As fraldas do Maluf, por José Augusto Ribeiro

Foto Uol

As fraldas do Maluf

por José Augusto Ribeiro

Vou pedir licença para acrescentar ao que tem sido dito sobre a prisão do Maluf algumas observações de caráter jornalístico, embora possam ser acusadas de intromissão indevida em assunto de natureza médica. São observações que resultam de experiências pessoais vividas por mim depois de uma cirurgia de próstata e de um AVC. Não discuto se Maluf deve ou não cumprir a pena a que foi condenado, discuto se há excesso ou não no cumprimento dessa pena em regime fechado na Penitenciária da Papuda.

Médicos peritos do Instituto  Médico-Legal (IML) de Brasilia foram chamados a opinar sobre várias questões. Examinaram Maluf e responderam o seguinte, de acordo com o noticiário:

Maluf tem doença grave?

– Sim.

A doença é permanente?

– Sim.

A situação de Maluf apresenta “grave limitação”?

– No momento, não.

Maluf exige cuidados contínuos “que não possam ser prestados no estabelecimento penal”?

– Não. Todavia, deverá ter acompanhamento ambulatorial especializado.

Em razão desse laudo a Justiça negou o pedido de prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica apresentado pela defesa de Maluf. Como não tenho autoridade para discutir um laudo médico, tomo a liberdade de sugerir à defesa de Maluf alguns pedidos que ela em parte já fez.

Além de argumentar que nesse laudo alguns pontos importantes não foram levados em conta – o mais grave dos quais seria a doença cardiovascular de Maluf – e defesa de Maluf pediu a avaliação das condições do presídio:

Não consta da peça pericial – reclama o advogado Antonio Carlos (“Kakay”) de Almeida Castro – que os peritos tenham vistoriado as condições físicas e sanitárias do estabelecimento penal, ignorando-se sobre qual pressuposto de fato (que não mera conjectura) concluem pela existência da infraestrutura necessária aos cuidados do periciado.

A linguagem forense tem exigências que um advogado não pode ignorar, mas Kakay  tratar Maluf de “periciado” não será mais insólito que um despacho da Vara de Execuções Criminais de Brasília tê-lo tratado como “reeducando”, na piedosa ilusão de que Maluf estava enjaulado para ser reeducado.

Diante das omissões da perícia, Kakay pediu – segundo o noticiário do site jurídico Conjur:

– Que 33 questões sejam encaminhadas aos dirigentes do Instituto Médico Legal e do presídio da Papuda. Solicitam, ainda, que seja respondidas em “prazo razoável” para que o juiz decida sobre o pedido de prisão domiciliar. As perguntas dizem respeito aos alegados problemas ortopédicos e cardiovasculares do deputado, além da estrutura física e médica disponibilizada pelo presídio.

A partir de hoje o IML terá dez dias para responder e o pedido de prisão domiciliar será “relegado” para depois das respostas.

Se a linguagem forense pudesse ser tão permissiva quanto a jornalística, o pedido seria mais explícito e contaria o que está acontecendo e o noticiário registra.

Maluf não tem mais força muscular nas pernas para levantar-se sozinho.  Como vimos na televisão, ele consegue andar tropegamente,  apoiado numa bengala que a mão segura mas é o antebraço que sustenta e amparado e conduzido  por outra ou outras pessoas.

Na cela que divide com outros presos, Maluf só se levanta da cama, vai à privada e toma banho ajudado por outros presos. Já passei por isso, ajudado por enfermeiras e fisioterapeutas, nos meses iniciais de convalescença depois de um AVC  felizmente isquêmico.

Espero que Maluf consiga fazer na cama o que a medicina chama de mudar o decúbito, isto é virar-se de um lado para outro, movimento indispensável que eu não conseguia fazer sozinho, mas sempre conseguia  que uma enfermeira fizesse – e as demoras, nas madrugadas, pareciam durar mais que a eternidade do inferno.

À privada e ao banho eu era levado numa cadeira higiênica, com rodinhas  e  aquela tampa vazada  das privadas, e um enfermeiro me lavava, tanto num como no outro caso. Os companheiros de cela de Maluf não têm nem a obrigação de fazer isso, nem o preparo para saber como fazer. Não creio que as exigências do ajuste fiscal  tão procurado pelo governo permitam à administração da Papuda pagar enfermeiros ou cuidadores  para Maluf. E que os rigores da prisão em regime fechado permitam à família dele contratar profissionais para esse trabalho.

Não sei se Maluf  usará o uniforme da prisão ou terá a cabeça raspada, como Eike Batista e outros presos por corrupção. O que me preocupa são os pés e o calçado dele. Vi o Eike, no primeiro e no segundo dia,  calçando chinelos de dedo. Pelo amor de Deus, não permitam isso, nem que o Maluf  vá descalço para o chuveiro! Consultem um fisioterapeuta e aí mesmo em Brasilia está o Hospital Sarah Kubitschek, o melhor hospital de reabilitação  do mundo.  Tanto pela idade como por sua vulnerabilidade, Maluf  não pode levar nenhum tombo – e até uma escorregadela  será um perigo.

Deixei as fraldas para o fim, apesar de mencionadas já no título. Não sei se intencionalmente ou por acidente, o noticiário deixou escapar que Maluf usa fraldas geriátricas. Devem ser do modelo slip, de vestir, como uma cueca Calvin Klein ou Zorba, não  daquelas de bebê,  que dobradas viram um triângulo e em alguns casos geriátricos são necessárias, pelo menos na hora de dormir.

As triangulares nunca consegui instalar sozinho. As de vestir consigo, mas tenho de ficar em pé, sem apoio na bengala, para trazê-las até em cima e ajustá-las à cintura. Sem ajuda de outra pessoa duvido que Maluf consiga trocar de fralda. Até tirar a fralda usada, depois de um momento de incontinência urinária, duvido que ele consiga sozinho.

É isso, mas ainda me ocorre uma sugestão. Já que ele não pode ficar preso em casa, com tornozeleira eletrônica, por que não o prendem no Sarah, onde ele terá, sem maior custo para o governo, os mesmos cuidados de todos os  pacientes?  Fugir ele não vai nem tentar, por falta absoluta de condições físicas. E pode ter as sessões de fisioterapia  indispensáveis se quiserem que ele ainda viva o suficiente pagar pelo menos parte de sua condenação.

 

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