, no alto Jequitinhonha.

De Conquista, já na quarta, dia 10, e onde me demorei apenas até a troca de ônibus sigo por mais sete horas para Montes Claros, a capital do norte mineiro. Na estrada, a BR-251, o típico planalto brasileiro com algumas elevações um pouco mais salientes; grandes extensões de cerrados entrecortadas por organizadas plantações de eucaliptos e pinus. Curiosamente quase não vi madeireiras. As únicas cidades no trajeto de 340 quilômetros são Salinas, que se avista da estrada, e Francisco Sá, já próxima a Montes Claros, e por onde se passa pela periferia. A estrada é bastante movimentada e, curiosamente, é grande o número de cegonhas, seja em direção à Bahia, seja deste estado em direção a Montes Claros. Caminhoneiros por mim depois consultados afirmaram que a estrada se firma cada vez mais como alternativa à Rio-Bahia, fazendo um eixo com a Fernão Dias desde BH até São Paulo.

Montes Claros é minha primeira base. Daqui atingirei Monte Azul, o grande objetivo desta minha viagem ao norte mineiro. Chegando por volta das quatro da tarde, escolho um hotel próximo à rodoviária, simples, barato, mas, que me pareceu uma casa típica de interior mineiro, acolhedora. Talvez tenha sido manipulado psicologicamente pela música da Fernanda Takai, não sei. Gostei. Inclusive do preço. Aproveitando o resto da tarde vou até a estação ferroviária. Está às moscas, com duas composições paradas no pátio. Tudo trancado. O funcionário da vigilância explica que entrada somente com autorização da gerência… que tinha saído, já que já eram mais de cinco da tarde. Rodeei e “gretei” através de uma cerca conseguindo o vídeo que queria. Enquanto isso o pensamento voa tentando reconstituir o ruge-ruge de gente há quatro ou cinco décadas atrás naquele espaço. Vem à mente o Milton, a Elis… e a Maria Rita, ambos a cantarem “Encontros e despedidas”. Tento reconstituir mentalmente as imagens dos milhares de nordestinos e mineiros do norte a passarem por ali em direção aos grandes centros do Rio e de São Paulo, bem como para os sertões paulistas e paranaenses. O silêncio daqueles trilhos semi-abandonados só é quebrado pelo barulho dos carros nas ruas adjacentes ou pelos poucos e teimosos passarinhos a habitar um espaço, há muito ocupado pela arrogância tecnológica humana. Fotografo e frente da estação pintada de laranja e me vou. A companheira que levo de escudeira – os meninos estão todos criados – aproveita pra tirar algumas fotos. O taxista é simpático e me dá algumas informações adicionais. 

Passo pelo terminal rodoviário, bem limpo, bem cuidado e arejado e busco os guichês das empresas que possam me levar até Monte Azul. Compro a passagem, retorno ao hotel e vou descansar porque lazer é o diacho pra cansar. Às seis da manhã preciso me tocar pro norte.

Tomo o ônibus na rodoviária e rumo pro Monte Azul. É sexta-feira, 11 de fevereiro.

Um tio meu que movido pelas histórias de riqueza e fartura do Sul rumou pros sertões paulistas no início da década de 40 me falava deste lugar com ares de poeta apaixonado. E eu me apaixonei pelo nome, confesso. Meu tio retornou no mesmo ano dos sertões de Piraju, em São Paulo, desiludido; as histórias, contudo ele as contava o tempo inteiro aos meus receptivos ouvidos de curioso. Além de tudo, Monte Azul era o primeiro contato dos nordestinos com as Gerais depois de atravessarem a Bahia usando o trem. Conta Seu Etelvino Gonçalves Dias, taxista, nascido, criado e vivente no lugar, que a falta de logística entre as composições que vinha do Nordeste e as que vinham de Belo Horizonte acabou por prejudicar a cidade, já que, durante muito tempo, apenas um trem chegava da Bahia semanalmente, enquanto diariamente chegava um de Belo Horizonte. Isso acabava por gerar excedente de estranhos na cidade, o que levou a muitos conflitos que acabaram por impingir à cidade a pecha de lugar violento.

Na estrada, a BR-122 vou vendo pastagens, matas e mais matas de eucaliptos, serras, e buscas de afirmação de comunidades como a de Porteirinha e seu Cristo Redentor bem grandão, nos 240 quilômetros cortando cerrados. Antes, em Janaúba, a visão do progresso na visível grande quantidade de residências de padrão nova classe média recém-construídas ou em construção; os carrões nas ruas e um comércio promissor onde foi possível perceber. O segredo para tal vigor, ou pelo menos parte dele percebi logo ao sair da cidade em direção a Porteirinha e Monte Azul: extensas plantações irrigadas, especialmente de banana. Aliás, o que vi de terra que, em minha opinião tem forte potencial agrícola na região não foi de pequena monta.

Perto da pequena Mato Verde um susto: um jovem que viajava numa poltrona, uma linha à frente e do lado direito entra em crise de epilepsia. A minha companheira, mais apta que eu no assunto já que auxiliar de enfermagem – no momento, apenas a serviço do exército da Dona Zilda Arns (Quanta saudade!) – tenta ajudar. Orienta o companheiro de viagem do rapaz. O motorista, educado e responsável, para o ônibus e vem tomar pé da situação. Num instante forma-se um cordão de solidariedade que concorda com o motorista em parar no pequeno hospital da cidadezinha para dar melhor assistência ao rapaz. A crise de epilepsia sempre passa rápido; entretanto, um pouco mais de cuidados é necessário. Todos concordam e ganhamos mais vinte minutos na viagem, mas também a certeza de que o nosso agora ex-acompanhante terá a assistência necessária. E rumo à estrada. 

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Pouco mais de meia hora estamos entre a Serra Geral, as gerais propriamente ditas, à direita; e seu prolongamento do lado esquerdo. Vencida a serra, eis Monte Azul, o lugar que jurei um dia conhecer. Pequenina, espraiada entre a BR-122 e a linha férrea por onde atualmente apenas raros trens de carga passam.

Após descer do ônibus na pequenina, simples e graciosa rodoviária com seus indicativos de sanitários masculinos e femininos numa cartola e num buquê de rosas tomamos o táxi do S. Etelvino que, enquanto rola rumo à antiga e gloriosa estação de outros tempos vai nos contando sobre a mesma. Ao chegar à antiga estação tomo a câmera de vídeo e começo a filmar. Mais uma vez assalta-me os pensamentos vividos na estação de Montes Claros. Aqui o drama é mais intenso haja vista o clima de passado que envolve a própria cidade, coisa que não se percebe em Montes Claros e seus arranha-céus, shoppings center e outros símbolos da modernidade, inclusive um show programado para a noite do sábado, 12. Em Monte Azul, como em Porteirinha e principalmente em Janaúba percebe-se um renascer dos investimentos, todavia o clima de passado ainda se faz mais intenso.

Em Monte Azul ainda visitei a bela e acolhedora pracinha da matriz e a própria, a graciosa Matriz de Nossa Senhora das Graças (perdoe-me a redundância!). O comércio é bem pequeno, próprio de um lugar que, também pequeno, sofre a com a influência cada vez maior de Janaúba, a 114 quilômetros, e principalmente pelo fato de não ser pólo de atração entre as cidadezinhas de Mamonas e Espinosa cujos territórios já lhe pertenceram.

Meio dia, uma fome danada, nos salva uma pequena churrascaria à margem da BR-122. Nada de sofisticação; coisa de interior, mesmo. Porém limpo e, principalmente… êta churrasco gostoso!

Às duas da tarde rumamos de volta a Montes Claros.

Em Montes Claros, nenhuma programação – viajar é fogo! Dormir e nos preparar para BH.

Dia 12, sábado, próxima parada: Belo Horizonte. Montes Claros vai ficando pra trás e, com maior freqüência várias cidadezinhas vão aparecendo (Bocaiúva, 1 e 2; Buenópolis 1 e 2). De um trecho da estrada, a BR-135, nas proximidades de Buenópolis é possível ver a linha de trem que passa célere por dentro da capoeira até desaparecer por completo. Então, já havíamos passado por Bocaiúva e seu Cristo; e por Engenheiro Navarro. Sobe-se serra, se desce serra… o chapadão sempre presente, coberto de cerrados onde permanece a flora nativa, ou eucaliptos, onde há grande plantações do mesmo. Súbito, cruzamos o Rio das Velhas, caudaloso, depois de quase quinhentos quilômetros de percurso, no município de Augusto de Lima, divisa com o município de Corinto, ambos em Mins, naturalmente. Perto das onze horas passamos por Curvelo, e logo a seguir o encontro com a BR-040, já no município de Paraopebas. E a seguir, Sete Lagoas. Esta já aparece como povoado do município e comarca de Sabará num mapa de 1815 levantado por Bernardo José da Gama em cumprimento a uma Provisão Régia de 25 de agosto de 1813. Apenas observo-a ligeiramente da BR-040, e só. À tarde, com Mineirão em reforma vai ter briga de galo com raposa aqui. Em BH, uma beleza. Pelo Google já havia me localizado: rodoviária, hotel, centro e… a estação ferroviária na Aarão Reis. Fico na Espírito Santo com Santos Dumont(a gritaria no video é da torcida cruzeirense). Aliás, fiquei curioso com os nomes de tribos dados a ruas do centro de BH. Uma delas me chama mais a atenção que as demais: a Rua dos Caetés. È que pelas informações que obtive previamente, é na dita rua onde se toma o ônibus coletivo para a velha Sabarabaçú (perdoem se chamo assim; é vício de pesquisador apaixonado pela História). Bem, instalado no hotel, gentilmente o atendente me dá um guia de BH. Tomei-lhe, todavia não necessitava: desta vez não vir conhecer BH. Nem mesmo o que existia mais próximo como o Museu de Artes e Ofícios, que me pareceu em reforma, defronte à Praça Rui Barbosa, salvo engano.

Meu foco em BH é, a estação na Aarão Reis e a velha Sabarabaçu. No dia seguinte, domingo, 13, tomo o coletivo na Caetés e, vinte… trinta minutos, talvez um pouco mais (não contei), estou eu junto ao ribeiro onde Manuel Borba Gato disse ao governador geral Artur de Sá Menezes que Saberabossu ou It’aberab’açu não era uma “serra grande que resplandece”, como dizia a lenda de dois séculos, nem era de prata como assim foi procurada em Paranaguá (PR) e em Itabaiana (SE), mas de ouro. Ouro que brotou às toneladas do ribeiro de Sabará e do próprio rio das Velhas. A visão a partir da ponte principal sobre o rio das Velhas impressiona pelo conjunto: o ribeiro fazendo foz no rio das Velhas; a ponte férrea desativada à direita, uma das igrejas dos tempos do ouro e o prédio da antiga cadeia como a dominar o conjunto. Não me demorei muito, a ponto de me sentir saciado, logo, a vontade de voltar ficou. Uma escultura do fundador da cidade, Borba Gato, está estrategicamente colocada na principal via da cidade que é também o trecho urbano da MG-262, contudo, um protesto que faço: pra quem não conhece ou pouco conhece da história toda, aquilo ali é apenas um trambolho a empatar a visão dos motoristas. Gente, o cara tem uma importância enorme na construção da brasilidade; ele merece mais destaque, não acha?

Bem, de volta a BH – o tempo urge – noite e a expectativa para mais um grande momento da aventura: minha primeira viagem de trem. Já tomei todas as informações, todavia, lavro aqui um protesto, fiquei chateado com o taxista que me levou do hotel até a Aarão Reis: o cara da cidade, obviamente conhecendo tudo, encontra um mané necessitando de orientações e joga o cara num ambiente inóspito daqueles sem sequer uma advertênciazinha? Explico. Peguei as indicações de que o trem partiria pra Vitória às seis da manhã. Como estava num domingo não houve como checar o horário na própria estação. Saio do hotel antes das seis, óbvio, esperando encontrar muita gente já aguardando a viagem. Ocorre que o horário não é às seis e sim às sete e, pior, talvez devido ao horário de verão a Vale, operadora do trem de passageiros transferiu para um pouquinho mais tarde: sete horas e trinta minutos. Junto à estação funcionam uns baresinhos com cara de barra pesada. Chego eu lá às seis, um breu, com esse maldito horário de verão; os bancos cheios de mendigos ou outros desabrigados dormindo; um barzinho com cara de barra pesada e o danado do taxista, um profissional do turismo, sequer tem a gentileza de alertar para o ambiente? Graças ao garotão que servia no bar, fui lá mesmo me abrigar até que às seis e vinte, mais ou menos começou a chegar gente no portão de entrada da estação e às sete em ponto a estação abriu. Ponto para o garotão e a turma do bar com cara de barra pesada e um lamento para um profissional do turismo que, se o passageiro não vai pro aeroporto ele joga em qualquer canto sem sequer uma advertência, mesmo observando a ignorância notória sobre o meio do mesmo passageiro.

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Bem, As sete o portão da estação abriu, comprei os bilhetes e… sete horas de aventuras e constatações. Por exemplo, a constatação: que diabos passa na cabeça dos estrategistas do país ao substituir – ou deixar morrer – um transporte barato, de notável qualidade superior, onde sequer nas curvas se sente algum sacolejo, por uma droga de transporte sacolejante, onde se tem que andar amarrado, muito mais poluente, muito mais barulhento e muito mais caro como é o ônibus? Porque não usa-lo em toda a sua capacidade? Inclusive na condição de transporte também do próprio carro do passageiro no caso de longas distâncias? Porque, já que existem as linhas, não usa-lo como pequenas e, portanto mais ágeis unidades? Enfim, porque deixar se destruindo tantas linhas férreas construídas com sacrifício, hoje entregues à ferrugem como constatei em praticamente todo lugar onde encontrei uma delas?

Enfim, segunda-feira, 14 de fevereiro do ano da Graça de Nosso senhor Jesus Cristo, às sete e meia da manhã lá estou eu dentro do trem. O locutor anuncia a viagem – que farei apenas até metade do percurso, em Governador Valadares – e avisa que este é o único trem diário de passageiros no país. Dá as orientações necessárias e partimos. Vou na classe econômica (apenas trinta contos de réis toda a viagem) por dois motivos: conhecer a realidade do passageiro padrão do trem, as pessoas simples residentes no percurso; e ter uma visão privilegiada do conjunto quando este entrar numa curva pelo lado onde vou sentado. Isso me dá também uma visão mais natural, todavia passarei por um transtorno. Desavisado e desatento não leio as advertências postas à entrada do vagão de que, ao entrar nos túneis, é aconselhável que se fechem as janelas Resultado: cheguei à Estação de Ipatinga “negão”; com a cara preta da fuligem dentro dos túneis. Isso mesmo! Trapalhadas também fazem parte das aventuras. Enfim, lá se vai o conjunto. Uma a uma as cidadezinhas (Santa Bárbara… Cel Fabriciano vão ficando para trás. Infelizmente, quase todas do lado esquerdo da linha, sentido Vitória, e eu sentado do lado direito a “filar” um espacinho de vez em quando no lado alheio. Logo depois de passar pelas cercanias de Sabará começa o vai-e-vem das locomotivas de minérios. Contei composição de 92 vagões, uma lagartona de quase um quilômetro e meio de comprimento. A partir de Rio de Piracicaba, antes de João Monlevade,  o rio de mesmo nome, afluente do Doce com quem encontramos em Ipatinga. A cada estação o locutor anuncia a parada, sua denominação, localização, posição de embarque e desembarque e tempo para o mesmo. Na pequenina estação de Periquito, alguns garotos tentam vender picolés, frutas e outros. De Ipatinga até Valadares, meu destino, a ferrovia e o rio Doce praticamente se confundem numa paisagem monótona, geralmente representada por pastagens degradadas, inclusive com voçorocas que certamente contribui para assorear o leito do grande rio, caminho indicado pelo padre André João Antonil em seu livro Cultura e Opulência do Brasil por suas minas e drogas, de 1711. O livro foi proibido a seguir a sua publicação por que simplesmente “entregava o ouro”; descrevia com detalhes minuciosos como chegar às minas das Gerais, tanto pelo Rio de Janeiro, como, principalmente pelo rio Doce. Isso num tempo em que os mares andavam infestados de piratas, ingleses e franceses, principalmente.

A poucos quilômetros de chegar a Valadares encontramos o trem de vinda, que saíra de Vitória em sentido inverso ao nosso, justo às sete e meia. Uma festa, com alguns passageiros, notadamente turistas, fazendo pequena algazarra. Enfim Valadares, meu segundo ponto focal do transporte rodoviário na Rio-Bahia.

Valadares é outra espécie de sub-capital mineira. Encravada no leste do estado, está às margens do grande rio Doce, todavia, é uma cidade tipicamente da Rio-Bahia. Nasceu quase junto com a estrada – um pouco antes – e cresceu com ela. Nos últimos tempos tem sido alvo de fortes investimentos devido ao grande número de migrantes, especialmente nos Estados Unidos, mas, sua essência econômica e social ainda é a estrada. É uma cidade moderna, alegre e com uma identificação ímpar que é a serra das Ibiturunas, de fato um pico de 1.050 metros de altura que domina vasta área do vale do velho Doce. Ponto de apoio dos caminhoneiros do norte desde o início dos anos 50, meu particular interesse nela é justamente por isso, hoje um pouco atenuado pela concorrência de Teófilo Otoni, mais ao norte, e Muriaé, bem mais ao sul.

E lá meu fui às Ibiturunas. Visão espetacular da área e, de certa forma influenciado por Zé Geraldo e sua canção ao Rio Doce, de um festival da Globo, salvo engano, de 1980. Lá em cima um grupo de garotões até se animaram achando que minha maluquice poderia ir além da conta; ou seja, saltar com um deles num parapente. Coragem até que tenho; só faltou vento favorável (me engana que eu gosto!). O taxista que lá me levou por aquela estradinha íngreme… cabra corajoso! Além de taxista um perfeito guia. Seu desejo maior: voar de parapente. Não foi desta vez. Voltei pro hotel, simples e aconchegante. Adorei Valadares. Só não permaneci por mais tempo porque eu tinha “milhas e milhas a percorer antes de dormir”.

Na terça-feira, 15, retomo a estrada em direção a Além Paraíba, fronteira sudeste de Minas com o Rio de Janeiro, ponto de referência na Rio-Bahia e de seus caminhoneiros. Antes de lá, pequenas e médias cidades, quase todas produto da Rio-Bahia vão desfilando numa freqüência bem maior do que a vista no norte do estado de Minas: Dom Cavati, Inhapim, Entre Folhas, Caratinga, Santa Rita de Minas, Santa Bárbara do Leste, os populosos distritos do município de Manhuaçu, Realeza e São Pedro do Avaí, São João do Manhuaçu, Fervedouro, Miradouro, Muriaé, Laranjal 1 e 2, Cataguazes e Leopoldina.

Em Além Paraíba, filmo a ponte sobre o velho e aqui manso Paraíba do Sul; e a estaçãozinha de trem – mais uma – abandonada. De imediato sigo pra Três Rios, meu ponto de apoio imediato. Objetivo? Encontrar um parente de Pati do Alferes onde vou sossegar o facho por dois dias e ir até a Paraíba do Sul, importantíssimo entroncamento ferroviário de até pouco tempo atrás. Um desejo velado me persegue na Paraíba: a torcida pelo pleno funcionamento da Maria-Fumaça com a qual quero me presentear com uma curta viagem, fazer uma média com a companheira, óbvio; e filmar o conjunto pra ter uma imagem de como eram as coisas. De Três Rios sigo direto para Avelar, no Pati do Alferes. Ali, a cena alegre de encontrar meu parente, mas também a de mais uma cena triste: milhares, quem sabe milhões de reais apodrecem sob forma de trilhos, estação do tempo dos ingleses, galpões e até casa do gerente da estação… praticamente tudo abandonado. Tudo no lugar é calmo. Nem cachorro late. Perfeito pra quem precisa de paz. Somente ao terceiro dia volto à Paraíba, agora pra filmar o que for possível – a Maria-Fumaça foi desativada mais uma vez – e seguir viagem. Pego a ex-gloriosa estação da Paraíba do Sul, imagens dos vagões do desventurado trenzinho imperial – que quase nunca funciona – e afins, e em seguida o destino é Barra Mansa. No caminho, lembrança de dois brasis: o da riqueza feita no lombo de escravos e o da tentativa de redimir os descendentes de escravos, ambos em Vassouras; e em Volta Redonda uma das faces da tentativa de refundar um país. Em Barra Mansa quero pegar o encontro da ligação entre a Rio-Bahia e Via Dutra, feita pela BR-393 e pela 494. Também pego a linha férrea e em seguida… Sampa. Na velha Piratininga me hospedo no largo de Santa Efigênia. A intenção é óbvia: viver um mínimo que seja da São Paulo das grandes migrações. Circulo pela mesma, pelo São Bento, Anhangabaú, Mercado Municipal, e elas: a Ipiranga com Avenida São João, lembrados por entre outros, os poetas Caetano e o Dr. Vanzolini. “Gente que desceu do Norte”, como diz o Belchior não dá pra ir a São Paulo e não sentir a alma paulistana (faltou a Paulista, óbvio); seria perder a viagem. O resumo do trabalho árduo misturado ao orgulho e até a arrogância; o pragmatismo aliado à desconfiança, esta herança dos guaranis pelos inúmeros cruzamentos com as índias dos séculos XVI e XVII… enfim, a Júlio Prestes e sua bandeira meio americana de São Paulo, bela e impávida, um colosso; a emoldurar a velha estação por onde passaram tantas esperanças e tantos desesperos. A Sala São Paulo. Diabos, estava fechada no horário em que fui e eu não tive tempo de esperar um pouco mais. Concordo com o Caetano: São Paulo é como o mundo todo (in Vaca Profana). Por consolo, me fiz fotografar junto ao busto do Eleazar de Carvalho, mesmo mal batendo nas cordas de um violão. Filmei o conjunto de estações e… o tempo acabou. Fiz as malas e de novo… agora pra Baixada Santista. Dia 18, sexta. O pedaço mais nordestino do Brasil depois do Nordeste. Ainda mais que na capital paulista. Mas o meu objetivo na Baixada é porque desde o negro, ex-escravo Quintino de Lacerda, fundador do mocambo (quilombo era coisa de negros fugidos) e hoje, Bairro do Jabaquara, em Santos, que vai gente do meu lugar pra lá. Até jogador do Santos e da Seleção já houve. Há nordestinos por todo o interior paulista e paranaense, todavia, é na Baixada onde esta presença é mais marcante. E, ainda mais para o meu objetivo, já que foi para a Baixada onde os primeiros caminhões de minha terra foram levar produtos dela, criando vigorosa frota nela, e ajudando a engrandecer o intercâmbio Norte-Sul. E é disso que se trata a minha busca.

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Em Santos, ponto focal, meu objetivo é filmar o Porto que faço a partir do morro do Monte Serrat – a capela no topo do mesmo está em reforma. Na subida pelo bondinho (meu tipo de pagamento de promessa é outro; logo, nada de subir a pés as centenas de degraus íngremes da escada de acesso) encontro um grupo de animados turistas a fazer a típica algazarra de quem está feliz. Isso é bom. Felicidade nunca será demais. Vista linda! Porto, Bairro do Jabaquara, ao longe Ponta da Praia e o Gonzaga. Como uma espinha dorsal a cortar a cidade ao meio, os três quilometros de Avenida Ana Costa. Perto da entrada do túnel consigo enxergar a pequenina estátua de Quintino de Lacerda, próximo à Santa Casa e junto desta o campo da Portuguesa Santista (que anda meio desaparecida… ou é minha impressão?). De lá de cima também dá pra ver o complexo da Vila Belmiro, templo dos santistas e tantos brasileiros que reconheceram algum tipo de glória nos pés dos craques piscinos. Mais umas cenas de referencias nortistas como as “Casas do Norte”. Aqui encerro esta etapa de minha busca. Uns dias a mais na Baixada – São Vicente, onde encontro mais um lamentável exemplo de desperdício do dinheiro público na abandonada estação ferroviária de Samaritá; Praia Grande, Cubatão… pra visitar alguns parentes, inclusive um deles violeiro repentista meio aposentado; e, pé na estrada de volta ao “Lugar morada do povo de onde vem as águas”. Às minhas serras, quase uma Saberabaçu.

No retorno aproveito para registrar o pedaço de Rio-Bahia a nordeste de Minas que deixei pra trás. Em ordem inversa ao sentido sul, ou seja, agora em sentido norte, Frei Inocêncio, Teófilo Otoni, Catuji, Itaipé 1 e 2, Padre Paraíso, Ponto dos Volantes, os pães de acúcar do Vale do Jequitinhonha, o próprio, mais algumas casinhas de interior e Itaobim. Fico a dever, por enquanto, a etapa baiana, bem mais próxima; “um b’cadin longe” como ouvi no norte de Minas, mas não tão longe assim.

Enquanto isso fica o desafio a alguém a repetir o grande Augusto Riedel, e refazer o roteiro de Suas Altezas Reais, Duque de Saxe e seu augusto irmão D. Luís Philippe ao Interior do Brazil no anno 1868 (Iconografia da BN-Rio, Coleção Dona Tereza Cristina)

No roteiro, Morro Velho em Nova Lima, Sabará (que acabo de visitar), Santa Luzia, Jequitibá, Diamantina, nascentes do Jequetinhonha, em Minas; Bom Jesus da Lapa e Capim Grosso; em Alagoas, Piranhas e a Cachoeira de Paulo Afonso. A fotografia relativa a Piranhas está equivocadamente listada como sendo de Sergipe. Mais aqui (clique).

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