Os crimes individuais

Do leitor Rafael Martín`

Em relação ao que escreve André Santos em seu blog, concordo com parte e discordo da outra parte. Como você parece incentivar que as pessoas dêem as suas opiniões, passo a escrever o que acho.

Concordo que é desprezível a forma como foi tratado o caso da Suzane von Richthofen e Irmãos Cravinhos. Nestes casos, a imprensa simplesmente reflete a média da opinião pública sobre o caso e promove uma espécie de linchamento moral, para a satisfação de todos. Poucas linhas foram gastas tentando-se avaliar o que de fato teria acontecido, nem se o parricídio teria uma razão oculta.

Também concordo que ‘uma análise minuciosa dos meandros do meio, da personalidade e da vida que eles viviam talvez ajudasse a entender o porquê da tal brutalidade praticada, embora não a justificasse’.

Mas incomodo-me com o salto que se faz a partir daí, vinculando os problemas da sociedade aos problemas da juventude de hoje e ao caso Richthofen em si. A sociedade de hoje tem seus problemas, de fato, mas não acho que possa ser necessariamente responsabilizada pelo acontecido.

Nem sempre o problema é da sociedade de consumo. Apesar dos problemas familiares, o assassinato de pais não é uma coisa comum. Apesar da desigualdade, nem toda pessoa pobre comete crimes. Na realidade, diariamente, apesar dos problemas, da desigualdade, da discriminação, há milhões de pessoas que escolhem não cometer crimes.

Quase sempre, as pessoas possuem livre arbítrio para decidir. Não se trata do caso em que um indivíduo se viu sem alternativas para continuar vivendo. Não se trata de um pré-adolescente sem perspectiva nenhuma, que entra para o tráfico como tantos outros a seu redor.

Não me sinto responsável por Suzane ou os irmãos Cravinhos. Não consigo imaginar nada que eu tenha feito ou tenha deixado de fazer, que eu tenha pensado ou dito, que pudesse ter contribuído para que tomassem a decisão de matar os pais de Suzane. Até onde posso ver, eles tomaram a decisão sozinhos, e a sociedade, com todos seus problemas, não tem como ser responsabilizada pelos seus (deles) atos. Eles tomaram uma atitude que todos nós concordamos ser errada, e a sociedade os julga dessa forma.

Ainda assim, o linchamento moral não era necessário. Eles cometeram um erro monstruoso e deplorável, devem pagar por isso, e só. A imprensa deveria ter analisado melhor as razões pelas quais Suzane e os Irmãos Cravinhos tomaram a decisão que tomaram — justamente porque, sendo seres humanos imperfeitos, não estamos isentos de cometer erros. Saber como eles tomaram a decisão que tomaram talvez ajudasse a evitar que outras pessoas tomem decisões erradas.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora