Bolsonaro não está passando por “domesticação” ou “conversão democrática”, diz Haddad ao GGN

"O que de fato está acontecendo é uma acomodação muito perigosa de forças ultraconservadoras, com uma agenda econômica clara", diz o professor. Assista

Jornal GGN – “Não é razoável imaginar que Bolsonaro está passando por uma conversão democrática”. O líder de extrema-direita sempre foi “coerente com seu pensamento autoritário”, defendeu e segue defendendo a Ditadura militar, tortura e assassinatos de rivais políticos à esquerda. A paz combinada com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, aplacando as críticas da imprensa, não é “domesticação”. “O que de fato está acontecendo é uma acomodação muito perigosa”, diz Fernando Haddad em entrevista exclusiva a Luis Nassif, na TV GGN [assista abaixo].

Na visão do ex-ministro da Educação e professor da USP, o Brasil não está “voltando ao Estado Democrático de Direito, como alguns estão imaginando. Não se trata aqui de uma volta ao garantismo, aos direitos fundamentais, ao artigo 5º da Constituição. Não é nada disso. O que está acontecendo é uma acomodação de forças ultraconservadoras, com agenda econômica clara – que passa pela diminuição do Estado, a privatização das empresas estratégicas, redução do investimento per capita dos serviços sociais essenciais, da Saúde e Educação sobretudo”, apontou.

“Então não vejo no horizonte essa acomodação [dos demais poderes em relação a Bolsonaro] como um resultado auspicioso a ser comemorado como se o presidente da República tivesse passado por processo de domesticação”, avisou.

NEOFASCISMO

Na entrevista ao vivo, concedido na noite de domingo (11), Haddad falou que desconfiava da onda conversadora que o mundo vive hoje desde o final dos anos 1990. Ali já “vinham se acumulando evidências de desregulamentação financeira e, em algum momento da década seguinte, no mais tardar, as bolhas financeiras que estavam turbinando os mercados de ativos iam explodir.”

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Para ele, a esquerda não estava preparada para a crise do neoliberalismo que se avizinhava. “Porque o nacional-desenvolvimentismo tinha feito água; a social democracia estava em crise na Europa e o socialismo real tinha se decomposto naquele quadrante histórico.”

“No final desse paper que escrevi em 1998, eu dizia que se nada for feito, o neofascismo vai emergir no mundo porque vai ser a única resposta possível diante da crise do neoliberalismo. A ultradireita é que vai se apresentar com esse discurso que tomou conta do planeta desde 2008. Desde 2008 a gente só vê o crescimento da extrema-direita no mundo, tanto é que a esperança está indo embora, está se esvaindo”, comentou Haddad.

Para o ex-prefeito de São Paulo, o problema da extrema-direita é que ela não consegue entregar resultados que não passe por uma escalada da violência e do discurso autoritário, que no século passado culminaram em guerra. “O problema do Trump é exatamente esse: ele não tem um programa político a não ser negativo, de dizer que o neoliberalismo deu errado e que agora ‘America First’. Ele não sabe traduzir o ‘America First’ em políticas concretas. Basta uma pequena trombada para ele patinar.”

SUSTENTAÇÃO DE BOLSONARO

Para Haddad, o que ainda segura Bolsonaro “são as medidas que o Congresso aprovou à revelia do governo. E o discurso fundamentalista religioso. Desde o começo ele se vale da fé do nosso povo que é muito grande, o cristianismo no Brasil é um fenômeno, a gente precisa entender isso. Tranquilamente o país mais ardorosamente cristão que eu conheço. Sabendo disso, ele usou a boa fé do povo para manipular e manipula ainda esse povo que quer ver no comando do País pessoas comuns com seus valores, o que é absolutamente natural. Mas a combinação de política com religião que está se dando no Brasil é inédita, talvez no Império tenha se visto algo assim, mas sem o charlatanismo.”

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Segundo Haddad, o “principal problema ideológico do Brasil hoje são os ativos do Estado”, que devem ser vendidos no pacote de privatizações de Guedes. Estamos falando de “refinarias, da Eletrobrás, Correios – que é central na disputa com a Amazon e os grandes players globais.” Para Haddad, quando o Correios for comprado pela Amazon, o setor do varejo no Brasil, “que se acha grande coisa”, vai tomar um baque sem precendentes.

Assista a entrevista completa:

 

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2 comentários

  1. Só discordo em partes com Haddad,pois no Império Romano houve charlatanismo também(da parte de governadores e maiorais). Eles sabiam “jogar com a massa”.

  2. Um detalhe macabro que escapou do comentário do Haddad sobre o grande número de assassinados pela ditadura militar argentina, é que lá o regime neonazista durou apenas sete anos e, portanto, foi uma média altíssima de vítimas fatais. Mas o bravíssimo povo argentino combateu a ditadura de frente desde o início e não permitiu que ela adquirisse estabilidade institucional.

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