O retratado, por Maíra Vasconcelos

Os pintores com suas mãos decepadas
olhos infinitos de chuva invernal
podem transpor o mundo das almas 
as almas alagadas em mil pontos de intercessão
atravessadas por doidos lados e ângulos 
preferenciais e desprezados
as almas com seus passos gemidos
dentes travados entre culturas 
as almas redefinidas 
pela décima junção e separação 
das casas gentes e endereços de festa 
copos amassados pelos dedos
em xícaras de chá como reinos do tempo
as almas conferidas aos familiares e amigos 
cumprimentos de bochecha
mãos escorregadias pela memória
almas às vezes vagarosas como pelos de gato.

 

Os pintores com suas mãos decepadas
concluem a cada retrato toda aparente 
forma humana
extraem a única figura cabível
delimitam as primeiras e últimas 
expressões admitidas
e com as quais no mundo 
sabemos estar e permanecer 
como se nunca fôssemos embora.

*poema escrito em agosto, 2017.

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