Da ilusão da emancipação do povo pelo diploma universitário, por Ion de Andrade

A formação profissional e o direito à cidade formam assim um todo único que atua para emancipar o cidadão e construir esse homem novo, que persistirá, pasmem, sem diploma universitário mas poderá ser, mesmo assim, um cidadão completo.

Da ilusão da emancipação do povo pelo diploma universitário

por Ion de Andrade

Nova Democracia

Para além da busca necessária de equidade no acesso à Universidade, que deveria idealmente corresponder em todas as carreiras ao perfil social brasileiro, o que ainda está longe de acontecer, além de ser tecnicamente uma grande ilusão, ou não estaríamos numa sociedade dividida em classes sociais,  faz-se necessária uma reflexão madura em relação ao fato de que nenhuma sociedade pode sustentar-se apenas com trabalhadores intelectuais.

A mística alardeada pelo nosso campo do acesso à Universidade como o grande coroamento de um itinerário emancipatório, por ser inteiramente impossível de ser universalizada, é perversa. Ela acentua a exclusão daqueles que, sendo maioria, não poderão, (por razões naturalmente inerentes ao funcionamento da sociedade, o que seria verdade até mesmo no socialismo), ter acesso à academia. Ao contrário, deverão concentrar a sua vida profissional em profissões manuais que, a despeito da imensa relevância social, continuam inclusive também em virtude desse discurso perverso, sendo desvalorizadas no plano social e remuneratório…

Obviamente que não é esse discurso (e ele é perverso) que produz o fenômeno de desvalorização das profissões manuais (e por via de consequência do proletariado) pois se trata de um fenômeno ligado ao modo de produção capitalista, tal como  acontece no Brasil de hoje e em inúmeros países periféricos. O discurso, no entanto, o “legitima” inconscientemente, (mas o que é inconsciente é ideológico) alardeando de que “Todos devem ir para a Universidade.”

O que fazer, então, para romper com essa ilusão ideológica que, inclusive, pode soar  ingênua aos ouvidos do próprio povo, se é que não soa demagógica? Como repor a mística emancipatória no seu lugar, (historicamente falando), que seria o da conversão libertadora da classe em si em classe para si, ou seja, o da reprodução social do trabalhador manual com identidade sócio política clara, definida e sem complexos, fato, esse sim revolucionário? Como converter aos milhões esse sujeito potencial, esse trabalhador, no ser humano completado, a um só tempo competente na sua profissão manual de que pode se orgulhar e culto no plano intelectual? Como produzir em escala populacional  o cidadão integral, ao mesmo tempo consciente do ponto de vista social e político e ativo na defesa dos seus interesses?

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Reconheçamos que, iludidos pela meritocracia que o itinerário individual ao diploma universitário proporciona, muitos dos universitários egressos no entanto do povo, se tornaram organicamente vinculados às classes socialmente dominantes, a quem passaram a servir, às vezes com desmedido desvelo…

Reconheçamos também, pois é fato, que os setores que foram mais beneficiados pela mobilidade social trazida pela ampliação das vagas universitárias, foram em geral aqueles que, no meio do povo, já desfrutavam de uma inserção social um pouco melhor, uma família mais organizada, financeiramente mais estável ou com um pouco mais de cultura. Os que saíram efetivamente do andar de baixo, filhos de trabalhadores subempregados, afligidos por uma miséria maior, foram efetivamente muito menos numerosos.

E reconheçamos que se o acesso de contingentes mais numerosos do povo às universidades transformou a geografia humana dessas instituições, que passaram a espelhar melhor a nossa diversidade e se tornaram por isso mais democráticas, o que de fato ocorreu; o seu fenômeno simétrico esperável, que teria sido a transformação concomitante das periferias de onde esses contingentes saíram, não ocorreu.

Isso significa que, se a paisagem humana das universidades mudou, a paisagem humana das periferias não mudou, não somente porque lá o fenômeno foi proporcionalmente menos relevante do que nas universidades, mas também porque no topo da hierarquia social das periferias, permaneceram os mesmos.

Caricaturando, mas não muito, o acesso às universidades mudou o Brasil da porta das universidades para dentro e na autoestima dos que fizeram a conquista e de suas famílias. Não foi pouco, mas o nosso desafio histórico, reconheçamos, é o de fazer com que o ser humano que planta feijão, o que produz máquinas ou constrói prédios e o que trabalha no comércio estejam de pé, pois é a eles que a universidade deve estar a serviço, tal como hoje se encontra essencialmente a serviço do capital.

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Como proceder? Seria doutrinando marxismo em reuniões noturnas? Seria mobilizando esses trabalhadores por ganhos salariais maiores através de sindicatos? Ou seria aplicando uma estratégia complexa e multinível de construção e libertação desses sujeitos?

Que estratégia seria essa? A que sociedade se dirigiria?

O trabalhador manual no Brasil, em regra geral, se forma por seu próprio esforço, sem escola. O pedreiro aprende com a própria experiência. Hoje o “nível médio” se tornou obrigatório para a grande maioria dos postos de trabalho, mas ele não é profissionalizante. O número de profissionais formados numa lógica acadêmica nas profissões manuais é mínimo. A condição de sinergia da ideia da profissão manual como uma arte se perdeu.

A isso se agrega a baixa remuneração e a baixa expectativa com os resultados de um trabalho que nem reconhecido é.

Essa é a lógica que precisa ser rompida e nessa ruptura o Poder Público tem papel, tanto no estabelecimento da política de formação, quanto nas estratégias de valorização da remuneração desse trabalhador progressivamente melhor qualificado. O ideal seria que universitários e não universitários pudessem desfrutar de uma formação acadêmica decente e de rendimentos salariais suficientes e vizinhos.

Rompendo com o abandono atual da formação espontânea, a formação do trabalhador manual poderia se dar “em serviço” sob a a supervisão acadêmica de escolas profissionais de alto nível capazes de avaliá-los e de oferecer conteúdos técnicos compatíveis com o exercício e com a formação profissional. Os IFs, que desempenham um papel extremamente relevante na formação técnica do povo, não têm como galgar a universalidade necessária à formação desses milhões de trabalhadores, muitos deles em profissões não abarcadas pelos próprios IFs, como poderia ser, por exemplo, a de motorista de transportes coletivos.

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Ao lado disso a sociedade (entenda-se o ente estatal) deverá ser capaz de oferecer a esse cidadão farto acesso à cultura para que, para além da competência técnica e artística de que poderá se orgulhar ao dominar a sua profissão, ele possa ter leitura de mundo, riqueza de repertório e sintonia com a contemporaneidade. Isso não se vincula ao local de trabalho, obviamente, e deve ser o objeto das Políticas Públicas de universalização do conjunto de conquistas a que poderíamos denominar de “direito à cidade” o que inclui mobilidade, acesso à cultura e desenvolvimento local.

A formação profissional e o direito à cidade formam assim um todo único que atua para emancipar o cidadão e construir esse homem novo, que persistirá, pasmem, sem diploma universitário mas poderá ser, mesmo assim, um cidadão completo.

De certa forma, o MST vem trilhando caminhos que não são estranhos a esse ideário no que se refere à formação técnica dos seus assentados e à oferta de cultura geral.

A articulação dessas políticas, obviamente, e as pessoas não são tolas, fala de uma nova sociedade, constrói uma nova civilidade e por isso é libertadora e politizadora. Por uma vez ela teria colocado no centro da suas preocupações a formação emancipadora do proletariado.

Por último, e é importante, reconheçamos que terminada a etapa da necropolítica, se quisermos fazer tudo isso, estará ao nosso alcance.

Impossível? Sejamos otimistas, essa já é hoje, em menor ou maior escala a realidade de alguns países que sequer romperam com o capitalismo. Poderíamos também dizer que isso apenas nos atualizaria com o que foi o Século XX em diversos lugares.

Se quisermos conseguiremos. Aliás já estamos atrasados, no discurso e nas políticas.

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