01 O Samba É Minha Nobreza

A historia do samba no rio e a própria historia da cidade nova (como diz o samba nasceu no asfalto).

Cultura – Centro da Cidade

VOCÊ SABIA…

… Em 1810 D.João VI criou a “Cidade Nova”, que ia do campo de Santana até São Cristóvão. Com ruas retilíneas e extensos lotes, muito se diferenciava da área central, congestionada de casas em lotes estreitos. Na mesma ocasião, o Rei criou uma praça onde começava o extenso mangal de São Diogo: o Largo do Rocio Pequeno, berço da Praça Onze de Junho.

Apesar de ser a única praça de comércio da Cidade Nova, continuou quase deserta por bom tempo, devido ao chão a sua volta ser muito pantanoso. Somente no começo do segundo Império, em 1842, o local recebeu algumas melhorias, sendo cordeada e ganhando um grande chafariz neoclássico em pedra, inaugurado em 1848, projeto do arquiteto da Missão Artística Francesa Auguste Henry Victor Grandjean de Montigny.

O Barão de Mauá foi quem mais fez pelo progresso da área. Já em 1851 iniciou a construção de uma grande “Fábrica de Gás”, num prédio neoclássico projetado nas proximidades da praça e que em sua maior parte ainda subsiste, sendo a atual sede da Companhia Estadual de Gás. Inaugurado em 1854, no mesmo ano era iniciada a obra do canal do mangue, pensada por Mauá como sendo a forma mais barata e inteligente de sanear aqueles chãos, bem como estabelecer no mesmo canal um sistema de hidrovias ligando o subúrbio ao Centro. Mal sabia Mauá que setenta anos antes, um alferes mineiro, ou melhor, Tiradentes, propusera coisa parecida ao então Vice-Rei Luís de Vasconsellos, sem ter tido sucesso. Em 1858, os trilhos da estrada de ferro da estação D. Pedro II cortava a Cidade Nova, ligando-a a vários subúrbios, tornando o projeto de hidrovias de Mauá obsoleto.

Com a vitória das forças navais brasileiras contra a esquadra paraguaia em Riachuelo, a 11 de junho de 1865, a Câmara Municipal ordenou a mudança do nome do Largo do Rocio Pequeno para Praça Onze de Junho, em lembrança a nossa maior batalha em águas inimigas. Seis anos depois, a praça ganhou sua primeira escola pública. Por essa época várias fábricas e manufaturas haviam se estabelecido nas redondezas, atraídos pelas fáceis comunicações e pelo grande número
de terrenos baratos, já que eram em áreas alagadiças. Logo em 1859 circulava a primeira linha de bondes pela Cidade Nova. Em 1872 outra linha de bondes torna o bairro a área mais bem servida de transportes coletivos. Em 1869, o mangue foi embelezado com palmeiras.

Com a abolição da escravatura em 1888 e a Proclamação da República em 1889, os moradores de melhor nível social mudaram-se para os novos bairros da Zona Sul, deixando para a Cidade Nova enormes casarões desertos, logo ocupados por fábricas, casas-de-cômodos, cortiços e barracos. Pela proximidade das áreas portuária e central, pelos bons transportes coletivos e pela existência de muitas fábricas e manufaturas, o local foi escolhido para moradia de ex-escravos saídos das senzalas das fazendas do Vale do Paraíba.
Essa comunidade aglomerou-se em volta da Praça Onze, transformando-a em o primeiro gueto negro do Rio de Janeiro. Para lá, levaram sua cultura e arte, surgindo desse amálgama social o samba, canção e dança negra de cunho nitidamente urbano, feito nas senzalas e aprimorado na Praça Onze. Curiosamente, ainda em 1888 chegavam à Praça Onze grande leva de judeus imigrantes, sendo que um deles, Joseph Villiger, fundaria no mesmo local a primeira grande fábrica de cervejas do Rio: a Brahma.

Surgiu, portanto, da união de dois povos tão distintos, um casamento perfeito: samba com cerveja.

Na casa de uma negra baiana e respeitada macumbeira foram forjados muitos ritmos africanos. Tia Ciata, ou Assiata, como era conhecida, foi, talvez, a maior conhecedora de músicas e ritmos africanos daquela comunidade, de onde saíram sambas históricos e compositores de talento. Em 1926, depois de longa perseguição policial, alguns compositores locais fundaram uma “escola de samba”, nome eufêmico de uma associação recreativa sem ser, na verdade, de fins educacionais. A primeira foi a “Deixa Falar”, cuja divisão, anos depois resultaria em várias escolas “filhotes”, como a Estácio de Sá, Mangueira e Portela.

Em 1933, o prefeito Pedro Ernesto Batista organizou o primeiro desfile oficial de Escolas de Samba da Praça Onze, de onde a Mangueira saiu vencedora. Os desfiles passaram a ser anuais, com grande afluência do público. Entretanto, em 1942, com a abertura da Avenida Presidente Vargas, a Praça Onze foi arrasada pelas obras, incluindo a transferência do belo chafariz de Grandjean para a Praça Afonso Vizeu, no Alto da Boa Vista.

Apesar da destruição do local, a resistência cultural falou mais alto e a Cidade Nova nunca deixou de sediar os desfiles de samba, a não ser por curtos períodos. Por um bom tempo os desfile foram realizados na Avenida Presidente Vargas. Depois de alguns anos, passaram para a Avenida Marquês de Sapucaí, no Catumbi. Foi nela que em 1983 se construiu a avenida dos desfiles, mais conhecida por Sambódromo, projetada por Oscar Niemeyer e inaugurada em março de 1984, com um desfile histórico, onde a Mangueira ganhou mais uma vez. No local da velha Praça Onze de Junho, foi levantado em 1986 o monumento em bronze e cimento em homenagem à Zumbi dos Palmares, como lembrança da resistência cultural da comunidade negra que ali habitou e sobreviveu a todas as intervenções.

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