A Extrema Direita na Câmara, por Sr. Semana

O NOVO tem se revelado campeão da extrema direita. Mostra, melhor do que nenhum outro partido, como o discurso da antipolítica é um dos disfarces da extrema direita.

A Extrema Direita na Câmara

por Sr. Semana

Na semana passada o STF tornou réu o deputado ex-policial militar eleito pelo Rio de Janeiro Daniel Silveira. O deputado encontra-se atualmente em prisão domiciliar por gravar e divulgar vídeo no qual ameaça ministros do STF e defende a ditadura militar.[1] Silveira ficou nacionalmente conhecido ao destruir em um comício placa da vereadora Marielle Franco do PSOL, assassinada por ex-policiais militares milicianos. A decisão unânime do STF é uma reação a um dos vários movimentos da extrema direita que visam romper com o estado democrático de direito. A chacina ocorrida nesta semana na comunidade de Jacarezinho no Rio de Janeiro pode ter sido o mais recente destes movimentos.[2]

No dia 19 de fevereiro, por 364 contra 130 votos, a Câmara dos Deputados manteve a prisão preventiva do deputado bolsonarista. Embora admita-se que alguns que votaram contra a prisão de Silveira podem tê-lo feito, não por alinhamento ideológico, mas por discordarem da ingerência do STF no Congresso Nacional, a votação é um indicador aproximado da extensão da presença da extrema direita nos partidos com representação na Câmara de Deputados. O grau de adesão das bancadas à defesa do deputado que já agrediu verbalmente, além de ministros do STF, repórter e militante do PSOL, invadiu o Colégio Pedro II e causou grande confusão ao se recusar a usar máscara em voo de carreira,[3] pode inclusive estar sendo usado por Bolsonaro como um dos critérios de escolha do partido ao qual irá se filiar para disputar as eleições de 2022.[4] Listo a seguir, em ordem decrescente, o percentual de deputados das bancadas de cada partido que compuseram os 130 votos contrários à prisão do deputado.[5]

Partido% votos pró SilveiraVotantes pró SilveiraBancada
NOVO10088
PTB82911
PSL723853
PSC70710
PODEMOS70710
PROS54,5611
PATRIOTA3326
PSD26935
CIDADANIA (antigo PPS)2528
PV2514
PL (antigo PR)19842
DEM17529
PSDB16532
MDB15534
PP15640
PSB13430
AVANTE12,518
PDT11,5326
REPUBLICANOS (antigo PRB)9332
SOLIDARIEDADE7114
PT0052
PSOL0010
PCdoB007
REDE001

A extrema direita na Câmara está concentrada em cinco partidos: Novo (100% da bancada), PTB (82%), PSL (72%), PSC e PODEMOS (70%). O NOVO tem se revelado campeão da extrema direita não só nesta votação. Mostra, melhor do que nenhum outro partido, como o discurso da antipolítica é um dos disfarces da extrema direita.[6] O PTB, partido de direita desde sua fundação no final do regime militar, tornou-se oportunisticamente ainda mais extremista na era Bolsonaro, sendo o seu presidente, Roberto Jefferson, um dos seus mais veementes defensores.[7] É o partido atual do deputado Silveira e pode ser o destino do presidente.[8] Caso isto ocorra, será profundamente irônico que a legenda do partido golpeado do poder pelos militares em 1964, retirada de Brizola pelo general Golbery durante a redemocratização,[9] seja agora liderada pelo principal apologista da ditadura militar. O PSL é o partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e, com ele, vários deputados com perfis semelhantes, notadamente o deputado Daniel Silveira. O PSC, Partido Social Cristão, é presidido pelo Pastor Everaldo, outro, junto com Jefferson, defensor notório de Bolsonaro, quem batizou no Rio Jordão no dia da votação do impeachment da presidenta Dilma no Senado. Foi recentemente preso, envolvido no mesmo escândalo de corrupção que levou ao afastamento do governador Witzel, eleito pelo PSC.[10] O PODEMOS tem como uma de suas principais lideranças o senador Álvaro Dias, um dos maiores apoiadores do ex-juiz Sérgio Moro.[11] Reúnem-se assim neste bloco da extrema direita suas principais correntes: pseudo negacionistas da política (principalmente no NOVO), a direita oportunista central na política brasileira desde a redemocratização (principalmente no PTB), ex-policiais e ex-militares apologistas da violência (principalmente no PSL), lavajatistas que se apoderaram de parte da justiça para retirar fraudulentamente a centro-esquerda do poder (principalmente no PODEMOS) e neopentecostais que utilizam a religião num projeto político de empoderamento econômico e de combate à laicidade do estado (principalmente no PSC).

 Entre 15 e 26% das bancadas dos maiores e mais tradicionais partidos de centro-direita votaram a favor do deputado (em ordem crescente: MDB e PP; DEM e PSDB; PL; PSD). São percentuais que assustam quando tomados absolutamente, mas pequenos no contexto da onda neofascista da última eleição para o executivo e o legislativo. Assim não surpreende que somente as bancadas dos partidos de esquerda (PT, PSOL e PCdoB), que somam meros 69 dos 513 deputados, estejam inteiramente livres deste mal.


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/04/28/stf-decide-denuncia-contra-daniel-silveira.htm

[2] https://jornalggn.com.br/editoria/politica/xadrez-de-como-bolsonaro-pode-ter-convocado-a-policia-do-rio-para-enfrentar-o-stf-por-luis-nassif/

[3] https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/quem-e-daniel-silveira-o-deputado-bolsonarista-preso-por-atacar-o-stf/

[4] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-partido-filiacao-favoritos/

[5] https://www.poder360.com.br/congresso/so-novo-fica-todo-contra-a-prisao-de-silveira-saiba-como-cada-partido-votou/

[6] https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/cotado-para-eleicao-em-2022-danilo-gentili-se-reune-com-joao-amoedo/

[7] https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/twitter-remove-video-de-roberto-jefferson-com-incitacao-a-violencia/

[8] https://ptb.org.br/ptb-pode-receber-filiacao-de-bolsonaro-com-vistas-a-reeleicao/

[9] http://memorialdademocracia.com.br/card/golbery-tira-de-brizola-a-sigla-ptb

[10] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/08/28/pf-prende-pastor-everaldo-presidente-nacional-do-psc-partido-de-witzel.ghtml

[11] https://epoca.globo.com/guilherme-amado/alvaro-dias-quer-moro-candidato-presidente-em-2022-injusticado-por-bolsonaro-1-24235361

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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