A liturgia do golpe: quando a fé veste toga e a imprensa se ajoelha
por Luís Delcides
A multidão na Paulista, num misto de orações e ódio, pedia a prisão de Lula e o fim de Alexandre de Moraes. Enquanto a imprensa hegemônica silencia, uma engrenagem transnacional transforma a crise do STF em pressão estrangeira sobre a soberania brasileira.
O 7 de setembro de 2026 na Avenida Paulista não foi apenas mais um ato político. Foi a encenação de uma liturgia ensaiada nos bastidores do poder, onde a fé evangélica se funde com a estratégia de guerra híbrida para desestabilizar as instituições brasileiras. O espetáculo teve todos os elementos: o clamor religioso, a pressão política orquestrada, a ausência calculada da grande imprensa e, pairando sobre tudo, a sombra de interesses que ultrapassam as fronteiras do Brasil.
O momento central da encenação foi a exibição de um vídeo do ministro André Mendonça durante cultos e atos. Com sua voz serena, o “reverendo” da mais alta corte do país não apenas abençoou a militância como deu um verniz de institucionalidade ao coro que pedia o fim de Alexandre de Moraes e a prisão de Lula.
A estratégia é clara: usar a capa da fé para mobilizar o eleitorado evangélico, um dos maiores e mais influentes do país, em torno de uma pauta que é, antes de tudo, política. Lideranças desse segmento já avaliam que a defesa de Mendonça foi o principal motor de adesão aos atos, um movimento que a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) busca capitalizar.
A transmissão da mensagem do ministro em altares como o da Igreja Mundial do Poder de Deus, ao lado de candidatos, revela a “liturgia do golpe”: uma teologia política que busca santificar a luta contra opositores e contra os limites da democracia. Por outro lado, me espanta um pastor de uma tradicional igreja batista em Santo André, lançar uma série de mensagens sobre Fé & Cidadania: quais princípios estão por trás do seu voto?
Como observador direto, pude assistir a mensagem do tal pastor batista. Confesso a sua questionalidade, principalmente de um título “O que Deus espera de um governante?”. Ora, em meio a instrumentalização de uma extrema-direita perniciosa, como um pregador local mistura questões de cunho Estatal com uma perspectiva histórico-bíblica?
Para piorar, o tal preletor andreense, utiliza textos do antigo testamento para falar sobre referências de governabilidade segundo à bíblia. Ora, se estamos em um sistema democrático, pós-moderno e com influências da revolução francesa, que ajudou a criar as bases dos governos representativos e dos direitos civis atuais, é incabível utilizar base bíblica, até a nova testamentaria, pela forte influência do Direito Romano.
Enquanto isso, o papel da imprensa hegemônica neste enredo é de cumplicidade silenciosa. A mesma mídia que em anos anteriores não hesitava em rotular atos semelhantes como golpistas, agora se abstém de um posicionamento crítico contundente. A omissão diante de pedidos explícitos por intervenção militar e de ataques frontais ao Estado de Direito não é neutra. Ela constrói, pelo silêncio, um consenso que normaliza a agressão à ordem constitucional, uma tática bem documentada em episódios de desestabilização política na América Latina.
A ausência do presidente Lula (PT) no debate da Band, apesar de justificada pela campanha como uma estratégia para evitar um “tiroteio” em desvantagem, foi usada como combustível para a narrativa de que o governo se esconde da confrontação democrática.
A emissora e seus comentaristas, feridos pela ausência que esvaziou o evento, transformaram sua crítica em um ataque político contínuo, ajudando a construir um enredo de fragilidade e desprezo do governo pela opinião pública. A cobertura, que poderia ter explorado as profundezas da crise institucional, restringiu-se ao vitimismo corporativo e à crítica superficial.
A crise, porém, é mais profunda e não pode ser reduzida a uma mera disputa entre Lula e a imprensa. O que se vê em jogo é um acoplamento perigoso entre a fratura interna do Supremo Tribunal Federal (STF) e uma engrenagem transnacional que opera para converter essas disputas em poder de pressão estrangeiro.
Conforme analisado em profundidade pela plataforma Código Aberto, o caso do ministro André Mendonça é emblemático. Sua trajetória o coloca em um circuito transnacional de formação jurídica e religiosa, com conexões comprovadas com entidades americanas, o que o transforma em um possível “ponto de acoplamento” da crise.
Sua posição como relator do caso Banco Master e seu embate com Moraes oferecem o cenário perfeito para que atores externos, como o deputado Eduardo Bolsonaro, atuando de Washington, transportem o conflito interno para a agenda internacional, pressionando por sanções e medidas contra autoridades brasileiras.
A guerra híbrida, nesse contexto, não precisa controlar o STF. Basta penetrar suas fraturas, usar a fé como escudo e a imprensa como eco seletivo para, de fora, encurralar o país, minar sua soberania e condicionar seu futuro eleitoral. O 7 de Setembro foi o ensaio geral. O palco está montado, e a peça, infelizmente, ainda não terminou.
Luís Delcides – advogado e jornalista
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