O que o Lula de hoje não escreveu para o Lula de ontem
por Ricardo Mezavila
A primeira manifestação da campanha do presidente Lula no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, disse muito sobre o quanto aqueles operários do ABC fizeram história e trouxeram o Brasil até aqui, apesar de ditaduras, injustiças, perseguições, prisões e tentativas de golpe. Lula expressou isso na carta que leu ao Lula de 1979.
O encontro com seus companheiros de tempo de fábrica foi emocionante e confirma que o presidente não é apenas uma pessoa — como ele mesmo já disse diversas vezes —, mas produto da consciência de classe de um coletivo de trabalhadores.
Outro momento alto foi quando Janja, a primeira-dama que já era Silva antes de se casar com Luiz Inácio Lula da Silva, discursou sobre a força da mulher trabalhadora. Em um gesto de generosidade, homenageou Marisa Letícia Lula da Silva — a dona Marisa, companheira de Lula por 43 anos e responsável por costurar a primeira bandeira do PT.
O evento foi muito significativo para demonstrar força e capilaridade eleitoral num primeiro momento. A partir de agora, a campanha deve seguir com grandes encontros, como o marcado para o Estádio Moça Bonita, do Bangu Atlético Clube, no Rio de Janeiro. Contudo, os responsáveis não podem escorregar na banheira das redes sociais: é lá que estão aqueles que nasceram quando Lula já era presidente e não conhecem a trajetória gloriosa contada em Vila Euclides.
A juventude não está nas ruas como em outros tempos, nem ocupa espaço na política como em épocas passadas. Sinal disso foi a escassa presença de jovens no espaço reservado e nas arquibancadas e gramado do estádio. No evento de lançamento da candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, o próprio Lula fez mea-culpa por a organização não ter convidado nenhuma mulher para falar. Agora, será preciso rever também a ausência de jovens.
Em Copacabana, o candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, não conseguiu reunir mais de nove mil pessoas em seu comício — em parte pela falta de articulação do pastor Silas Malafaia, que demonstrava preferência por Tarcísio de Freitas em vez de Flávio. Mesmo isolado por aliados e com menor presença nas ruas, a campanha de Flávio é muito mais ativa nas redes sociais do que a de Lula. E não se enganem: no segundo turno, todos estarão unidos contra o petista.
As redes sociais, que em 2018 pegaram todos de surpresa, já não são novidade. Que a campanha de Lula continue ocupando espaços públicos com carros de som, bandeiras e militância, mas sem descuidar da plataforma mais utilizada pela juventude. Porque é dentro de um quarto, na frente do computador ou com o celular na mão, que a maioria se informa. Isso o Lula de hoje não escreveu para o Lula de ontem.
Ricardo Mezavila é cientista político.
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