Sem projeto, direita brasileira vira figurante de Flávio B.
por Marco Piva
Era esperado que a definição das candidaturas presidenciais coincidisse com o empate técnico e até uma ligeira vantagem da extrema-direita nas pesquisas eleitorais. O plano da oposição era exatamente esse: colocar em dúvida a possibilidade de reeleição de Lula para, já na largada da campanha, garantir um amplo leque de apoios.
E quem está por trás desse plano tão óbvio quanto preocupante? O bloco de oposição permanente ao governo petista, dessa vez aliado com a maior parte da chamada grande imprensa, que sequer usa o nome completo do candidato da extrema-direita e tampouco quer nomeá-lo como extremista preferindo apenas a adjetivação simples de “direita”. Vamos chamá-lo, então, de Flávio B.
De fato, Lula não conseguiu reeditar o sucesso de suas gestões anteriores. Apostou que a retomada de políticas públicas bem-sucedidas lhe daria o colchão de popularidade necessário para seguir no Palácio do Planalto. Faltou-lhe, digamos assim, maior consistência estratégica para animar a esperança de um novo momento para o povo brasileiro. Fatos internos como o escândalo do desconto associativo dos aposentados do INSS e, mais recentemente, o caso do Banco Master forneceram os ingredientes que afetaram a imagem do presidente mesmo que ele nada tivesse a ver diretamente com esses fatos. O cenário internacional também não está ajudando. Nas bombas de combustível a digital do governo é naturalmente impressa p elos consumidores que não relacionam uma guerra pelo petróleo com o impacto na economia nacional.
Política é oportunidade que se busca 24 horas por dia, sete dias por semana. A extrema-direita, chacoalhada inicialmente pela tentativa de golpe no 8 de janeiro de 2023, demorou a se reabilitar e o fez batendo na tecla de que existe uma ditadura no país instalada em dois dos prédios da Praça dos Três Poderes. O desgaste do STF na opinião pública se tornou peça indissociável da nova tentativa de apear Lula do Planalto e emplacar, caso vitoriosa a oposição, o perdão presidencial para os condenados pela tentativa de golpe de estado.
O desenho estratégico da extrema-direita está feito e tudo caminha para uma eleição novamente polarizada. Surge a pergunta inevitável: qual será o papel da direita nesse enredo capitaneado, mais uma vez, pelos extremistas autoritários?
Pelo visto, ainda um lugar de figurante depois do erro estratégico cometido por Aécio Neves que questionou o resultado das eleições de 2014, o que abriu as portas do inferno para aquela parte expressiva da população que hoje destila seu ódio contra quem identifica como inimigo.
Neste ano eleitoral, a direita brasileira será novamente correia de transmissão dos extremistas, cabendo-lhe apenas a condição de subserviência a um modelo autoritário e ultraliberal. A eleição de Lula em 2022 interrompeu momentaneamente um ciclo que segue vivo porque as estruturas do verdadeiro poder sequer foram tocadas. Por isso, o que teve início em 2014 e se efetivou em 2018, com um breve interregno petista, virá com toda força para retomar o governo e desmoralizar as instituições que garantiram, por enquanto, a nossa frágil democracia.
Caberá às forças progressistas reeditar, agora com a necessidade de um leque ainda mais amplo de apoios, a frente democrática-liberal que impediu a instalação de uma ditadura no país. O enjoo no estômago da esquerda será maior em 2026 do que foi em 2022.
Marco Pivaé jornalista e diretor de redação do canal de Youtube China Global News.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário