A carne negra: Um dueto entre Elza Soares e Clara dos Anjos, por Albertino Ribeiro

Se juntarmos a arte da música de Elza com a literatura, podemos promover um dueto entre Ela e Clara dos Anjos - personagem negra do romance de Lima Barreto

A carne negra: Um dueto entre Elza Soares e Clara dos Anjos

por Albertino Ribeiro

“A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Esses versos cantados pela bela e cara voz de Elza Soares, são um grito que representa o espírito de um um capitalismo predador que tem sido o tom da realidade brasileira.

Na semana passada, a justiça do Rio de Janeiro condenou três policiais, um deles há mais de 30 anos de prisão por causa de um crime hediondo e banal. Estes dispararam mais de cem tiros contra um carro que levava cinco jovens negros da periferia, vidas que valiam muito para suas famílias.

Por que tantos tiros de fuzil foram disparados? É como se cada projétil fosse a materialização do ódio que nutrimos pela população negra. Ódio arraigado na formação social e histórica brasileira.

Aqueles policiais, apenas, apertaram o gatilho, mas a munição nós fornecemos diariamente.

Os meninos morreram simplesmente por serem negros e pardos, pessoas alijadas da sociedade de consumo e do mercado de trabalho, uma realidade exposta pela pesquisa do IBGE recentemente publicada. Segundo o instituto, 75% dos negros e pardos, como os jovens que foram assassinados, estão entre os mais pobres e 64,3% estão desempregados. Por ironia, os meninos retornavam da comemoração do primeiro emprego de um deles.

Se juntarmos a arte da música de Elza com a literatura, podemos promover um dueto entre Ela e Clara dos Anjos – personagem negra do romance de Lima Barreto –. Destarte, podemos reforçar o drama das mulheres negras, representadas por Clara. Estas, além da cor, sofrem o preconceito de gênero, o que certamente se reflete no desemprego. Segundo o IBGE, o índice está próximo de 17%, o que é duas vezes maior do que a taxa registrada entre os homens brancos.

Impactado pela realidade e por esses números, entendo que as políticas afirmativas não devem ser apenas uma forma de pagarmos nossa dívida com o povo negro em razão da escravidão, mas penso que a dívida tornou-se atemporal, reunindo passado, presente e um futuro mais do que incerto.

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Até quando ouviremos o grito de que nossos irmãos valem menos? Até quando ouviremos milhões de Claras dos Anjos dizerem: Mãe, não somos nada!

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