Dilma não é Jango, por Marcelo Rubens Paiva

Enviado por José Carlos Lima Spin

Do Estadão

 
Marcelo Rubens Paiva
 
Dilma não é Jango. O primeiro foi deposto pela mira de canhões por um golpe de Estado. A segunda pode ser deposta por instituições democráticas que seu poder sustenta: ações do Tribunal Superior Eleitoral e do Tribunal de Contas da União, que justificariam um pedido de impeachment ao Congresso. Tropas e tanques, dispensados.
 
Poder Legislativo e Judiciário, com a implosão do Executivo, a destronariam. Sua baixa popularidade é uma aliada que cria rachas por todo lado. Num infeliz (ou bem calculado) comentário, Michel Temer, vice­-presidente, lembra Francis Underwood, protagonista de House of Cards, que colabora para enfraquecer a presidência.
 
Dilma deve saber, porque até eu sei por conversas aqui e ali com fontes bem informadas e boêmias: Temer nega a intriga, mas passou agosto visitando empresas de comunicações e federações empresariais, apresentando suas credenciais; o PSDB já prometeu a primeira valsa; o segundo escalão do TCU, o técnico, ameaça um motim caso o primeiro escalão, o político, não condene as contas de Dilma, como manda a cartilha.

 
Gilmar Mendes, do STF e TSE, já partiu para a grosseria ao classificar o arquivamento do pedido de investigação da campanha de Dilma, do procurador-­geral da República, Rodrigo Janot, como “ridículo”, que “vai de infantil a pueril”. Janot voltou atrás e aceitou a denúncia.
 
O racha no Brasil de Jango era parte de um complô da guerra fria. A ameaça comunista, as Reformas de Base, que tocavam em pontos sensíveis do capitalismo, como reforma agrária e controle de remessa de lucros, a radicalização do discurso e motins de soldados e marinheiros uniram partidos da oposição, a Igreja, órgãos de imprensa, políticos populares e as Forças Armadas, que já tinham tentado um golpe anos antes, para impedir a posse de Juscelino.
 
Em pesquisa secreta do Ibope, feita na véspera do movimento militar de 1964 em três cidades paulistas de diferentes portes (São Paulo, Araraquara e Avaí), encomendada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, diferentemente de Dilma, Jango tinha apoio popular: 45% consideravam seu governo ótimo ou bom, 24% regular, e 16% mau ou péssimo.
 
Noutra pesquisa de eleitores de oito capitais, feita em março de 64 pelo Ibope e também engavetada, descoberta recentemente em arquivo da Unicamp, 49,8% admitiam votar em Jango se ele pudesse se candidatar à reeleição, o que não era permitido pela Constituição em vigor.
 
Márcia Cavallari, diretora do Ibope, disse que os critérios aplicados na pesquisa da década de 60 são semelhantes às recentes, como a encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e divulgada em julho, que apontou que a avaliação do governo Dilma é de apenas 9% como ótimo ou bom, 21% regular, e 68% ruim ou péssimo.
 
Se Jango tinha 45% de aprovação, Dilma tem 9%. Mas a inflação de Jango era aterrorizante: chegou a 23% no primeiro trimestre de 1963, e a variação em 12 meses acelerou de 45,6% em dezembro de 1962 para 69,9% em março de 1963.
 
A crise política e com o mercado externo e FMI detonou o Plano Trienal de Jango. A inflação fechou em 1963 encostando em 80%, bem pior que a de Dilma. Mas a taxa de crescimento do PIB era um pouco melhor: caiu de 6,6% em 1962 para 0,6% em 1963.
 
Jango e seu PTB foram depostos em horas, com o racha de base aliada, o PSD. Dilma e o PT vêm a base aliada rachar, mas sem a ameaça de intervenção militar e a menor possibilidade de um golpe de Estado, já que as instituições democráticas estão preservadas, oposição envolvida nos mesmos escândalos de corrupção, que provam a falência do sistema partidário e das regras políticas em vigor.
 
Um paradoxo interessante explica o Golpe de 1964. A popularidade de Jango teria sido decisiva para a sua deposição pela força, já que as frentes políticas adversárias não se sentiam encorajadas: em outra pesquisa engavetada pelo Ibope, 59% dos entrevistados eram a favor das medidas anunciadas em 13 de março de 64 no comício da Central do Brasil por Jango, as que desencadearam o golpe.
 
Porém, os movimentos sociais pouco fizeram para impedir o desmantelamento do governo. Uma Greve Geral convocada pelas Centrais Sindicais e pela UNE em 1.º de abril atrapalhou mais do que ajudou. Tropas marcharam sem encontrar resistência, o que surpreendeu o próprio governo deposto.
 
É impensável calcular como os movimentos sociais ligados ao PT e partidos de esquerda, movimentos sindicais, CUT, sem-­teto e sem-terra, mercado externo, acionistas, EUA, FMI, ONU, OEA, Mercosul reagiriam no caso de um impeachment, sintoma da instabilidade da República brasileira, que raramente vê um presidente cumprir o prazo designado pelo voto.
 
Deodoro da Fonseca ficou dois anos e foi forçado a renunciar na Revolta da Armada, depois de destituir o Legislativo. Floriano e Afonso Pena, que morreu antes de completar o mandato, ficaram só três anos. Rodrigo Alves, como Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse.
 
Washington Luís foi deposto pela Revolução de 1930, e seu sucessor eleito, Júlio Prestes, não tomou posse. Dutra ficou cinco anos, como Sarney. Getúlio entrou para a história e deu um tiro no peito. Café Filho foi afastado por motivo de saúde e ficou um ano. Carlos Luz, seu sucessor, foi deposto, e JK assumiu antes.
 
Jânio Quadros viu forças ocultas e renunciou dois anos depois de ter sido eleito. Jango foi deposto, Collor, impeachado. FHC era para ficar quatro anos, ficou oito. E Dilma…
 
Cumpre a sina da maldição presidencial do nosso doente processo representativo. E já tentamos de tudo: mandato de quatro anos, de cinco, de quatro com reeleição, vice eleito de outra chapa, junta militar provisória, parlamentarismo (em dois plebiscitos rejeitados), até monarquia, ironicamente, o governo mais estável da nossa história.
 
Muita gente festejará a queda de Dilma, como uma vitória da democracia. Mas deveria lamentar o nosso fracasso de projeto republicano.

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12 comentários

  1. Economistas carnívoros

    Bom dia debatedores.

    Que dia não!?

    Ou melhor: que “pós-dia”!

    O dia depois do anúncio dos cortes.

    Ontem, após ouvir atentantemente muitos “analistas” ( sabem? aqueles.. de meia tigela que tiram proveito de uma situação para os respectivos patrões),  cheguei a um conclusão provisória:

    Temos plantas carnívoras:  natural  e  atemporal

    Temos também  economistas  carnívoros!

    Caiu a ficha que economistas são também carnívoros, por que não canibais? , homens que comem homens? Homem lobo do homem? Perfeito não? 

    E é Claro: tudo em prol da “família” ( com ou sem marcha; com ou sem deus); óh zeus.

    Em uníssono diziam: O governo não “cortou na carte”. Tem que cortar na carne!

    Resta saber com clareza solar que “carne” é essa. Carne de sol? Carne “vermelha”? Carne azul? Branca? Peixe?( como pode o peixe vivo…)

    Suspeito que seja “carne de porco”. ( ou de PIG). No ingrêz ficaria assim: PIG meat.

    Parei. Agora, comentando o texto acima: Gostei.

    Conquanto,  o autor tenha resumido muito. E aí, creio, deixou passar alguns detalhes importantes. ( isso não quer dizer que ele não saiba disso).

    Então, só para tentar complementar, com aquele meu tradicional amor ao debate, digo o seguinte:

    “Ninguém levantará a saia da mulher mineira”, dizia, segundo alguns, o general golpista.

    Todavia, essa “marcha” de  “Juiz de Fora”, poderia ser facilmente bombardeada. Uns sugeriram o uso do NAPALM, que não foi permitido por Jango. ( conforme teria dito Darcy Ribeiro)

    Em suma, esse “golpe” de 1964 ainda tem muita história pra contar.

    E por falar em golpe, essa é a nossa regra. 

    A regra aqui é golpe e não a democracia. Senão vejamos:

    É golpe do Deodoro, do Floriano homem de ferro da silva, do café, do leite, do Getúlio, contra o Getúlio, contra o JK, contra o Janio, contra o Jango, até mesmo Golpe DENTRO do Golpe( contra o Castelo), golpe contra as “diretas já” que se tornaram  “indiretas já”, da “grobo” contra Lula e a favor de Collor, contra o Collor, golpe a favor do FHC, Contra o Lula, Contra a Dilma, ufa!  golpe até nas panelas. 

    Qual será o próximo golpe?

    Democracia vai bem até chegar no ponto intocável. Chegou? É golpe. 

     

    Hoje, de fato, descabe tanques nas ruas. Evidente.

    Descaberia  também espadas, baionetas, guerras de trincheiras. Coisas do passado.

    Evoluímos nos  “métodos”. Ou com os “meios”.

    Os meios justificam os fins?

    Nessa linha, a LEI DE MEIO, justifica o fim. E o fim é dar o nosso alento( trabalho) ao “serviço da dívida”.

    Eis mais um golpe, oras bolas!

    Saudações golpistas.

     

     

     

     

     

  2. Se o plano dos corruptos e

    Se o plano dos corruptos e bandidos de direita der certo, a faixa presidencial deverá ser aposentada. Em seu lugar os próximos presidentes receberiam um arranjo para usar na cabeça semelhante áqueles com bananas que Carmem Miranda usava em seus filmes, porque a classe dominante corrupta e podre terá dado ao mundo a prova que faltava de que o Brasil não passa de uma república de bananas. Dizer que De Gaulle estava certo, então, nem precisa mais. No mais, caso os bandidos consigam seu intento, restará causar o maior estrago possível ao país para que está direita escrota que temos amargue todo tipo de prejuízos. Quanto aos coxinhas analfabetos políticos, estes um dia perceberão o papel de (m)idiotas que fizeram.

    https://en.wikipedia.org/wiki/File:Carmen_Mir.jpg

  3. “Michael Underwood”

    Toda vez que se fala no aparente interesse de queda de Dilma e de assumir a presidência por parte de Michel Temer, o Nassif parece não concordar e tal. Mas eu acho que toda essa crise não teria existido tal qual – com toda essa força – sem o PMDB de Cunha e de… Temer!

  4. O Brasil nao merece o Brazil

    O Brazil está ouricado desde o dia que saiu o resultado das eleicoes, aliás já estava durante o processo.

    O  Brazil nunca almejou a felicidade do Brasil, quer que o brasileiro exploda, morra… 

    Os Brazileiros do rádio, jornais, televisao…. das manifestacoes… , querem o Brazill só prá eles, pros amigos deles e inimigos do Brasil.

    O Brasil nao merece o Brazil!

     

    José Emílio Guedes Lages- Belo Horizonte

  5. Realmente Dilma não é

    Realmente Dilma não é Jango.

    Porque Jango faz parte da nossa história.

    E Dilma, quando muito, fatá parte da nossa tragédia.

      Realmente, Dilma não é Jango.

  6. Jango sob a mira de canhões?

    Jango sob a mira de canhões? Não tinha canhão nenhum, de Juiz de Fora para o Rio veio meio regimento de infantaria, sem canhões e ninguem apontou nem fusil para o Jango. Jango caiu por suas proprias contradições, pela completa ausencia de apoio civil e militar, pelo irrealismo de suas reformas de base pela porrloquice do Brizola.

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