“Future-se” pretende transformar universidades públicas em “balcão de negócios”

Professor da UFABC diz que o governo Bolsonaro deveria se inspirar em outros sistemas públicos de ensino, em vez de nas grandes universidades privadas dos EUA

Foto: Divulgação/MEC

Da RBA

Para o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Fernando Cássio, o programa Future-se, apresentado nesta quarta-feira (17) pelo Ministério da Educação (MEC), baseia-se em premissas falsas e ilude professores com promessa de enriquecimento a partir de experiências empreendedoras. A proposta,  que vem sendo chamada jocosamente como “Fature-se”, é baseada em experiências das grandes universidades privadas norte-americanas, e vai transformar as instituições de ensino em “balcões de negócio”.

“Se a gente quer se espelhar em modelos estrangeiros, precisamos olhar as universidades públicas de outros países”, critica o especialista, em entrevista ao programa Bom para Todos, da TVT. Ele diz que a premissa adotada pelo ministro da Educação, Abraham Weintrub, de que o gasto no ensino superior público é elevado, também é equivocada.

“Na verdade, existem dados muito substantivos, coletados aqui e no exterior, que dizem que tanto a educação básica, quanto o ensino superior públicos são subfinanciados no Brasil”, afirma Cássio. O problema, segundo ele, não está no gasto por aluno, mas na falta de investimentos que permitam a expansão da infraestrutura e a ampliação de vagas nas universidades públicas. Para rebater o argumento do ministro, ele cita o caso da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), que teve a energia cortada em cinco de seus campi, em decorrência do arrocho de verbas executado pelo MEC.

Dividido por eixos temáticos – gestão, governança e empreendedorismo; pesquisa e inovação; e internacionalização –, o Future-se prevê que parte do orçamento das instituições passe a ser constituído por um fundo imobiliário, que seria formado da venda de imóveis ociosos que façam parte do patrimônio das universidades. O MEC diz ter recebido do Ministério da Economia uma doação equivalente a R$ 50 bilhões em lotes, imóveis e edifícios da União, o que permitiria às reitorias fazer parceiras público-privadas (PPPs), comodato ou cessão dos prédios e lotes.

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O governo também defende que a captação de recursos extras seja feita a partir de doações de empresas ou de ex-alunos para financiar pesquisas ou investimentos de longo prazo. Em outro ponto, prevê a concessão legal para empresas nomearem com suas marcas campi e edifícios, os chamados naming rights, além da criação de ações de cultura que possam se inscrever em editais de fomento, como a Lei Rouanet.

Cássio acredita que essas iniciativas não terão “desfecho positivo”. “É uma forma de se desresponsabilizar pelo financiamento público do ensino superior. É como dizer o seguinte: só vamos financiar ou estimular coisas que tenham a aplicabilidade direta e interesse econômico direto.”

Segundo o professor, o risco é que pesquisas não relacionadas a interesses mercadológicos, como “ciência básica”, “demografia” e “sociologia quantitativa” fiquem sem recursos. “É absolutamente aviltante. Não há outra palavra para usar. De fato, é um projeto de destruição do sistema federal de ensino superior.”

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8 comentários

  1. Interessante como esse pessoal não consegue construir nada a partir do zero; gostam de se apropriar do público e torná-lo privado. Grande iniciativa privada; grande liberalismo.

  2. O governo “Alice no país das maravilhas”, que não sabe para onde vai então qualquer caminho pode ser. Não sabe onde está, de onde veio, para onde vai. O que fazer para enganar um pouco na economia?
    Adiantar o dinheiro que é de propriedade do próprio trabalhador para ele pagar dívidas e as empresas também e assim tirar do fundo que ajuda a financiar a indústria da construção. Mandar prender o deixar a turma empreender em aplicativos de transporte e delivery?

    https://www.youtube.com/watch?v=ISt-Dx7nBNE

    Pressão de setor da construção leva governo a adiar medidas sobre FGTS
    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/07/pressao-de-setor-da-construcao-leva-governo-a-adiar-medidas-sobre-fgts.shtml

  3. Future-se é a primeira fase do programa. Como o governo tá indicando um futuro ruim pela frente, logo lançam a segunda fase: o VIRE-SE. Como o fulano se virou e não conquistou nada, vem a fase final: F…-SE

  4. Esperar que uma kafta/barata ou barata/kafta, mertamorfose representativa do que se chama “governo”, apresente algo util é demais para nossas esperanças. Kaftas metamorfoseadas não pensam, logo não existem.

  5. Já disse mais de uma vez, este é mais dinheiro publico para ser gerido por empresa privada, e que ao invés de financiar pesquisa, educação e universidade vai demonstrar as regras da boa gestão privada, investindo na bolsa e no mercado. Ao final do ano vão fazer um balanço demonstrando que tiveram lucro, e em nome da eficácia não vão investir em pesquisas pois isto não dá lucro. Por outro lado nossos empresários vão continuar importando e consumindo tecnologia.
    As empresas atuais usam departamentos e equipamentos das universidades para trabalhos de consultoria, mas não no desenvolvimento de tecnologia. Para que haja desenvolvimento privado de tecnologia e conhecimento é necessário que empresas tenham seu proprios centros de pesquisa. Apenas quando tiverem poder-se-a falar de integração empresa universidade. Apenas quando industrias tiverem centros de pesquisa se terá pesquisadores que de fato interagem com pesquisadores da academia. E só assim teremos desenvolvimento tecnológico e um bom casamento universidade indústria.
    Enquanto prevalecer a mentalidade que pesquisa boa é aquela que gera um lucro imediato não teremos um casamento com as universidades. teremos apenas uma prestação de serviços. Estas consultorias muitas vezes apenas utilizam os instrumentos de pesquisa que as empresas se negam a comprar . (As exceções que confirmam a regra me perdoem)
    Empresas estatais ou de dna estatal , como Petrobrás Embrapa, a agora antiga EMBRAER sempre tiveram centros de pesquisa e desenvolvimento e por isto geraram tanta tecnologia. No Brasil já se tem muitos exemplos de bons relacionamentos, UNICAMP, UFSCAR, USP, UFSC para não citar muitas outras, tem um bom relacionamento e desenvolvem projetos conjuntos sem a necessidade deste projeto monstrengo que não leva em conta sequer o que já existe. Pois o objetivo do projeto não é a pesquisa nem a educação, mas simplesmente modificar a gestão da Universidade transformando-a numa empresa. Esta é a receita para a destruição das instituições geradoras de conhecimento e a submissão total do país num mundo gerido pelo conhecimento.

  6. Parece me que o objetivo e o esgotamento das Universidades e fechamento das menores. Não há interesse em grupos privados da educação em absorver essas universidades, pelo simples motivo que são professores muitos caros. Para essas empresas o objetivo e retirar do aluno o dinheiro e entregar o diploma. Tecnologia e ciência vem de fora.
    Para mim os interesses que as instituições federais dão ao mercado e sua localização e os imóveis. Que sim, devem ser levados ou as universidades breve terão que pagar aluguel para funcionarem.

  7. FUTURE-SE, TITANIC!
    Uma vez mais ajeito minhas coisas sobre a mesa. Nunca pego tudo.
    Volto a me abaixar duas ou três vezes, sem necessidade.
    Só então ergo meus olhos.
    Há uma certeza oculta nos rostos tristes.
    Espelhos do meu olhar que pouco vê
    enquanto nos perdemos na imaginação fútil:
    quem pagará minha aula?
    Qual ano será o derradeiro?
    Quem será preso primeiro?
    Não sei se é apatia ou desolação
    Mas há um quê de depressão…
    nesses matamentos ou cognicídios
    nessas mentiras brutas
    nessa apologia da força
    nesse desdém absoluto ao que não seja ignorância
    ao que se sabe DE VERDADE, que não se inventa ou opina.

    Em nossos smartphones
    vemos novidades que nos matam.
    Servido em postas de carne azul,
    apodrece nosso futuro.
    Que Futura-se como a fatura
    de um fascismo afásico
    que, ao saber, afunda
    em um filistino FODA-SE.

    Volto do Future-se à minha aula
    há instrumentos e signos,
    há práticas a explicar
    há virtudes que viver
    há muito que saber
    antes de naufragar.
    Sejamos fortes!
    O Titanic afunda enquanto a orquestra toca!
    Abro meu livriolino,
    mas meu pensamento desafina…

    No Titanic, a água entra aos soluços
    devagar, aos pouquinhos…
    É um aluno pobre que desiste.
    Uma bolsa que se vai.
    Uma torneira que não se conserta
    e noites de sono que se perdem.
    Enquanto parte de mim – que vergonha!
    Tenta imaginar algum bote
    que minhas economias possam comprar.
    Na fímbria dos 10%
    junto um capitalzinho intelectual
    a uma capacidade funcional.
    Não serei a primeira a soçobrar.
    Muitos outros já se foram.
    E outros, preferiram pular…

    Mas como eles têm olhos tristes!
    Lá do outro lado, o que afundará primeiro…
    São cenas feias as que atravessam suas mentes
    as dos botes de imigrantes
    indo dar às costas da Europa.
    Em seus coraçõezinhos sobrevivem
    refugiados meninos que sonham uma nova Pátria.
    A chance de ouvir sem ameaçar
    de falar sem machucar
    de viver sem odiar.

    Em meio aos destroços presentes e futuros
    miramos o céu.
    Como sem-tetos às portas da noite
    de uma LONGA noite de inverno
    nos afogando no esgoto do inferno
    que vai escaldar-nos os olhos
    e esfriar-nos as juntas
    na combinação diabólica das temperaturas
    dos Springer que viraram sucatas…

    Apáticos, nós esperamos
    E ataco meus deveres
    “porque Titchener…
    Porque Watson…
    porque tantos-gringos-mortos-e-decadentes-que-se-cagavam-para-o-Sul-do-mundo-e-provavelmente-virariam-nossos-botes-conosco-dentro”.
    “Porque todas essas almas-perdidas-entre-o-coração-e-o-relógio-de-bolso-que-não-viam-o-desespero-no-olhar-de-ninguém”.
    Porque gringos que deveríamos virar
    nos eternos botes do esquecimento
    perpassam meu desafinado violino
    enquanto encaro meus companheiros
    à espera do dia possível
    em que a Terra Plana volte a girar… (Gisele Toassa, Faculdade de Educação, UFG)

    • E lá no exílio em Londres ou alhures –
      They are looking for flying saucers in the sky

      Foram anos sem ver os para lá foram sem querer
      E agora de novo o tango parece cair melhor que o blues

      Vuelvo al Sur,
      como se vuelve siempre al amor,
      vuelvo a vos,
      con mi deseo, con mi temor.

      Quiero al Sur,
      su buena gente, su dignidad,
      siento el Sur,
      como tu cuerpo en la intimidad.
      Vuelvo al Sur,
      llevo el Sur,
      te quiero Sur,
      te quiero Sur…

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