Violência e conivência, um diálogo possível, por Matê da Luz

     

    – Não me chamou pro jantar na sua casa semana passada, te fiz alguma coisa? 

    – Ah, querida, senti sua falta, como aliás venho sentindo há tempos… Mas acho que você não quer conversar de novo sobre isso, não é? 

    – Poxa vida, de novo seu problema com o Marcos? A gente está ótimo, depois do último desentendimento as coisas melhoraram muito! 

    – …

    – O que foi? Voce acha que não pode ter melhorado mesmo?

    – É que não quero opinar, faz tempo que nossas conversas sobre vocês têm terminado em discussão entre a gente e não quero mais isso, não…

    – E resolve não me convidando pro jantar da sua casa, é esse o seu jeito de não discutir mais? 

    – Não, amiga… esse é meu jeito de deixar claro pro mundo todo e pra você e pra ele que eu não concordo com o que ele te fez, não concordo com o que você concordou.

    – Olha, não é bem assim…

    |interrompendo|

    – Não?! Quer dizer que existe meio termo pra um soco na cara? 

    – Ah, lá vem você…

    – Não, amiga. Não vou. E quando digo que não vou, não vou mesmo. Por isso não convidei vocês pro jantar. Porque não concordo. 

    – E onde você acha que isso vai te levar? Se afastando de mim que sou alguém que você diz gostar tanto, está me deixando pra lá quando acha que tenho um problema, bela amiga você!!! 

    – Eu não acho que você tem um problema. Tenho certeza que, no momento, você tem pelo menos dois: um namorado que te bate e sua perda de raciocínio lógico básico, aquele que nos conduz por rotas de sobrevivência, lembra dele? 

    – Sério, cara? …por isso você está sozinha! Porque quer alguém perfeito, porque tem inveja de mim, que sou sua amiga desde sempre, porque tenho um namorado que quer que eu melhore e por isso briga comigo. 

    – Não foi um tapa na cara. Foi um soco. Um soco! Não que se fosse um tapa eu concordaria, claro que não. Mas soco é coisa de “homem com homem”, sabe?, de briga de bar. Mas, enfim, lá no começo eu disse que não discutiria mais sobre isso. Você está ausente de raciocínio lógico, citando minha inveja em relação ao seu relacionamento uma semana depois de você ter levado um soco. Prefiro não levar esta prosa adiante, quer mudar o assunto ou podemos desligar? 

    – Você sempre toma a decisão mais fácil, desligar. Estou te procurando há dias pra perguntar o porquê de não ter me convidado pro jantar e a única coisa que você sabe falar é sobre meu namorado ter me batido, o que isso tem a ver com você? 

    – Isso tem a ver comigo a partir do momento que eu não quero trocar risadas, eu não quero cozinhar meu risoto favorito com ingredientes especialmente selecionados e eu não quero brindar com *saúde* alguém com caráter tão deturpado a ponto de considerar um soco na cara da namorada algo normal. Eu também não quero concordar com isso em nenhum grau de posicionamento, eu não acho que uma pessoa que faz isso pode ter qualquer coisa muito melhor a oferecer do que violência – seja ela física, verbal ou psicológica, chegando até o cúmulo da violência energética. Eu não quero ver você, minha amiga que eu amo tanto, achando qualquer coisa parecida com isso. Foi por estas razões que eu não convidei você pro jantar. 

    – E você acha que as pessoas não têm o direito de mudar? De ter defeitos? 

    – Eu acho que as pessoas têm o dever de mudar, querida. Mas eu também sei que cada um só muda quando pode, quando consegue. E alguém que bateu numa pessoa semana passada, por mais que queira, não mudou ainda, entende? Tampouco alguém que apanhou na semana passada e está defendendo o agressor. Me incomodo em te deixar sozinha pra resolver essa onda, amiga, mas esta foi a melhor forma que encontrei pra deixar claro o meu não concordo. 

    – Sei…

    – Sabe mesmo? 

    – Sei sim, mas também tenho um coração muito bom, bom o suficiente pra saber que ele vai perceber que está errado e, enquanto isso, tenho tentado não o deixar com raiva, nervoso ou estressado, tem funcionado bem. 

    – Ai… 

    ————————————————–

    Este é um diálogo de ficção, mas pode ter feito/fazer/vir a fazer parte da vida de muitas mulheres ainda hoje, na atual conjuntura, onde a gente tem empoderamento e informação suficiente pra dar conta de nós mesmas, individualmente – e isso não quer dizer viver a vida sem homens. Isso quer dizer viver a vida com alguém que tenha o mínimo de respeito (mais que isso, de verdade: respeito íntegro) e que jamais em tempo algum nos desmereça física ou psicológicamente, o que passa longe de abrir a porta do carro ou pregar um quadro na parede (apesar de não excluir estas e outras ações). 

    É absurdo que ainda tenhamos que enfrentar situações onde o machismo e a violência imperam. Sim, eu sei que também existe abuso cometido por mulher. Eu sei que tem gente de todos os sexos sem caráter por aí, mas hoje o assunto não é este. Hoje o assunto é sobre o quanto a amiga da mulher que apanha do namorado do diálogo acima me ensinou à respeito de posicionamento e os perigos do “eu não tenho nada a ver com isso”. Nem tão ao mar, fingindo que nada acontece, nem tão à montanha, me metendo no assunto que não sou chamada, ando entendendo que conivência é um dos ingredientes mais fortes e poderosos para a repetição de certas atitudes – inclusive e especialmente aquelas que destroem nossa alma. 

    E pra mim chega. 

     

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    1 comentário

    1. Violência não rima com amor

      O pior é as mulheres não se rebelarem após um episódio de violência. O pior é as mulheres falarem “tenho tentado não o deixar com raiva, nervoso ou estressado, tem funcionado bem”… não, não é por aí. Você tem de ser você mesma e ele deve te amar por aquilo que você é, eventualmente lhe ajudar a melhorar seu lado menos positivo. E você fazer a mesma coisa com ele. Homem que bate não ama. Homem que bate não ama nem a si mesmo. E precisa de ajuda médica.

      Deveriam ensinar isso na escola, desde criancinhas.

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