Reportagem sobre “respiradores fantasmas” do The Intercept gera impacto

"Levou à uma CPI, fez o governador abrir sindicância pra apurar o pagamento do contrato e motivou decisão judicial bloqueando as contas da empresa contratada. Em poucas horas, uma única reportagem mobilizou os três poderes."

Foto: freestockcenter / Freepik

Comentário de Antonio Neves

Matéria teve impacto imediato: “Levou à uma CPI, fez o governador abrir sindicância pra apurar o pagamento do contrato e motivou decisão judicial bloqueando as contas da empresa contratada. Em poucas horas, uma única reportagem mobilizou os três poderes.”

A reportagem do ano e o jornalismo de impacto

Por Rogério Christofoletti

Professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Se a COVID-19 alterou a rotina do planeta e se nossas vidas nunca mais serão as mesmas depois dela, não é exagero dizer que a pandemia talvez seja a maior história que nossas gerações venham a contar. Por isso, reportagens que contam o drama humano pela sobrevivência e a transformação de nossos hábitos e relacionamentos são importantes para registrarmos na história este trágico episódio. O jornalismo deve oferecer a crônica desses tempos, mas não pode deixar de acompanhar como as autoridades lideram o combate à doença, quem se beneficia com a dor alheia e como os mais frágeis são novamente atingidos por decisões políticas ruins ou desastradas. E se assim é, o jornalismo catarinense já tem a sua reportagem do ano.

Publicada no dia 28 de abril no The Intercept Brasil, a reportagem denuncia a compra de 200 respiradores mecânicos pelo governo de Santa Catarina de uma empresa sem qualquer tradição na área e com valores bem acima aos praticados no mercado. Os repórteres Fábio Bispo e Hyury Potter mostram que a escolha da empresa prestadora do serviço não passou por licitação pública, que o processo durou apenas cinco horas e que foi celebrado um contrato de R$ 33 milhões. Os equipamentos deveriam ter sido entregues, mas não foram e quando isso acontecer, não é garantido que tenham as especificações técnicas necessárias. A reportagem ouve os envolvidos, cobra o poder público e mostra como negócios suspeitos podem ser feitos em situações emergenciais, quando as barreiras de controle habituais são dispensadas.

Mas por que esta é a reportagem do ano? Por seu impacto imediato.

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Um dia depois de publicada, levou à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa, fez o governador Carlos Moisés abrir sindicâncias internas para apurar o pagamento antecipado do contrato e motivou uma decisão judicial bloqueando as contas da Veigamed, a empresa contratada. Em poucas horas, uma única reportagem mobilizou os três poderes para analisar um negócio suspeito, cujo objeto é um tipo de equipamento que pode salvar vidas em meio a uma epidemia. Não é pouca coisa, e não é comum no cenário jornalístico catarinense, bastante acomodado no duopólio e pouco disposto a fazer investigações do tipo.

A história do furo

O mercado jornalístico catarinense tem dois grandes players: a NSC – que comprou as operações da RBS no Estado, tem meios em todos os suportes e que retransmite a TV Globo – e o o Grupo ND – que também atua em todas as mídias e é o braço local da Rede Record. Apesar desse poder e capilaridade, a reportagem do ano não veio de nenhum desses gigantes, e foi publicada num meio alternativo e cuja sede fica no Rio de Janeiro. Entretanto, a história estava bem debaixo do nariz das redações locais.

Há duas semanas, o repórter Fábio Bispo já havia publicado reportagem apontando compra de respiradores pelo governo do Estado a preços 65% maiores. A matéria foi feita para a Associação dos Diários do Interior (ADI) e distribuída a jornais do interior catarinense, que não investiram na história. Diário Catarinense e Notícias do Dia também ignoraram a pista de que havia algo de estranho no negócio.

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Bispo insistiu. “Fiz um pente fino no Portal da Transparência e me deparei com essa compra. Continuei fuçando e vi que o buraco é mais embaixo”. Como a história era complexa, Bispo foi buscar reforços e procurou o repórter Hyury Potter, com quem já trabalhou em outras ocasiões. Potter colabora com regularidade para The Intercept Brasil, e a reportagem foi aceita na hora.

Buscar um meio de circulação nacional para veicular a matéria foi estratégico. Em dez anos de reportagem, Fabio Bispo já viu CPIs serem instaladas com base no noticiário, mas muitas não avançaram. A operação abafa resfriava os ânimos dos políticos e da opinião pública.

Se os meios jornalísticos catarinense não serviram de berço da reportagem do ano, também não puderam ignorá-la. O assombro com as revelações provocou fatos nos três poderes, e as redações locais precisaram repercutir o assunto. Algumas deram os créditos, outras não. “Fiz várias perguntas nas coletivas do governo perguntando sobre os respiradores. Em quase todas elas, o secretário de Saúde ou mentiu ou omitiu informações. Foi a senha pra eu saber que estávamos com a pauta certa na mão”, relembra Fábio Bispo.

Pra que serve o jornalismo?

A repercussão foi rápida e maior do que os repórteres imaginavam.

A reportagem do The Intecept Brasil tem valor jornalístico, mas também oferece algumas pistas de como qualificar este exercício profissional em Santa Catarina (e também em outros estados). A matéria mostra o quanto os meios locais ainda podem fazer em se tratando de jornalismo investigativo. Denúncias como esta deveriam partir das redações mais próximas dos acontecimentos.

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A matéria mostra também que repórteres obstinados com uma história podem recorrer a alternativas fora do Estado, quando observarem pouca receptividade regional. Às vezes, santo de casa não faz milagre mesmo e é necessário apelar para outras entidades…

Mais uma vez, o episódio demonstra o quanto o jornalismo sério e responsável tem lugar cativo na agenda da sociedade. Ele pode prestar serviços, trazendo à tona mal feitos e distorções sociais; pode aumentar o nível de transparência pública que impede crimes e abusos; e pode ajudar a frear medidas que causem prejuízos concretos à vida humana.

Alguém pode perguntar: “E daí?” Não estamos tratando do aquecedor da piscina do Palácio da Alvorada, mas de respiradores artificiais, tão necessários a milhares de pacientes infectados pelo novo coronavírus. De forma indireta, mas sem exageros, o jornalismo pode ajudar a salvar vidas humanas.

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7 comentários

  1. O comentário lá de cima não é meu. A matéria foi retweetuitada pelo The Intercept Brasil e Leandro Demori fez o comentário de apresentação.

  2. A tentativa de manter os modus operandis do mundo velho, nos tempos novos, vai quebrar a cara de muita gente. São mesmo eventos não da necro política, mas desta nossa necro sociedade, herdeira da morte do humanismo, que como já foi mostrada em debate neste GGN, já permitia, financiava e consumia sobre a morte de 150 bilhões de animais por ano.

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  3. É muito inocência achar que a omissão da grande mídia se deveu apenas a um jornalismo ruim, a mídia tradicional é partícipe ideológica e econômica do status quo e tenta esconder pecados de aliados e anunciantes enquanto amplifica e até inventa o de inimigos.

  4. Esta é uma ocasião propícia para gente sórdida, ordinária se aproveitar da vulnerabilidade de toda a sociedade, inda mais que medidas de emergências dispensando licitações precisam, tem que ser tomadas.

    O Ideal é que junto com tais medidas também fosse estabelecidas o aumento percentual da punibilidade bem como o afrouxamento de provas para quem, de comprovada má fé, procura tirar vantagem da situação. Também tal punibilidade deveria alcançar pilantras privados que atuam nas redes sociais tentando se aproveitar da fragilidade e ignorancia do povo.

    Não é difícil corrigir, basta ter vontade.

  5. Esperar imparcialidade ou verdadeiro jornalismo investigativo da mídia catarinense, prostituta e prostituída, vendida há décadas para o governo do momento, é acreditar em Papai Noel. E, sem medo de errar, posso estender esta opinião à mídia do restante do país, prostituída pela ideologia e pelas verbas de publicidade estatal, a nível municipal, estadual e federal.

  6. Parabéns ao The Intercept Brasil , a Fábio Bispo, Hyury Potter, aos três poderes envolvidos, pela competente rapidez de cumprir sua funções. Por fim, pela bela lição da atuante determinação que vai fazer escola e que já conta com os aplausos do público brasileiro.

  7. É bom lembrar que existem modelos de respiradores, desenvolvidos ou adaptados por laboratórios acadêmicos, que podem ser fabricados pelas indústrias locais de quase todos os estados, ainda mais as de SC. Os preços são muitíssimos mais baixos do que os comerciais. Mas parece que o nó no caso é a certificação da Anvisa, que demora demais, mesmo sabendo que esses aparelhos foram desenvolvidos por laboratórios quase sempre de escolas federais ou estaduais, e rigorosamente testados.

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