Os ataques às escolas e à Escola: um projeto macabro?, por Ana Laura Prates

Esse tipo de crime, infelizmente recorrente nos EUA, tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil

Os ataques às escolas e à Escola: um projeto macabro?

por Ana Laura Prates

É com profunda tristeza, angústia e preocupação que começo a escrita deste texto. Como seguir a rotina, ouvir outras notícias, prestar atenção em qualquer outro assunto quando sabemos que uma creche foi invadida por um homem de 25 anos,  matando 4 crianças a machadadas e ferindo outras tantas. Ainda estávamos tão machucados pelo ocorrido há poucos dias, quando um aluno de apenas 13 anos, matou a facadas uma professora e feriu outras cinco pessoas em uma escola de São Paulo. Como disse o Ministro Silvio de Almeida: “um país, um mundo que mata crianças é tudo menos democracia, é tudo menos um mundo decente”. E acrescento a fala da psicanalista Bety Fux: “o assassinato de uma criança representa o assassinato do futuro da humanidade”.

Esse tipo de crime, infelizmente recorrente nos EUA, tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil nas últimas décadas e mais especificamente nos últimos anos, como mostram as estatísticas. Em que pesem as particularidades de cada caso e de seus autores, é evidente que não são casos isolados e aleatórios, mas sim que se trata de um fenômeno social da maior gravidade, e que precisa ser interpretado com cuidado. 

A primeira coisa que chama a atenção é o fato de que os alvos sejam escolas, creches ou mesmo universidades; em todos os casos locais ligados à educação. A Escola é uma das instituições mais importantes da Modernidade, sendo o lugar privilegiado de convívio social das crianças longe da família. Em que pesem as profundas diferenças de classe social, desde que a educação no Brasil se tornou universal (um longo caminho iniciado tardiamente nos anos 30 e concluído em nível legal na Constituição de 88), a escola não deixa de ser também um lugar de abrigo e proteção, em alguns casos inclusive de segurança alimentar. Aos poucos, entretanto, algo começou a mudar.

Há algumas décadas, orientados por Paulo Freire e Darcy Ribeiro dentre tantos outros e outras, lutávamos para que a escola deixasse de ser um lugar de opressão e rigidez para que se transformasse em um lugar de potencial transformação da sociedade e suas profundas desigualdades. Hoje, estarrecidos, parece que precisamos lutar para que a escola continue existindo. Muito me chamou a atenção – e inclusive escrevi um texto a respeito nessa coluna – o fato de Marcus Vinicius, criança assassinada pelo Estado do Rio de Janeiro na favela da Maré em 2018, ter proferido antes de morrer as palavras: “ele não viu que eu estava com a roupa da escola?”. Ele supunha, assim como todos nós, que o uniforme – a roupa da escola pública que uniformiza as crianças, tornando-as, ao menos durante algumas horas, todas iguais naquela instituição – pudesse protegê-lo. Aliás, por uma cruel coincidência, uma escola na própria Maré foi novamente atacada pela violência de Estado na mesma manhã em que ocorreu o ataque à creche de Blumenau.

Trago aqui um trecho do precioso relatório sobre “O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental” (deixo o documento completo no final do texto). Esse relatório foi apresentado no âmbito da transição governamental por Daniel Cara, membro da coordenação do Grupo Temático de Educação tendo a autoria coletiva de 11 pesquisadores a ativistas da educação pública e prevenção do extremismo de direita. Ele traz orientações valiosas para o enfrentamento desse fenômeno extremamente complexo. O relatório apresenta a contextualização histórica da violência às escolas, o histórico da violência às escolas no Brasil, as razões pelas quais a violência atinge as escolas, os alvos, meios e métodos de cooptação, os comportamentos a serem observados nos adolescentes e jovens, além de apontar uma série de ações de prevenção que envolvem tanto a escola como a sociedade, sem excluir a abordagem psicológica prévia e posterior aos ataques. Aborda também as medidas de responsabilização criminal incluindo as lideranças de grupos extremistas que recrutam jovens sensíveis a esse discurso bem como uma reflexão sobre a Justiça Restaurativa que envolve responsabilização, restauração e reflexão permanente.

Vemos, portanto, que para um fenômeno tão grave e multifatorial não há saída ou tratamento simples e rápido, e muito menos algum tipo de remédio milagroso que não envolva o conjunto da sociedade. O que sim, está evidente e comprovado é que esses ataques estão intimamente relacionados à veiculação do discurso de ódio – geralmente envolvendo racismo, misoginia, capacitismo e homofobia –, ao discurso armamentista, aos ataques proferidos nos últimos anos contra a ciência, a educação e os educadores – como se a própria escola fosse um lugar de doutrinação e ameaça para as crianças e jovens. E, também, ao aliciamento de jovens, sobretudo do sexo masculino a grupos neonazistas, incel e/ou supremacistas brancos, outrora restritos à deep web e cada vez mais presentes na superfície das redes.

Nesse cenário, algumas respostas rápidas me parecem bastante reducionistas e problemáticas, podendo inclusive colaborar para fomentar o tipo de discurso que pretende combater e que está da base desses ataques:

1.            Associar os ataques a casos isolados de “surtos psicóticos”. Embora um sujeito em surto psicótico possa eventualmente tornar-se agressivo e até violento, em hipótese alguma é possível vincular qualquer diagnóstico específico a tais comportamentos, o que de resto pode intensificar o preconceito contra pessoas que sofrem de transtornos psíquicos. Não se pode criminalizar a doença mental, tampouco patologizar o crime. Ambos os mecanismos significariam graves retrocessos aos avanços históricos conquistados em relação a um tratamento humano do sofrimento psíquico;

2.            Fomentar discursos que culpabilizem os pais ou as famílias dos autores dos crimes. Muitas vezes discursos até bem-intencionados no sentido de incentivar o diálogo entre pais e filho – o que evidentemente é algo benéfico – pode facilmente resvalar para o moralismo de afirmações tais como “famílias desestruturadas”, “falta de amor”, etc. Os pais ou familiares também estão inseridos em um sistema de aceleração, produtividade e acirramento que dificulta sobremaneira a sustentação de relações mais abertas e afetivas com os filhos.

3.            A defesa do homescholling, uma das principais ameaças contemporâneas à Escola, sobretudo em um país no qual a maior parte da violência – inclusive sexual – contra a crianças e adolescentes ocorre dentro de casa;

4.            Incentivar o discurso da segurança a qualquer custo e acima de tudo, sob o risco de transformarmos as escolas em prisões que promovem um fechamento ainda maior e intensificam o medo que pode derivar para o pânico. E sabemos que o medo é um afeto que programa a paralisia, mas que muitas vezes pode se reverter em mais agressividade e violência. Aqui e ali já começam a chamar os criminosos de “monstros” e exigir punições cada vez mais, digamos, monstruosas, incluindo a pena de morte. A verdadeira segurança passa, ao contrário, por uma maior abertura das escolas para a sociedade civil e outros espaços públicos, a abertura de diálogo com as comunidades e que envolta, além da educação formal, a diversidade cultural. E uma investigação séria das células de aliciamento de jovens, bem como um trabalho sistemático de combate ao discurso de ódio, passando por um debate sério sobre a responsabilidade das mídias e das redes sociais.

Por último, mas não menos importante, considero inevitável a articulação dos ataques nas escolas aos ataques à Escola (impossível não lembrar da escola sem partido, das fake News da ideologia de gênero e kit gay e dos ataques a Paulo Freire) e à crise mais geral vivida na educação no Brasil, incluindo o debate sobre o Ensino Médio. Lembremos ainda que o golpe de 2016 ceifou um projeto político cujo título era justamente “Pátria educadora”. Como dizia Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Neste caso, um projeto macabro.

Ana Laura Prates é dona de casa e mãe, psicanalista, escritora e editora. É autora, dentre outros de “Feminilidade e experiência psicanalítica” e “Da fantasia de infância ao infantil na fantasia” (Larvatus Prodeo Editora). Doutora pela USP, Pós-Doutora pela UERJ e Pesquisadora da UNICAMP. É membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e do coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia (PUD)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

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Ana Laura Prates

Ana Laura Prates é graduada em Psicologia pela USP (1989), mestre em Psicologia Clínica pela USP (1996), doutora em Psicologia Clínica pela USP (2006) e possui pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).

2 Comentários

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  1. Impossível esquecer as palavras recentes do ministro Silvio de Almeida: um país que mata suas crianças é tudo menos uma democracia, um país que mata suas crianças não é, jamais será um país decente.

  2. Crianças das comunidades são mortas todos os dias pela violência do Estado. Elas são negras e pobres. Crianças estão sendo mortas dentro das escolas. Algumas são brancas e ricas, mas todas são Crianças e, nesse sentido, são o nosso futuro, o futuro do Brasil. Como podem ser objeto de Ódio???? O que querem esses seres abjetos que não conseguem ter um projeto de futuro? Como podem ser tão desprovidos de compaixão???

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