Quando Joyce Moreno é Dorival Caymmi, por Aquiles Rique Reis

O melhor de Joyce é a sua capacidade de surpreender com excelência.

Quando Joyce Moreno é Dorival Caymmi

por Aquiles Rique Reis

O melhor de Joyce é a sua capacidade de surpreender com excelência. Agora mesmo, ao lançar Fiz uma viagem – Canções de Dorival Caymmi (Pau Brasil), algumas dessas “surpreendências” floresceram: emoldurar com sua arte a obra de Dorival Caymmi; criar arranjos em harmonia com a música dele – simples, mas genial; e a pujança de seu violão, esteio de sua música.

Produzido por Rodolfo Stroeter e com produção executiva de Carolina Gouveia, nele o piano de Helio Alves, o contrabaixo de Rodolfo Stroeter e a batera de Tutty Moreno acompanharam Joyce, que, por sua vez, emprestou a alma para que se transmutasse numa interpretação viva da obra de Dorival.

“Maracangalha”: o violão toca a intro, Joyce faz vocalises. O piano é sutil, o contrabaixo é seguro, a batera usa algumas percussões, o balanço impera. Suingada, Joyce se esbalda.

“Sábado em Copacabana”: violão e voz iniciam arritmo. O canto é leve, numa interpretação digna de uma canção de Dorival. Com improvisos, o piano faz o intermezzo. E todos levam o arranjo ao final.

“Vatapá”: violão, voz e assobio iniciam. A batera é fundamental para segurar a onda. Polindo o balanço, Joyce é supimpa!

“Não Tem Solução”: nesta linda canção de Dorival, voz e piano começam em dueto. O trio vem com o violão. Mais uma vez o intermezzo cabe ao piano. Joyce faz vocalises, mas logo retoma o canto, para um doce final em fade out.

“História dos Pescadores”: verdadeira ópera popular cantada com emoção. Dinâmicas, affrettandos, rallentandos, enfim, tudo o que notabilizou o drama operístico de Dorival, Joyce trouxe de volta ao mundo.

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“Nunca Mais”: a canção inicia arritmo. Na segunda parte o trio se ajunta com o violão. Apesar de soarem suavemente, as interpretações têm energia total.

“Maricotinha”: o violão traz o samba irrequieto. Sempre com o trio dando pinta, Joyce arrasa. Ela dobra a própria voz. A simplicidade do samba é de fazer a cabeça girar. Joyce coroa o arranjo dobrando a própria voz.

“Canoeiro”: uma das canções praieiras de Dorival, que sobe nas ondas da respiração. Tutty Moreno surfa, Dorival dropa e Joyce desliza no swell de responsa.

“Saudade de Itapoã”: a intro é de Joyce com o violão. A suavidade realça a beleza do canto de despedida. A emoção paira no ar.

“Acalanto”: violão e piano trazem a cantiga de ninar. Joyce é puro amor incondicional de mãe. Na mudança de tom, um agudo se expõe. Ao lado de Dorival, uma criança dorme.

“Canto de Nanã”: o violão puxa a levada. Com a voz dobrada, vem a letra. Vocalises conduzem a um improviso do piano. A batera é firme. O baixo é forte. Um fade out fecha a tampa.

Fiz uma viagem – Canções de Dorival Caymmi revelou Joyce Moreno incorporada em Dorival Caymmi. Tipo assim: ele era ela. Com picardia baiana e espírito carioca, as músicas passaram a soar como se fossem simplesmente de Joyce Moreno, que deu asas a seu instinto viajante.

A ventura de sua intuição a tudo transformou em tesouro, com peixe de ouro e sino de prata.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

 

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