Pacto? Qual pacto?, por Luis Felipe Miguel

Fotos Diário do Grande ABC

Pacto? Qual pacto?

por Luis Felipe Miguel

Nem estava com ânimo de falar sobre o tal “pacto pela democracia”. Bate tristeza ver que tantas organizações com trajetórias em geral vinculadas à esquerda foram seduzidas por algo tão hipócrita. Eu me pergunto o que pessoas como Sâmia Bonfim e Eduardo Suplicy estavam fazendo no lançamento da coisa, junto de gente do PSDB, do Novo, do PPS, da Rede. Deve ser a velha tentação de mostrar que “sou de esquerda, mas sou limpinho”.

O que propõe o tal pacto? Só coisas boas. Diálogo, tolerância e “embate virtuoso de ideias no debate público”. “Eleições limpas, diversas e com ampla participação em outubro”. E uma reforma política “para sair da crise melhores do que antes, no rumo reafirmado da ética, da justiça e do desenvolvimento compartilhados”. Quem pode se dizer contra isso?

Nos “compromissos” específicos, o politico deve “disseminar o chamado à importância do voto” e o cidadão, zelar pelo combate às notícias falsas. E assim por diante. Mas a exaltação da “importância do voto” não se relaciona com a denúncia do golpe e a ojeriza às mentiras cabe perfeitamente no discurso da grande imprensa e não aponta para a necessidade de pluralização da mídia.

É isso. Lendo o manifesto, parece que a democracia está ameaçada pela intolerância, mas não foi fraturada por um golpe de Estado. Que a a bandeira das eleições limpas e diversas pode ser empunhada de forma abstrata, sem referência ao fato de que há um candidato encarcerado e proibido de concorrer. Que a democracia que o pacto quer proteger não tem nada a ver com os direitos sociais e o combate às desigualdades, sendo limitada a um conjunto de regras para a competição política, como quer o pensamento conservador. Que o monopólio dos meios de comunicação ou a enorme desigualdade material não são obstáculos à democracia. Que a “polarização” é o grande mal e que, para superá-la, precisamos encontrar um campo comum, mesmo que para chegar lá a maior parte de nossas bandeiras mais caras tenha que ficar pelo caminho.

Fica evidente quais são as ameaças à democracia que o pacto deseja combater: Bolsonaro e a intervenção militar. O pacto é uma expressão clara da instrumentalização da ameaça da extrema-direita por parte da direita não tão extrema, como se não tivesse sido ela, a direita light, quem abriu espaço para o crescimento da direita raivosa, na hora em que era de seu interesse.

Somos constrangidos a defender a “democracia” nestes termos, aceitando o golpe, os retrocessos e o desfiguramento da Constituição de 1988, sempre para evitar o mal maior (Bolsonaro, intervenção militar). Voltamos à velha teoria de que é melhor se contentar com pouco, bem pouco, para que este pouco seja seguro. Mesmo que este pouco seja cada vez menos e mostre que nunca é tão seguro assim.

Do “pacto pela democracia” da Neca Setúbal ao “manifesto pelo novo centro” de FHC é só um passo. Melhor garantir logo a vitória de Alckmin ou de Marina, para não correr riscos, não é mesmo?

 

6 comentários

  1. O pacto que o povo deseja e

    O pacto que o povo deseja e quer é Lula livre, eleições idem, e Lula, lá.

    • Quem cala consente.

      Interessante que:

      Ou os agentes do golpe-pacto, enquanto corrompem e avançam, não estão nem aí para o que o povo quer, …

      Ou o povo só quer se os agentes do golpe-pacto permitirem.

      É cada um por si, e o resto que se dane.

  2. Derivas
    A esquerda em decomposição.
    O que o golpe veio fazer, além de vender o país, é mexer nas suas estruturas, materiais, institucionais e culturais, estabelecidas no último século. E com elas todas as contradições, insuficiências, fraquezas e distrofias do campo progressista de esquerda estão sendo postos à prova.
    Por isso a resistência não é apenas ao desmonte do Estado, é também à cooptação do estado de espírito contra-majoritário e às condições que sempre dificultaram à esquerda se tornar uma força política popular numerosa, por exemplo, sua falta de centro gravitacional próprio. Quem conseguiu isso está sob ataque de personagens que se intitulam “progressistas”, o PT e Lula, agora com nome e sobrenome com a intenção de ofuscar seu símbolo, e até “fundamentalismo lulista” é algo que se ouve em lugares insuspeitos de globelici(ni)smo, blogues “de esquerda”.
    O texto é irretocável. E a reflexão, incômoda e por isso mais que nunca um dever dos que não se acomodam.

    Sampa/SP, 16/06/2018 – 12:56

  3. Paz é fruto somente de Justiça, não de golpe

    O plano dos ladrões do golpe é alckmin picolé de chuchu opus deimiurgo,  roubando o cargo de presidente, e de uma forma como se o povo o elegesse.

    O velho patriarcado “religioso” que fingiu lutar contra a ditadura militar enquanto homens e mulheres honestos foram vítimas verdadeiras, agora está tentando anular todas as conquistas que a Constituição nos garante, inclusive a de Estado Laico. Fingem apoiar os LGBT, aborto, Marina Silva, e até o Lula, para mais a frente enfiarem tudo num saco só e descerem o cacete de assassinos da inquisição. Segundo seus planos criminosos, somente os traidores, feitores de ESCRAVOS, escaparão de seus cacetes vagabundos. Semanas atrás vi manchete sobre alckmin falando em aumentar força de segurança. E os ingênuos não percebem, o agente da velha ditadura que estão deixando roubar o poder.

    http://www.valor.com.br/politica/5576675/alckmin-inclui-general-em-equipe-para-cuidar-de-programa-de-seguranca

  4. Lembro-me de Dilma quando, em

    Lembro-me de Dilma quando, em resposta a agripino maia, (minúsculas mesmo) falar em diálogo da guilhotina com o pescoço. É o que estão a propor agora, só que com um sorriso nos lábios. Posso falar pelo meu pescoço. Obrigado, estou fora desse diálogo.

  5. O povo tá vendo..

    .. essas e outras derrapadas tem um custo muito mais alto do que aparentam..

    .. o apoio das “esquerdas” ao ciro, por exemplo, é igual batom na cueca, vc pode até explicar e tal, mas o relacionamento nunca mais será o mesmo..

    .. os reflexos serão revelados nas eleições..

    .. mesmo com Lula candidato..

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