5 razões pelas quais o embargo de Trump na Venezuela não acabará com o regime de Maduro

As novas e duras sanções de Trump à Venezuela não são um embargo comercial completo como o embargo de Cuba, que isolou quase totalmente a ilha dos mercados mundiais desde 1962

Foto da AP / Leonardo Fernandez

Por 

Em The Conversation

Os EUA anunciaram um embargo econômico à Venezuela, destinado a acabar com o regime autoritário do presidente Nicolás Maduro.

Em uma ordem executiva de 5 de agosto, o presidente Donald Trump disse que as duras novas sanções – que têm como alvo qualquer empresa ou indivíduo fora da Venezuela fazendo negócios direta ou indiretamente com o governo de Maduro – foram uma resposta à “usurpação contínua de poder” do regime de Maduro. “Abusos dos direitos humanos.”

Todos os ativos do governo venezuelano nos Estados Unidos também estão congelados.

As novas medidas representam uma escalada significativa de sanções anteriores, que visavam principalmente funcionários do governo e algumas indústrias-chave, como petróleo e gás, ouro e finanças.

Mas minha análise da crise política e econômica da Venezuela sugere que um embargo por si só não provocará a saída de Maduro. Aqui estão cinco razões pelas quais.

1. A economia da Venezuela já está quebrada

Embargos são uma ferramenta de política externa destinada a pressionar os governos desonestos a mudar suas formas, cortando seu fluxo de caixa.

É tarde demais para isso na Venezuela.

Depois de anos de má administração e corrupção pelo governo de Maduro, a economia da Venezuela está em frangalhos. O PIB contraiu mais de 15% ao ano desde 2016. A hiperinflação atingiu 10 milhões por cento em 2019.

O governo sem dinheiro de Maduro deixou de pagar seus bônus em dólar em 2017. Este ano não conseguiu efetuar pagamentos em US $ 1,85 bilhão que o Deutsche Bank e o Citigroup emprestaram à Venezuela usando o ouro do regime como garantia. O governo da Venezuela está quase falido.

Leia também:  Uma crítica ao modelo primário exportador brasileiro como estratégia de inserção global, por Heldo Siqueira

Mas desde que esse declínio econômico aconteceu gradualmente, a partir de 2014, ricos venezuelanos – especialmente funcionários públicos corruptos – já colocaram seu dinheiro no exterior, principalmente nos mercados europeus. Por exemplo, os venezuelanos possuem cerca de 7.000 apartamentos de luxo em Madri, de acordo com o The New York Times.

As sanções americanas não podem ferir a classe dominante da Venezuela do jeito que poderiam ter feito há vários anos.

2. O embargo deixa alguns fluxos de caixa intocados

As novas e duras sanções de Trump à Venezuela não são um embargo comercial completo como o embargo de Cuba, que isolou quase totalmente a ilha dos mercados mundiais desde 1962.

As importações e exportações com o setor privado – um mercado ainda considerável apesar das políticas socialistas de Maduro – continuarão a fluir livremente, assim como as remessas dos venezuelanos que vivem no exterior.

Essas duas fontes de renda vêm em dólares, o que é muito mais estável e valioso do que a moeda local. Combinados, eles podem manter a economia venezuelana doente por algum tempo.

Um embargo incompleto, em outras palavras, não provocará um completo colapso econômico.

3. Os pobres, não o regime, serão os mais prejudicados

Os venezuelanos com acesso a dólares – por meio de remessas ou economias esquecidas antes da crise – estão sobrevivendo a essa crise. Eles podem pagar comida, remédios e gasolina e comprar outros bens para trocar.

Mas a maioria dos venezuelanos hoje é desesperadamente pobre. Segundo as Nações Unidas, 90% das pessoas vivem na pobreza. Isso é o dobro do que foi em 2014.

Leia também:  CDHM repudia invasão da embaixada da Venezuela e comportamento de autoridades

O salário mínimo venezuelano de cerca de US$ 7 por mês não é suficiente para cobrir as necessidades básicas de uma família. Como resultado, a desnutrição está se espalhando. No ano passado, os venezuelanos relataram ter perdido uma média de 25 libras, e dois terços disseram que vão dormir com fome.

A maioria dos venezuelanos depende do governo para comer. Sua entrega mensal de alimentos altamente subsidiados e produtos básicos conhecidos como “CLAP” é uma tábua de salvação para os pobres. Se o governo ficar sem dinheiro, os pobres sentirão o máximo – não os funcionários do governo e outros venezuelanos com acesso a dólares.

4. China e Rússia ainda apóiam a Venezuela

Maduro tem poucos aliados internacionais. Quando o governo Trump liderou esforços no início deste ano para reconhecer o líder da oposição Juan Guaidó como o presidente legítimo da Venezuela, 60 países aderiram a ele.

Mas a China e a Rússia continuam sendo os mais poderosos impulsionadores internacionais da Venezuela e salvaram Maduro dando empréstimos maciços ao governo no passado. Ambos vetaram todos os esforços dos EUA para aprovar resoluções contra o governo de Maduro dentro das Nações Unidas.

A China explorou os vastos recursos naturais da Venezuela para obter lucro. A Rússia tornou a nação sul-americana um parceiro geopolítico estratégico no Hemisfério Ocidental, um aliado fundamental em seus esforços para minar a influência americana.

Nenhum dos dois países provavelmente cumprirá um embargo econômico à Venezuela. Os analistas esperam que eles continuem comprando petróleo, ouro e outras commodities valiosas do regime de Maduro, fornecendo dinheiro muito necessário ao seu governo.

Leia também:  Mourão se encontrou com invasor da embaixada venezuelana, por Jamil Chade

5. Lembra-se de Cuba?

Embargos raramente produzem mudanças de regime do tipo que Trump procura na Venezuela.

Basta considerar Cuba, que este ano celebrou o 66º aniversário de sua revolução comunista – 57 anos depois que o governo Kennedy impôs um embargo comercial contra ela . O embargo de Cuba não acabou com o regime de Castro; alimentou o sentimento anti-americano, entregando aos Castros um bode expiatório fácil para todos os problemas do país – melhorando assim a popularidade do governo.

Um embargo quase certamente fará o mesmo na Venezuela. Trump deu a Maduro ainda mais munição para culpar os EUA pelos problemas econômicos de seu país.

Maduro tem feito isso há anos de qualquer maneira. Agora, ele não estará totalmente errado.

  • O autor é professor associado de Negócios Globais e membro do Conselho do Instituto de Estudos Latinos e Latino-Americanos do St Mary’s College da Califórnia

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

  1. No xadrez das relações internacionais, um embargo americano, além de ser inútil ( Cuba é o exemplo mais longevo disso), ajuda muito China e Rússia, pois essas duas nações tornam a nação vítima do embargo um cliente dos sonhos seus produtos, pois agem sem concorrência. Essa tragédia venezuelana escancara de vez a sub-nação que o Brasil se tornou desde o golpe de 16, pois em condições normais quem tinha que estar mediando um acordo entre Maduro e oposição seria o Brasil e não a Noruega. E não só por questões humanitárias, mas pragmáticas = na Venezuela hoje ou se consegue um acordo pra haver eleições em que todos os setores participem e com observadores internacionais ou tudo caminha pruma guerra civil, que além de desestabilizar economicamente toda a região criaria uma diáspora de imigrantes que tornaria o drama dos refugiados na Europa coisa pequena. A possibilidade de uma intervenção estrangeira – acho que é pequena, porque os EUA não vão querer que soldado americano morra no que poderia ser um novo Vietnã pra eles ( ainda mais perto de eleição presidencial) e eles já perceberam que não é possível tercerizar a guerra, ou seja, fazer com que o Brasil ou Colômbia invadam o país, pois na hora Rússia e China apoiariam o exército venezuelano e a chance de imporem derrotas a Colômbia e ao Brasil seria imensa.

  2. Mais uma análise sob a ótica dos estadunidenses.
    É bom para ver como eles pensam.
    O primarismo é comovente. Quando ele afirma que o regime de Maduro é incompetente e corrupto por definição. É a mesma análise feita a respeito dos governos petistas no no Brasil .

    • Exato. O texto começa tropeçando no clichê “regime autoritário”, atropela o bom senso ao creditar legitimidade ao embargo atribuindo-lhe “qualidades terapêuticas contra desonestos” e nos brinda com o lugar comum de se demonizar um país que já sofre há anos ataques imperiais alucinados. E ainda tem o requinte de condenar o não pagamento “sagrado” aos bancos vampiros. Um mimo…

    • Sim. Qualquer porcaria de análise com credencial de “Centro de Estudos Latino-Americano” mainstream dos EUA exala aquele velho colonialismo paternalista e implicitamente racista. “Líderes incompetentes e corruptos” e o “socialismo” são a causa de todos os males. Eu leio nas entrelinhas algo como “ah, se aqueles macacos latinos não tivessem a audácia de escolher o próprio caminho, e deixassem a gestão de suas riquezas e sociedade para nós, homens brancos da América escolhidos por Deus, tudo seria lindo e maravilhoso”. As nossas elites entreguistas e vira-latas compram esse discurso colonizador para bravejar contra os “populistas” que ousam botar o pobre na equação. Esse que é o verdadeiro “crime” do chavismo, do petismo, da “pink tide” latino-americana. Pobres e negros devem ficar na senzala, não na universidade. Mulheres, na cozinha, LGBTs, no armário. Tudo no seu devido lugar.

      Não há a menor menção que foi o dumping da Arábia Saudita que derrubou o preço do barril de petróleo por idos de 2014/2015, ou que no dia seguinte à primeira eleição de Maduro em 2013, após a morte de Chavez, a direita já botou fogo no palheiro porque não sabe perder. A crise é tanto política quanto econômica. Pelo texto, também fica por entender que as sanções só “atingem os malvados corruptos do alto escalão do regime”. Ah, é. “Regime”. Sempre. “Regimes” são malvados e “governos”, bonzinhos.

  3. A matéria chega a chocar pela sua primariedade. Considerar o embargo do imperialismo americano “um bode expiatório fácil” é no mínimo desconhecer como funciona esse embargo. E, ao contrário do que diz o autor, Cuba passou por dificuldades extremas, inclusive no aspecto alimentar. E pouco se fal.a

    4
    2
  4. Os que têm imóveis em Madri e, principalmente, Miami são os ex-donos do petróleo que moram no Leste de Caracas (os parcos apoiadores do fantoche guaidó) que nunca se conformaram com a nacionalização promovida por Chavez em 2002 e desde de então entenderam que são a minoria e que nunca chegarão ao poder novamente pela via do voto. Então passaram os últimos 17 anos tramando com os eua a derrubada da Revolução Bolivariana, com o fracassado golpe de abril de 2002, passando pela guerra midiatica e chegando ao desesperado embargo econômico. Mas a Revolução resiste com amplo apoio popular, ao contrário do que a midia privada conta. Inclusive a intervenção militar foi dissuadida pelxs 2 milhões de homens e mulheres de fuzil em punho prontos pra infligir um novo e humilhante vietnam pros eua e seus lambe-botas sulamericanos, com apoio de Russia, China, Irã e Turquia.

  5. Os que têm imóveis em Madri e, principalmente, Miami são os ex-donos do petróleo que moram no Leste de Caracas (os parcos apoiadores do fantoche guaidó) que nunca se conformaram com a nacionalização promovida por Chavez em 2002 e desde de então entenderam que são a minoria e que nunca chegarão ao poder novamente pela via do voto. Então passaram os últimos 17 anos tramando com os eua a derrubada da Revolução Bolivariana, com o fracassado golpe de abril de 2002, passando pela guerra midiatica e chegando ao desesperado embargo econômico. Mas a Revolução resiste com amplo apoio popular, ao contrário do que a midia privada conta. Inclusive a intervenção militar foi dissuadida pelxs 2 milhões de homens e mulheres de fuzil em punho prontos pra infligir um novo e humilhante vietnam pros eua e seus lambe-botas sulamericanos, com apoio de Russia, China, Irã e Turquia.

  6. Os que têm imóveis em Madri e, principalmente, Miami são os ex-donos do petróleo que moram no Leste de Caracas (os parcos apoiadores do fantoche guaidó) que nunca se conformaram com a nacionalização promovida por Chavez em 2002 e desde de então entenderam que são a minoria e que nunca chegarão ao poder novamente pela via do voto. Então passaram os últimos 17 anos tramando com os eua a derrubada da Revolução Bolivariana, com o fracassado golpe de abril de 2002, passando pela guerra midiatica e chegando ao desesperado embargo econômico. Mas a Revolução resiste com amplo apoio popular, ao contrário do que a midia privada conta. Inclusive a intervenção militar foi dissuadida pelxs 2 milhões de homens e mulheres de fuzil em punho prontos pra infligir um novo e humilhante vietnam pros eua e seus lambe-botas sulamericanos, com apoio de Russia, China, Irã e Turquia.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome