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O começo de uma nova fase do capitalismo

Da Carta Maior

Capitalismo está implodindo, mas não pela mobilização popular, diz Samir Amin

Para Samir Amin, estamos entrando em uma nova fase do capitalismo, uma etapa qualitativamente nova, caracterizada pela extraordinária centralização do capital, chegando a tal ponto que, hoje em dia, o capital monopólico controla absolutamente tudo. . O sistema capitalista não só está em crise, sustenta, como o que está se produzindo nele é uma autêntica implosão. Mas isso não é efeito da luta popular, adverte.

(*) Artigo publicado originalmente em Other News (Ed. espanhol)

Samir Amin é um dos pensadores marxistas mais importantes de sua geração. Nascido no Cairo, ele passou sua infância e juventude em Port Said. Foi ali onde frequentou a escola secundária. De 1947 a 1957 estudou em Paris, obtendo um diploma em Ciências Políticas antes de graduar-se em Estatística (1956) e Economia (1957). Em sua autobiografia “Itinéraire intellectuel” confessou que sua vida militante só lhe permitia dedicar um mínimo de tempo a sua preparação para as provas na universidade. De fato, logo na sua chegada a Paris, Amin se uniu ao Partido Comunista Francês. Entretanto, terminaria afastando-se desta organização para aproximar-se aos círculos de pensamento maoísta.

Samir Amin é autor de uma volumosa obra de análise crítica do capitalismo e de suas crises. Durante uma recente visita ao Equador deste pensador marxista, Irene Leão, da organização FEDAEPS, realizou uma entrevista com ele. Dela tratamos de resumir as ideias que nos pareceram mais significativas.

Segundo Samir Amin, entramos em uma nova fase do capitalismo. Ele acredita que se trata de uma etapa qualitativamente nova, caracterizada pela extraordinária centralização do capital, chegando a tal ponto que, hoje em dia, o capital monopólico controla absolutamente tudo.

Trata-se de uma relevante mudança qualitativa que ele atribui a qualificação de “monopólio generalizado”, ou seja, que estende seus tentáculos a todas as esferas. Esta característica provoca consequências importantíssimas. “Em primeiro lugar - diz Samir Amin - se desvirtuou completamente a democracia burguesa, pois se antes se fundamentava em uma oposição esquerda/direita, que correspondia a alianças sociais, mais ou menos populares, mais ou menos burguesas, mas diferenciadas apenas por suas concepções da política econômica, na atualidade, nos Estados Unidos, por exemplo, republicanos e democratas, ou na França socialistas da corrente de Hollande e a direita de Sarkozy. 

Samin acha que o sistema capitalista não só está em crise, mas que o que está ocorrendo é uma autêntica implosão do próprio sistema… Ou seja, o sistema não está sendo capaz de reproduzir-se a partir de suas próprias bases. Ou, dito de outra forma, está sendo vítima de suas próprias contradições internas.

Por outro lado, Samir Amin acredita que, diferente do que acontecia no passado, as forças reacionárias dominantes - o capital monopólico - estão concentradas em uma tríade imperialista constituída pelos Estados Unidos –Europa - Japão. A esta tríade se somam todas as forças reacionárias ao redor do mundo que se agrupam, de uma forma ou outra, em blocos hegemônicos locais. De acordo com a opinião de Samir Amin, estas forças reacionárias locais são extremamente numerosas e diferem enormemente de um país a outro.

“A estratégia política das forças dominantes, - Estados Unidos – Europa –Japão - está definida por sua identificação do inimigo. Para eles, o inimigo são os países emergentes, ou seja, a China. O resto, como a Índia, o Brasil e outros, são para eles semiemergentes”.

Um sistema que implode, mas com fraca resposta popular
Para Samir Amin, o sistema capitalista não está implodindo como consequência do ataque organizado dos povos, mas que paradoxalmente sua destruição está sendo uma consequência de seu próprio êxito. “Desgraçadamente, - aponta Samir Amin - se examinamos os movimentos de nossos povos na atualidade, seu grau de consciência sobre a natureza do sistema e, particularmente, sobre a implosão é ainda muito débil e muito limitado. Se circunscreve à esquerda histórica de tradição marxista, enquanto a maioria, ao fim de reiteradas capitulações frente ao neoliberalismo, não se questiona, nem problematiza o assunto de fundo”.

E Amin faz uma afirmação histórica: “Os momentos revolucionários são raros e curtos ao longo da história, e se nesses momentos existem iniciativas audazes, estas ganham terreno e avançam muito rapidamente. Não me incomoda escutar que na atualidade, os comunistas no Equador ou no Egito são uma pequena minoria e em certos casos não conseguem nada nas eleições gerais e outras. Se têm audácia, e não somente uma audácia retórica: se empreendem ações, isso se converte rapidamente em uma bola de neve”.

Para constatá-lo, explica Samir Amin, basta examinar a história dos partidos comunistas que chegaram ao poder. Alcançaram o poder em um curto tempo. O Partido Bolchevique se constituiu formalmente em 1897. Em 1905, oito anos depois, houve uma primeira revolução e doze anos depois, veio a segunda. Tudo isso em apenas vinte anos.

“Quando o Partido Comunista Chinês, se reunia em Xangai, com Mao e outros, eram apenas umas vinte pessoas, muito pouco para um país da dimensão da China. Seis meses depois, eram várias centenas e alguns anos depois, já encabeçavam um pequeno exército local de liberação. A Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro, teve características semelhantes".

Samir Amin acredita que, historicamente, as vitórias revolucionárias foram ou rápidas ou inexistentes. “O fato é que os partidos de esquerda que se colocam no freezer durante cinquenta anos, esperando o “momento indicado”, simplesmente se congelam e aí termina sua história”.

Tradução: Libório Junior

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Não li tudo, mas torço para que o título corresponda a um futuro melhor.

Temo porém que os (que se consideram) donos do capitalismo financeiro predatório mundial não "entregarão o ouro" facilmente. Tem mostrado poder para resistir (tomara que esteja enganado).

Estarão se reunindo "nas moitas" para definir novas táticas aperfeiçoando as que estão ficando "manjadas" e "inaceitáveis"...

Percebo os movimentos (pouco eficazes), mas nao percebo as mudanças (pelo menos no mundo que hoje comanda o capitalismo). 

O que se vê é a banca apertando o cinto de todo mundo, tal qual sempre o faz (e fez), para salvar e manter sua obesa barriga.

Percebo-as mais até no Brasil (Clinton e Blair insinuaram o mesmo) e evidentemente na China, que saiu do comunismo para o comunitalismo (ou capitamunismo?) e ainda não se sabe bem no que vai dar. Mas já se sabe claramente no que está dando (e parece melhor do que seu passado).

Pelo menos aqui (dentro do possível) estamos na direção do capitalismo que eu gostaria.

Se a medíocre elite neoliberal de pirata e sua míRdia anti-Brasil deixarem.

E mais rápido, se apenas pararem de atrapalhar.

 

Ao ler essa análize, eu me convenço ainda mais que o marxismo é não falseável, implodiu faz tempo e só sobrevive em mentes muito criativas.

 

Com toda a franquesa. Ler o que diz esse senhor é perda total de tempo. Parece entrevista com jogador de futebol. Nenhuma ideia ou analise aproveitavel para a luta politica atual. Uma verdadeira "sopa de letrinhas" pseudo socilaista.

 

Caro Nassif

Essa não foi e nem será a última crise do capitalismo, o Brasil é um excelente laboratório, de como o capitalismo pode sair da crise, que ele cria de tempos em tempos.A crise é o excesso de concentração de dinheiros por parte de uma minoria, e esses nunca ficam em crise, e nem sabem o que é isso.

Saudações

 

Do Outras Palavras

 

O modo pós-capitalista de estar no mundo
 

Alternativa contemporânea ao sistema constrói valores e relações sociais opostas às dominantes. Por isso, é tão poderosa, diz Ricardo Abramovay

 

Entrevista a Inês Castilho

 

O enredo de “Vida de Galileu”, uma das grandes peças teatrais de Bertolt Brecht, desenvolve-se no início dos anos 1600. Em meio ao poder medieval das cidades-estados italianas e da Igreja, o precursor da Revolução Científica e seus discípulos estão inconformados com um velho mundo de servidões; de ideias e relações sociais seguras, porém estáticas e ultra-hierárquicas. Apaixonam-se pela pesquisa, pela democracia (“seremos ainda cientistas, se nos desligamos da multidão?”, perguntam-se) e pelas máquinas. Imersos numa ordem obsoleta, são obrigados a concessões (Galileu lamentará para sempre a mais dramática delas). Mas antecipam, em suas próprias vidas, valores que só se tornarão hegemônicos um século e meio depois.

 

É impossível não recordar Brecht, ao ler a entrevista que o economista Ricardo Abramovay concedeu a Inês Castilho, no âmbito da pesquisa “Políticas Cidadãs – Reflexões e Caminhos”, produzida pelo instituto Ideafix por solicitação do IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade). Num momento em que a humanidade debate-se diante de novos impasses – agora provocados pela crença absoluta na razão, pela exploração da natureza sem limites e por um sistema econômico que subordina todas as relações sociais ao dinheiro e ao lucro –, Abramovay sustenta que a saída já existe. Ela está presente em valores e lógicas que, embora contra-hegemônicos, são adotados por um número expressivo de pessoas e se alastram de forma crescente pelas próprias relações de produção.

 

Não se trata, esclarece o entrevistado, de um retorno ao “socialismo real”. Ninguém mais defende o controle direto, pelos Estados, dos meios de produção e das decisões sobre o que produzir e como trocar. A crítica e a alternativa são de outra natureza. Provavelmente, muito mais profundas, porque questionam as relações sociais e simbólicas associadas ao sistema – não apenas o grupo ou classe social que está em seu comando.

 

Abramovay – que acaba de lançar um novo livro, “Muito além da Economia Verde“ [ler resenha] – aponta exemplos concretos. Vão ficando para trás as noções que associavam sucesso pessoal ao acúmulo de bens materiais. Um dos focos desta superação é o automóvel, mercadoria-símbolo do capitalismo. De que vale possuí-lo, se ele já não oferece mobilidade alguma, nos centros urbanos? Na desconstrução de seu fetiche, emergem reivindicações como o direito à cidade, ou o transporte coletivo de qualidade; e mesmo a valorização da bicicleta e das caminhadas, há pouco desqualificadas como arcaicas.

 

Coloca-se em xeque a competição, um valor central na lógica dominante. Cultiva-se a colaboração e o cooperativismo – que, graças à internet, já não estão presos ao território, à família e ao local. Pratica-se o trabalho compartilhado a distância: por exemplo, nas comunidades de software livre. Seus integrantes não pensam em restringir o uso dos conhecimentos que desenvolvem. Sabem que ele se enriquecerá cada vez mais, enquanto for compartilhado. Por isso, preferem mantê-lo aberto e disponível aos demais. E este modo de agir, que produz resultados notáveis, é acatado e contratado por grandes empresas do setor, como IBM e Google.

 

A estas práticas, corresponde uma nova visão de democracia – que vai muito além do voto, do partido ou da representação. Busca-se participar permanentemente da vida pública: em movimentos, redes e ONGs voltados a todos os tipos de causas. Exige-se das empresas padrões de comportamento adequados a objetivos sociais. Questiona-se seu suposto “direito” de buscar apenas resultados econômicos.

 

Onde chegará este questionamento, que coloca em xeque os próprios valores do sistema? Abramovay não está preocupado com rótulos. Como o Galileu de Brecht, enxerga que “o tempo antigo acabou, e começou um novo”. Quer valorizar um outro modo de estar no mundo; criar condições para que se propague, demonstrando como são obsoletas as velhas relações – mas também possível e indispensável a mudança. (A.M)

 

A entrevista completa vem a seguir. Aguarde Eduardo Viveiros de Castro, na próxima edição da série “Outra Política”.

 

 

Como você percebe a atuação política do cidadão brasileiro ?

 


Na política institucionalizada, o quadro me parece desolador. Mas quando se fala em política como expressão de participação das pessoas em assuntos públicos, as coisas têm um rumo bem mais interessante. Uma grande quantidade de jovens que hoje se formam em boas escolas – de direito, medicina, engenharia, humanidades, economia – têm a ambição de voltar sua inteligência e capacidade a assuntos de natureza social. No poder Executivo, sobretudo federal, jovens vão fazer uma carreira cheia de esperanças e a carreira de gestor público é uma boa expressão disso. Nas empresas, ocupam cargos na área de responsabilidade socioambiental corporativa. E há uma explosão de organizações não-governamentais voltadas a temas os mais diversos, com grande participação. Essa movimentação é política, e está se ampliando. Representa formas muito distantes da política convencional.

 

Que temas mobilizam a sociedade, a seu ver?

 


A qualidade da vida nas cidades mobiliza cada vez mais – qualidade do ar, trânsito, mobilidade urbana, áreas verdes. Tudo isso exprime o desejo de cidades que se voltem para as pessoas e não para os automóveis e de habitações que estejam integradas a centros dinâmicos e não localizadas em locais isolados, pouco densos e onde a própria presença do Estado é precária. As formas de mobilização hoje mudam rapidamente, e muitas vezes passam pelas mídias sociais. Cada vez menos as mobilizações mais importantes serão necessariamente as que desembocam em manifestações massivas na rua. Cresce a capacidade empreendedora (privada e associativa) dos jovens por meio de mecanismos como o crowdsourcing.

 

O que é crowdsourcing?

 


São formas cooperativas de apoio a ações de relevância social. O Transparência Hacker (um grupo de São Paulo cujo principio é que os dados públicos têm de ser públicos e compreensíveis) precisava de um ônibus para divulgar essa ideia pelo país. Puseram o projeto numa plataforma da internet e em pouco tempo arrecadaram a quantia para comprar o ônibus. Isso mostra como é errada a ideia de que as pessoas na internet estão isoladas e afastadas de interação real. Ao contrário, estão super vinculadas. E existe uma interação entre esse vínculo virtual e o vínculo real: elas se encontram a partir da internet. A interação social real aumentou e, com ela, a importância dos locais concentrados de inovação, como, por exemplo, o Porto Digital em Recife.

 

Então você considera que as redes sociais propiciam novas formas de participação?

 


Exatamente. A gente não presta atenção, mas começam a se multiplicar, na periferia de São Paulo grupos de leitura de poesia inspirados no exemplo pioneiro da Cooperifa. Essas coisas vão tomando feição pela internet, ganham uma visibilidade inédita. Claro, o dominante no país ainda são as profundas desigualdades. O impressionante é que, apesar disso, surgem espaços de participação social, que não correspondem mais aos que existiam há vinte ou trinta anos – movimento sindical ou de reivindicações salariais – mas têm um alcance extraordinário.

 

Qual o papel das redes sociais nisso?

 


Há hoje no Brasil mais celulares que habitantes, e 20 milhões de aparelhos são smartphones, aparelhos inteligentes, com grande poder computacional e funcionando em rede. Ou seja, isso vai se multiplicando: desde receber financiamento para certas iniciativas até participar em coisas como Wikipédia e software livre.

 

Uma característica das redes sociais é o fato de que os processos cooperativos são muito mais viáveis e baratos, do ponto de vista do investimento do indivíduo, do que os existentes antes da internet. Antes, os processos cooperativos supunham não apenas a partilha de um certo código de valores, mas também uma experiência vivida comum entre as pessoas – o que os reduzia a iniciativas localizadas e muitas vezes paroquiais, em que apenas certos grupos (muitas vezes de militantes) acabavam participando. Uma característica importante da internet é que você tem o sentimento de participar com outras pessoas de iniciativas de cujos valores partilha, mas isso não supõe o paroquialismo de uma situação local de convivência.

 

Isso não significa, claro, que deixa de haver direção nos movimentos sociais. Não é verdade que as novas tecnologias promoveram o afastamento da natureza hierárquica das organizações. Mas é verdade que as modalidades de cooperação que marcaram o século XX estão se transformando rapidamente. Convertem-seem coisas que não sabemos muito bem quais são, e que vão passar por fórmulas de fazer negócio em cooperação, o que atinge também as inovações tecnológicas, científicas e organizacionais.

 

Há hoje plataformas em que as pessoas cooperam pelo prazer de cooperar. É curioso como partes dessa participação são voluntárias e partes são pagas, e as partes pagas não destroem as que são solidárias, e as solidárias não afastam as pagas. Por exemplo: a IBM é hoje uma empresa de prestação de serviços de informática que se apoia em software livre e comercializa produtos de software. Essa mistura entre o público e o privado será cada vez mais importante. Ao mesmo tempo, atividades econômicas em que a eficiência sempre associou-se a concentração têm um amplo poder de descentralização: é o caso, por exemplo, daquilo que no Brasil se chama de geração distribuída de energia, em que cada casa, cada fábrica, cada escritório, cada fazenda tem o potencial de se transformarnão apenas em consumidor, mas igualmente em produtor de energia, graças a novas tecnologias de produção e, sobretudo, a dispositivos inteligentes a que a sociedade da informação em rede dá lugar.

 

Essa é uma grande mudança em relação aos anos 60.

 


Claro! Eu me formei em um ambiente intelectual em que transformações sociais verdadeiras supunham reduzir ao mínimo e quase eliminar o papel dos mercados na vida social. Tratava-se de superar o capitalismo e permitir uma organização social em que os grandes meios de produção e troca pertencessem à sociedade organizada, e seu uso se exprimisse, no planejamento estatal, a partir dos sinais que a demanda social expressa diretamente (e não pelos preços) lançaria ao sistema de planejamento. O século XX mostrou, tragicamente, que sociedades complexas não têm a menor chance de compatibilizar uma vida democrática com essa ideia de organização social.

 

Essa transformação seria compatível com o capitalismo contemporâneo?

 


Há duas dimensões do capitalismo contemporâneo incompatíveis com a emergência do desenvolvimento sustentável. A primeira exprimiu-se na crise de 2008 e é a submissão dos parâmetros de funcionamento das empresas privadas às necessidades do mundo das finanças. Grandes empresas e consultorias começam a insurgir-se contra o caráter destrutivo desta submissão. A Unilever, por exemplo, declarou que não vai mais publicar balanços trimestrais que em nada contribuem para avaliar seu desempenho, mas alimentam a especulação financeira. A mesma orientação é preconizada por uma importante consultoria, a Generation, formada pelo ex-vice presidente Al Gore.

 

A segunda dimensão está na impossibilidade de o crescimento do consumo e da produção de bens e serviços ser encarado como a finalidade última e autônoma da vida econômica. Parte muito importante daquilo que a economia oferece à sociedade, da riqueza social, não corresponde a ganhos de real prosperidade, de real bem-estar para as pessoas. Nossa questão central consiste em saber como, numa economia descentralizada, estimular os detentores dos meios de produção de riqueza para que passem a oferecer o que é útil para a sociedade e não apenas o que é capaz de ampliar os empregos, a arrecadação de impostos, algumas inovações e, claro, lucros.

 

Mas é possível avançar nesta direção? Há sinais disso?

 


Há duas esperanças, que talvez possam ser caracterizadas como duas brechas fundamentais. Primeira: cresce o sentimento social que dissocia riqueza de prosperidade. O colapso da mobilidade urbana é um belo exemplo disso: se o uso do carro individual pressionasse de forma tão grave os ecossistemas, mas oferecesse às pessoas os meios para que se deslocassem de forma confortável e rápida, seria muito mais difícil o diversificar os sistemas metropolitanos de transportes. Mas não é o que ocorre. O carro tornou-se o avesso da mobilidade. Um documento de 2012 da Confederação Nacional da Indústria o diz explicitamente e preconiza o fortalecimento de diversas formas de transporte coletivo e também de transporte individual não motorizado, como a bicicleta. Mas, apesar deste reconhecimento, no mundo todo, a produção de automóveis aumenta num ritmo alucinante. É uma riqueza que não resulta em bem-estar. Alguns não hesitam em tratar a produção de carros como uma “tobacco like industry”, um setor tipo cigarro.

 

A segunda esperança, a segunda brecha está no sistema de cooperação que emerge a partir de redes sociais e que tem um papel cada vez mais importante na criação de prosperidade. O conhecimento, a informação, a cultura não são, por definição, bens privatizáveis. Não se pressupõe a sua privatização para que possa haver o usufruto deles. O conhecimento de que eu desfruto não se esgota nem se compromete pelo fato de você desfrutar dele também – diferentemente de uma maçã, que ou é comida por mim, ou por você. Isso muda tudo: a relação com os bens imateriais não se submete às regras convencionais de mercado. Além disso, existe, no próprio capitalismo, uma tendência crescente de que as condições em que as empresas funcionem sejam cada vez mais submetidas à crítica pública e à visibilidade do seu rastro ambiental e dos seus impactos sociais.

 

Isso está ganhando corpo?

 


O discurso segundo o qual as empresas visam o lucro, e, portanto, é totalmente ilusória a perspectiva de pressioná-las para que tenham comportamentos mais adequados, é uma perspectiva, a meu ver, cética e capitulacionista. Os movimentos sociais não podem simplesmente respeitar – e felizmente não estão respeitando – as fronteiras que, desde o Renascimento até o século XX, delimitaram a esfera pública e a esfera privada. Pressionar os governos, elaborar melhores políticas públicas – isso é crucial e talvez o melhor exemplo recente seja a lei de resíduos sólidos no Brasil, que está promovendo mobilização pública, associativa e privada muito importante.

 

Mas é muito bom que essas fronteiras estejam se borrando. Isso significa que cabe, sim, à sociedade interferir na maneira como as empresas produzem. Por exemplo: o setor agroalimentar não tem nenhuma responsabilidade sobre a obesidade? A obesidade é um problema apenas da Organização Mundial da Saúde e do ministério da Saúde? As corporações têm o direito de fazer propaganda de junkie food associando brinquedos ao consumo de fast food? Nos Estados Unidos, desde 1950, a porção de refrigerantes ingerida aumentou seis vezes; a de batatas-feiras e hamburguer foram multiplicadas por três. Resultado: 34% da população é obesa. Hoje há mais obesos e pessoas com sobrepeso no mundo do que famintos. Os custos para o sistema de saúde e o comprometimento da qualidade de vida são imensos: será que as empresas não têm nada a vez com isso?

 

O mesmo se dá em relação à indústria automobilística, por exemplo. Não é possível permitir que a mobilidade urbana seja discutida apenas entre sociedade, poder público e organizações nãogovernamentais – enquanto as corporações do setor, que são poderosíssimas, dizem: “não temos nada a ver com o engarrafamento, a única coisa que fazemos é produzir automóveis”. Num excelente documento recente da Confederação Nacional da Indústria, condena-se de forma muito fundamentada o automóvel individual como caminho de mobilidade. Porém, não há uma palavra sobre o conflito entre esta condenação e as perspectivas de aumento, por parte da indústria, na produção de carros nos próximos anos.

 

Mas existem chances de a sociedade, de fato, interferir sobre o que faz o setor privado?

 


É muito difícil, mas começa a acontecer. O Greenpeace, que concentrou suas ações nos anos 1980 e 1990 sobre governos e organizações multilaterais, passa, a partir de 2000 a dirigir seus esforços predominantemente para o setor privado, com ações muitas vezes heroicas — como agora, na tentativa de bloquear a criminosa exploração petrolífera do Ártico.

 

Não me parece, num horizonte minimamente visível, que as grandes mudanças necessárias às sociedades humanas passarão pela supressão dos mercados e das empresas privadas. Não há nenhuma força política importante que preconize o controle direto pelo Estado dos grandes meios de produção e a troca como base para a emancipação social contemporânea. E é justamente porque, para a sociedade, é mais eficiente que esses grandes meios de produção e troca não estejam sob o controle do Estado; que a sociedade – e não simplesmente o Estado – tenhaum controle muito maior sobre eles.

 

Você poderia detalhar?

 


A Shell, numa peça publicitária recente, afirma: “devemos nos preparar para um mundo com mais de um bilhão de carros”. Ao contrário, precisamos resolver o problema da mobilidade sem persistir neste aumento insano da oferta de automóveis individuais. Por mais que o etanol seja menos nocivo que a gasolina, ou que os motores elétricos sejam energeticamente mais eficientes que os dispositivos de combustão interna, a verdade é que os grandes centros metropolitanos no mundo todo não podem mais suportar o aumento da produção automobilística. Isso já vem sendo explicitamente declarado até por dirigentes desta própria indústria, como o bisneto de Henry Ford ou como a Audi, que organizou recentemente um encontro no qual discutia como iria se transformar de empresa que produz automóveis em uma firma voltada a ampliar realmente a mobilidade das pessoas.

 

Um dos pressupostos para isso é aumentar as possibilidades de uso partilhado de bens e serviços que hoje são quase estritamente de acesso individual e exclusivo. Surgem empresas voltadas a oferecer o uso do automóvel individual por algumas horas, como se faz no sistema de aluguel de bicicletas em Paris ou no Rio de Janeiro. Mas para que isso prospere, é preciso que o próprio espaço urbano se transforme para ampliar os locais para este tipo de carro e que o uso de materiais nas cidades não se volte tanto, como hoje, a vagas para estacionar veículos de propriedade individual, que ficam parados a maior parte do tempo.

 

É uma mudança cultural profunda.

 


É sobretudo uma mudança na relação entre economia e ética: num mundo com 7 bilhões de pessoas, caminhando para 10 bilhões, não dá para conceber a economia como um sistema autônomo e mecânico em que os preços podem desempenhar o papel de promover o equilíbrio e cuja expansão é sempre desejável, uma vez que com ela, aumentam os empregos, os impostos e as inovações. É necessário produzir melhor, com ecoeficiência, mas a grande novidade é que a questão do sentido da vida econômica está ganhando uma audiência totalmente inédita no meio acadêmico e empresarial.

 

É isso que importa na discussão a respeito do Produto Interno Bruto. Muito mais do que medir os reais custos que o funcionamento da economia impõe à vida social, é fundamental discutir e decidir sobre os propósitos a partir dos quais são usados os recursos materiais, energéticos e bióticos de que dependemos. Ou seja, produzir para quê? O tema do bem-estar que a economia contemporânea havia afastado e tratado como uma espécie de consequência não intencional da expansão indiscriminada de bens e serviços passa a ser abordado de maneira direta. Da mesma forma, a ideia de que cada indivíduo volta-se estritamente a seus interesses e que daí resulta bem-estar é hoje fortemente contestada. Pesquisas atuais a respeito do comportamento humano – vindas da biologia, da evolução dos primatas, da psicologia, da economia experimental, e da sociologia das redes – mostram que existe uma propensão cooperativa nas pessoas muito maior do que a gente imagina e, sobretudo, do que a economia imagina.

 

E a publicidade, como fica?

 


Hélio Mattar, do Instituto Akatu para o Consumo Consciente, propõe que 5% da verba global de publicidade volte-se a um fundo, gerido pelo setor privado e por organizações da sociedade civil, para que o talento publicitário auxilie em formas cada vez menos predatórias de consumo.

 

São iniciativas muito inovadoras, que contrastam com certas posturas retrógradas. Por exemplo, quando o Instituto Alana recorreu ao Conar sobre o uso pelo McDonalds de brinquedinhos associados à venda de fast-food , a resposta do CONAR foi vergonhosa. Dizia basicamente que a população brasileira está melhorando seu nível de renda, tem o direito de comer o que bem entender, e que ninguém tem nada a ver com isso. Felizmente o McDonald’s acabou sendo condenado pelo PROCOM, mas recorreu e o caso ainda se encontra sob discussão jurídica.

 

Na verdade, a publicidade é crucial no tema mais difícil relacionado à emergência do desenvolvimento sustentável: o consumo. Nada expõe mais fortemente a tensão entre necessidades sociais e liberdades individuais. O consumo é da esfera da soberania do indivíduo, faz parte da democracia, da construção da sociedade moderna fazer o que se quer, com o seu dinheiro. Isso é muito bom, mas existem necessidades sociais que têm de se impor ao indivíduo e ao seu comportamento, como urgências.

 

Os dados do Instituto Akatu mostram que uma família de quatro pessoas produz em média, ao longo de 73 anos (tempo médio de vida do brasileiro), um volume de lixo cujo armazenamento exigiria dois apartamentos de 50 metros quadrados, com três metros de pé direito… Para os 17 milhões de habitantes de São Paulo, isso representa nada menos que 850 mil prédios de dez andares com dois apartamentos de 50 metros por andar para guardar o lixo.

 

Por mais importante, porém, que sejam as atitudes dos indivíduos, não se pode imaginar que o vetor das mudanças esteja nas pessoas, como se elas formulassem a demanda e as empresas apenas respondessem ao desejo do consumidor. Isso é, mais que ilusão, é hipocrisia. As pessoas desejam aquilo que lhes é oferecido e tanto a publicidade como as próprias empresas desempenham um papel decisivo na formação da demanda e, portanto, no consumo.

 

E há uma dificuldade adicional. De fato, o ritmo de redução da pobreza nas sociedades contemporâneas é maior do que em qualquer momento anterior da história. É verdade que há uma pobreza imensa, um bilhão de pessoas em miséria absoluta, 800 milhões sem acesso a água, mais de um bilhão que ainda vivem em situação de fome, 2,7 bilhões sem saneamento e uma carência particularmente grave para as mulheres no acesso a sistemas modernos de saúde e contracepção. Mas isso não pode escamotear que em torno de 80 milhões de pessoas vão entrando, por ano, no mercado consumidor – uma espécie de nova classe média mundial que, em 2030, será composta de cinco bilhões de pessoas, numa população global em torno de oito bilhões.

 

Será impossível persistir nesta incorporação certamente positiva, se não for enfrentada seriamente a questão das desigualdades e dos propósitos a partir dos quais é organizada a oferta de bens e serviços pelo sistema econômico. Em outras palavras, por mais importante que seja produzir melhor, utilizando menos recursos, fontes renováveis de energia e eliminando a devastação, o desafio está em ir muito além da economia verde. Ou seja, colocar a questão das desigualdades e do sentido da vida econômica no eixo das próprias decisões empresariais e do planejamento público, associativo e privado.

 

http://www.outraspalavras.net/2012/09/12/o-modo-pos-capitalista-de-estar...

 

Demarchi

"pensadores marxistas"isso atualmente exite em termos sérios.

Já que ele é um renomado "pensador marxista" cabe a ele (ou a qualquer outro) resolver o desafio feito por Mises que deve fazer já uns 70 anos e nenhum socialista refutou.

"Sem a propriedade privada dos meios de produção não existem mercados. Sem mercados não há formação de preços de mercados.Sem preços não é possivel realizar o cálculo econômico, ou seja, não se pode estimar a importância e a escassez dos bens de produção sem o que uma alocação racional de recursos é impossivel."

A impossibilidade do socialismo se deve a similitude formal que ele teria que resolver, os problemas econômicos sâo os mesmos em qualquer sistema, por exemplo como seria os juros em uma economia socialista e ainda se teria juros etc.

http://www.ordemlivre.org/2011/02/da-impossibilidade-do-socialismo/

http://www.youtube.com/watch?v=hUgT6_PexmA

 

Como não sou marxista, posso dizer com tranquilidade que vc trouxe um monte de bobagens básicas:

"Mercado" é oferta x demanda, necessitar x conseguir. 

E isso existe em qualquer sistema. Vc apenas replicou a visão capitalista (*)

A "propriedade" (não sou contra, sem exageros) é apenas uma variável, que afeta a "bobagem" seguinte:

"Sem formação de preços não existem mercados".

E qual é o mercado que não tem "preços"?

Ou vc acha que no comunismo é tudo "digrátis". Ou que um carro custa o mesmo "cupom" do sanduiche?

"Preço" é o "valor no instante da transação" entre quem oferece e quem demanda.

O valor pode ser em horas de trabalho, posições de sexo, conchinhas, barras de ouro, terras, apoio político, bens materiais (e imateriais...), moedas (minerais ou vegetais), títulos (maduros e podres), etc. 

Para não "virar zona", convencionou-se usar dinheiro (ainda que em países comunistas).

Pode ser tabelado, livre, mercado negro, barato, extorsivo, de oportunidade, justo, monopolista, etc.

Eu costumo definir que "preço" (num sistema de livre mercado) é:  

encontro entre o maior valor que o vendedor consegue vender e o menor valor que o comprador se dispõe a pagar. 

Portanto, as afirmações que vc trouxe me parecem apenas confusas e tendenciosas.

Nenhum mistério.

Quem faz a confusão não são os sistemas político-econômicos.

Mas as pessoas que os usam ... ou deles se aproveitam.

 

(*) eu sou capitalista ... do jeito não predatório, humano, solidário, construtor, social (de sociedade)...

 

 

Da impossibilidade do socialismo

POR FABIO BARBIERI

Antes da formulação do argumento da impossibilidade, a crítica econômica ao socialismo era centrada no problema dos incentivos: removida a busca pelo lucro, as pessoas não se dedicariam às suas tarefas com o mesmo entusiasmo. Mesmo hoje os economistas, influenciados pela Economia da Informação, acreditam que o ponto crucial do socialismo se refere ao desenho de mecanismos de incentivos adequados que induzam as pessoas a se esforçar de maneira desejada. Já tratamos em artigos passados do ponto central por trás desse tipo de crítica, quando discutimos o conceito de Homo economicus e a existência ou não de uma natureza humana. Mas a objeção ao socialismo colocada pela tese sobre a impossibilidade do cálculo econômico que abordaremos agora é mais fundamental. Admita então, para desenvolvermos o argumento, que tenhamos uma sociedade habitada exclusivamente por entusiasmados stakhanovistas[1] e na qual não possa surgir um único indivíduo “egoísta”. Mesmo assim, afirma o argumento, o socialismo não seria viável, pois os trabalhadores não teriam nenhuma indicação a respeito de como seus esforços deveriam ser empregados. Em outros termos, as decisões produtivas seriam tomadas às cegas, isto é, sem consideração sobre a importância dos usos alternativos dos recursos. Vejamos o argumento mais de perto.

 

Quando Marx escreveu, a teoria econômica dominante se preocupava com o estudo das causas da riqueza das nações e a distribuição da mesma entre classes sociais. Nessa tradição, os economistas se interessavam pela capacidade produtiva de um país como um todo, desconsiderando o problema de determinar o que deveria ser produzido. Com a revolução marginalista na teoria econômica, em 1871, esta última questão passou para o primeiro plano, na medida em que o problema econômico fundamental passou a considerar não apenas um meio – a atividade produtiva – mas também a relação deste meio com os fins – a importância que os indivíduos atribuem àquilo que é produzido. Na presença da escassez de meios, a diferença entre riqueza e pobreza na verdade consiste na escolha adequada sobre os usos alternativos dos meios, ou seja, sobre que fins serão atendidos e quais serão deixados de lado, ou ainda sobre o que (e também quanto, quando e onde) deve ser produzido.

 

Com isso a atividade produtiva passa a ser problematizada: ao passo que para os clássicos as decisões produtivas são apenas dados técnicos, que dizem respeito a engenheiros apenas, para os economistas modernos passa a ter um aspecto econômico: qualquer decisão produtiva deve comparar o valor do bem produzido com o valor daquilo que se deixou de produzir com os mesmos recursos: deve-se comparar o valor com o custo de oportunidade dos recursos.

 

Essa comparação é feita em qualquer sociedade, seja qual for o seu grau de desenvolvimento. Em sociedades tribais, cuja economia é simples o bastante para que os usos alternativos dos recursos seja razoavelmente percebidos por todos, as decisões produtivas são tomadas centralmente, não importa se por um chefe ou conselho tribal, não importa se auxiliados por rituais mágicos ou tradição. Em sociedades mais ricas, cujo grau de especialização das tarefas é maior, não é possível que uma única mente ou grupo conceba conscientemente os usos alternativos dos recursos. O grau de complexidade dessas economias é apenas possível então devido ao cálculo econômico – a comparação de valores e custos de oportunidades com o auxílio de valores monetários derivados de um sistema de preços.

 

A tese de que toda sociedade se depara com o problema alocativo é conhecida como tese da similitude formal entre os diferentes sistemas econômicos, que expusemos em um artigo passado. Essa tese implica que também no socialismo o problema se coloca: se o objetivo é superar o nível de riqueza das economias de mercado e não retornar a uma economia primitiva de subsistência, também no socialismo deve-se decidir quanto do esforço deve ser voltado para a produção de bens de consumo e quanto para a produção de bens de capital a fim de aumentar a produtividade futura, o que implica que tal sociedade deve levar em conta as preferências temporais da população, de um comitê ou de um ditador. Assim, um análogo à taxa de juros deve ser considerado. Também ali o emprego de um recurso em uma indústria implica diminuição da produção nas outras indústrias que poderiam utilizar esse recurso, o que significa que a categoria “custo” também permanece no socialismo.

 

Se a tese da similitude formal for entendida, não tem sentido a crença historicista nutrida por Marx e outros de que as categorias como preços, valor, custos, lucros ou juros só teriam sentido naquilo que denominam “capitalismo”. Embora não seja necessário o pagamento de um valor monetário denominado juros, por exemplo, a teoria econômica do socialismo deve dizer como as decisões intertemporais de produção devem ser tomadas, o que implica considerar a preferência temporal e expectativas de produtividade de diferentes projetos produtivos por parte de seja lá qual for o agente que aloca recursos nessa sociedade, seja por uso de planejamento central ou não.

 

A tese da similitude formal nos leva diretamente ao argumento da impossibilidade do cálculo econômico no socialismo, formulado em 1920 pelo economista austríaco Ludwig von Mises [2]. Este autor nota ironicamente que os autores socialistas estão condenados a traçar para sempre planos de como chegar ao socialismo sem dizer uma única palavra sobre o socialismo em si. De fato, se procurarmos na vasta literatura marxista, dificilmente encontramos alguma observação sobre o assunto além de umas poucas observações de Engels utilizadas para negar a complexidade do problema de decidir o que deve ser produzido. Lênin, por sua vez, em seu livro sobre a economia da transição para o socialismo [3], acredita que as decisões produtivas são de fato apenas técnicas: basta convencer os engenheiros a trabalhar para o proletariado. As questões gerenciais se resumem a manter livros de controles.

 

Para Mises, por outro lado, a abolição da propriedade privada levaria não à substituição do “caos da produção capitalista” por um sistema racional, como quer Marx, mas, pelo contrário, levaria ao abandono da racionalidade nas decisões econômicas. Sem propriedade privada, não teríamos mercados desenvolvidos, Sem mercados, não existiriam preços de mercado. Sem estes, não é possível comparar a importância daquilo produzido com o seu custo de oportunidade, ou seja, não é possível realizar cálculo econômico. Sem este, as decisões alocativas seriam arbitrárias, o que resulta em desperdício de recursos e em última análise colapso do complexo sistema produtivo atual, cuja produtividade torna possível sustentar a população presente.

 

O nível de riqueza obtido em uma economia de mercado é obtido através da crescente produtividade. Essa produtividade é obtida por meio da progressiva especialização dos fatores produtivos. Essa crescente especialização gera uma complexidade cada vez maior do sistema: a produção de um bem qualquer envolve a cooperação de incontáveis componentes, de crescente número de bens de capital e de inúmeras firmas cujas atividades devem ser coordenadas entre si. Mises percebeu que esse aumento de complexidade é tal que seus detalhes não podem ser percebidos por uma única mente (ou grupo de mentes) de forma consciente. Se as decisões produtivas tivessem que ser conscientes, “não alienadas”, haveria um limite à expansão da complexidade do sistema econômico. O uso do sistema de preços em uma economia livre, para o autor, permite que ocorra uma espécie de “divisão intelectual do trabalho”: cada firma decide o que produzir levando em conta a lucratividade do empreendimento, conhecendo apenas os fatores que afetam o seu mercado específico, sem saber cada detalhe dos incontáveis fatores que afetam os usos alternativos dos recursos nos outros mercados. Isso permite que a complexidade do sistema seja expandida, contornando assim limitação do conhecimento dos agentes [4].

 

Se o socialismo é de fato impossível, o que dizer sobre a União Soviética e outros experimentos do gênero? Os defensores do socialismo, geralmente depois do fracasso desses experimentos, tendem a renegar o status socialista desses países, apelando para termos como “capitalismo de estado” e coisas do gênero. Se levarmos em conta a tese de Mises, de fato devemos concordar com a tese de que não eram socialistas, mas sim regimes mercantilistas ou economias altamente intervencionistas. A abolição do sistema de preço e dos mercados no início do experimento russo, com efeito, teria, segundo a nossa tese, resultado no colapso do sistema econômico e a perda de poder dos bolchevistas. A NEP, ao reintroduzir o sistema de preços local, embora de forma bastante imperfeita, permitiu, com o auxílio dos preços internacionais, que o cálculo econômico fosse realizado. De fato, um economista russo, Boris Brutzkus, observando a realidade de seu país, formulou ao mesmo tempo em que Mises o argumento do cálculo econômico [5]. Para ele, a crise econômica no início do regime não pode ser atribuída à guerra e à ausência de comércio exterior, como reza a interpretação hoje dominante, mas sim à impossibilidade do cálculo econômico. O autor utiliza como exemplo (p. 47) os pesqueiros de Astrakan, que perdem milhões de libras de peixes porque não conseguem obter redes, já que os trabalhadores de Nizhni-Novgorod, que as fabricam, não têm acesso às matérias-primas.

 

Os planos quinquenais, por sua vez, não refletiam planejamento central de fato e, portanto não respondem ao argumento. Tais planos consistiam em metas quantitativas, altamente agregadas, baseadas em produção passada mais um acréscimo pretendido. Não levavam em conta, por exemplo, os custos de oportunidade dos recursos, o que gera problemas como aquele descrito acima por Brutzkus. Como nota Michael Polanyi [6]., seria algo como, baseado na observação de jogos de xadrez passados, alguém dissesse que o plano de jogo consistiria em mover os bispos 30 vezes na diagonal, em média três casas, mover os peões 40 vezes para frente e assim por diante, sem referência às complexidades referentes às posições relativas no tabuleiro.

 

Reconhecida a importância da complexidade do sistema produtivo e da dificuldade em levar em conta todos os elementos necessários para uma decisão alocativa econômica, a tese de Mises, Weber e Brutzkus lança o desafio: como resolver o problema do cálculo no socialismo? Os autores marxistas, como vimos, não reconhecem o problema e se refugiam na dialética para fugir do problema. As propostas concretas de socialismo, que deixam sem resposta o problema do cálculo, são desprezadas como socialismo utópico. Autores neoclássicos, por seu turno, propuseram modelos, conhecidos como “socialismo de mercado”, que buscavam implementar no mundo real o modelo teórico de competição perfeita, em um ambiente no qual firmas estatais tomam decisões levando em conta preços artificiais, gerados seja por um sistema de equações, por um mecanismo centralizado de fixação de preços por tentativas e erros ou preços fixos por monopólios setoriais. Nesses modelos, encontramos até mesmo a existência de bolsas de valores no socialismo. Essas propostas, embora largamente irrelevantes para a solução do nosso problema e em geral rejeitadas politicamente pelos defensores do socialismo, são importantes para o desenvolvimento da teoria econômica e serão analisadas no próximo artigo.

 

Embora não exista resposta adequada ao desafio de Mises, o argumento do autor mudou para sempre os termos do debate em torno do socialismo: não mais é satisfatória a defesa do mesmo apenas na condenação do “capitalismo”: algo precisa ser dito sobre o que fazer depois assumir o poder. A falta de propostas viáveis, como é bem sabido, assombra os políticos de esquerda quando ganham eleições mesmo em economias “capitalistas”.

http://www.ordemlivre.org/2011/02/da-impossibilidade-do-socialismo/

 

 

Que texto vagabundo, o autor sugere que os economistas clássicos não tinham a noção do custo de oportunidade, que horror, esse sujeito nunca ouviu falar nem em David Ricardo. O restante é um monte de baboserias com base na notória falácia da composição, felizmente(para o autor)desconhecida para os frequentadores de institutos Mises e similares.

Todas as principais economias do mundo foram construídas sob forte planejamento e intervenção estatal, sem exceção, a economia russa teve seu maior período de acumulação de capitais justamente em seu período soviético, outro fato.

Um dos principais problemas, principalmente em economias caudatárias, reside na incerteza existente em investimentos de grande monta, principalmente devido à grande complexidade de economias mais desenvolvidas, oriunda de maior divisão do trabalho, o que, historicamente, é resolvida mediante a intervenção direta ou indireta do Estado para garantir maior previsibilidade, indispensável para o planejamento capitalista.

 

"pensadores marxistas"isso atualmente exite em termos sérios.

"Pensadores da escola de Vienna" são realmente pensadores? Ou apenas mistificam?

Mais trololo misesiano .

Agora no local certo!

 

De premissas falsas só podem mesmo derivar conclusoes capengas... 

 

"pensadores marxistas"isso atualmente exite em termos sérios.

"Pensadores da escola de Vienna" são realmente pensadores? Ou apenas mistificam?

Mais trololo misesiano .

 

OOps saiu em lugar errado, e parao o AL!

 

Existem muitos pensadores marxistas sérios, em centros de excelência do pensamento econômico, como o London School of Economics, bem diferente dos ignorados austríacos, incapazes até de produzir artigos para publicações acadêmicas sérias, limitados a seu mundinho patético do Instituto Mises.

Sobre o "desafio" de Mises, ele nunca esclareceu (o que é de praxe no obscurantismo praticado pelos austríacos, famosos por suas enrolações)quando exatamente o cáculo econômico se torna impossível. No famoso exercício microeconômico de Menger, quando sexta-feria se encontra com Crusoé, o cálculo econômico se torna impossível?Se chegar mais um ou dois participantes, o cálculo econômico se torna impossível?Quando exatamente o cáculo econômico se torna impossível?

Questões meramente retóricas, se a patotinha do Instituto Mises nunca foi capaz de responder(ocupava que estava produzindo textos sobre como a macroeconomia é resultado da opção sexual de Keynes, assunto importantíssimo em discussões "econômicas" do Instituto Mises)não é o Aliança que vai responder.

 

"pensadores marxistas sérios" não existem pensadores marxistas sérios o marxismo como pensamento economico não tem valor algum hoje em dia  suas "teses" já foram refutadas diversas vezes durante o século passado.

O que existe é ideologia e retórica.

Quando o calculo econômico se torna impossivel? quando a principal informação da economia "o preço" não é confiavel.

Exatamente o que acontece hoje nos EUA onde a interferência do governo destruiu o sistema de formação de preços  por isso a economia esta estagnada ninguém compra ou vende pq não sabem o "preço correto".


 


 

Aliança, então a London School of Economics, um dos principais centros de pensamento econômico(até Hayek já foi professor lá), não é séria?

Pelos seus comentários percebo que você não é economista, nem conhece a teoria. A economia é uma ciência, sobretudo, quantitativa, fiz uma pergunta bastante simples: a partir de que ponto o cáculo econômico se torna impossível?E você "respondeu" vagamente(a partir do ponto em que não se torna confiável), o que não possui qualquer significado.

Pelo que você diz, a possibilidade de cálculo econômico é negativamente correlacionada ao grau de incerteza acerca da formação de um determinado preço, no entanto, o nível de incerteza está fortemente associado ao grau de complexidade de uma economia, na qual o nível de divisão de trabalho está positivamente correlacionado com os problemas de coordenação, e isso já era argumentado por Adam Smith.

Quer dizer, a economia dos EUA é socialista se comparada com uma pequena comunidade de escambo no interior da Amazônia, que deveria servir de modelo para os socialistas norte-americanos. É isso?

Aliança, um conselho pra você, vai estudar economia de verdade, aprenda a teoria básica, garanto que, após algum tempo, vai perceber por que o Instituto Mises não é nada mais que motivo de piada nos centros acadêmicos sérios.

 

A citação mostra suas fraaquezas já na primeira frase: 

"Sem a propriedade privada dos meios de produção não existem mercados"

Pra não dizer que a idéia não presta, caberia corrigi-la para algo como:

"Sem produção não existem mercados"

Aí sim faz algum sentido.

A produção pode ser organizada de forma privada e de outras tantas formas. Formas que mal exploramos ou que ainda sequer exploramos.

Att




 

Perfeito. Além do mais o mercado não é um elemento essencialmente capitalista. É fato que o capitalismo o desenvolveu e o consolidou. Entretanto o mercado  tem uma origem bem remota. Podemos localizá-la um pouco depois da descoberta (seria invenção?) da agricultura e do estabelecimento das primeiras comunidades permanentes que promoveram as primeiras trocas de excedentes de produção. O seu desenvolvimento de lá para cá foi estrondoso. Mas nada nos garante que ele tenha adquirido forma final e que não possa mais se desenvolver.

 

"capitalismo" é um termo pejorativo inventado pela esquerda, o correto talvez seria livremercadista, economia de empresas.

Definindo o livre mercado

Livre mercado, como já explicado em inúmeros artigos desse texto (em especial neste) é simplesmente um arranjo em que os indivíduos transacionam voluntariamente bens e serviços de modo que todas as partes se beneficiam nessa transação.  Quando você vai a uma casa de carnes, você valoriza a picanha mais do que o dinheiro que paga por ela, ao passo que o dono do restaurante valoriza o seu dinheiro mais do que aquele pedaço de picanha que ele lhe vende.  Desta forma, ambos saem ganhando com essa troca voluntária.  Qualquer troca que seja coerciva - por exemplo, quando você é obrigado de maneira não contratual a pagar por um determinado bem ou serviço - descaracteriza o arranjo econômico como sendo de livre mercado.

Além de trocas voluntárias, livre mercado também significa que a entrada de ofertantes de bens e serviços no mercado é livre - o que aumenta a variedade de fornecedores, bem como a concorrência entre eles.  Qualquer obstrução a essa entrada, seja via barreiras regulatórias, seja via altos impostos, também descaracteriza o arranjo econômico como sendo de livre mercado.  É válido dizer que, nesse caso, a questão mais importante é a ausência total de barreiras legais para se entrar no mercado.  Se este é servido por apenas um ofertante, isso não configura monopólio.  A concorrência existe a partir do momento que o estado não proíbe outras companhias de entrarem no mercado também.

 

Outra característica intrínseca a um livre mercado é a existência de um livre sistema de preços.  São os preços que nos informam sobre a abundância ou escassez de um bem ou de um serviço, e são os preços que coordenam como cada bem e serviço será usado em um dado processo de produção. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=372

 

Se a propriedade dos meios de produção forem estatais, coletivas, do "povo"etc não há formação de preços, e sem isso não se pode fazer o cálculo econômico correto.

Vimos isso a pouco tempo no caso da redução da tarifa elétrica onde o gestor "errou" no preço cobrado.

 

"... gestor errou no preço cobrado..."

Como assim cara pálida?

Toda a parafernália tarifária, que foi montada pelos neoliberais privataristas, teve sua base principal em apenas 2 fatores:

1) Maximizar os ganhos dos beneficiados (não o consumidor, mas os operadores "donatários").

2) Poder impor os preços ao consumidor por monopólio (privado!), já que se eu quiser, por ex. trocar a Eletropaulo ou a Light por outra eu ... fico sem luz!

O resto é blá, blá, blá economês de quem pensa que Economia é uma ciência "exata" e não humana (expectativas, medos, necessidades), obedecendo a critérios políticos (interesses) e sujeita a cada caráter humano que a opera...

No "apagão" fernandiano, mudei-me, sozinho, para uma casa que era um escritório com alto consumo de energia  (luzes, computadores, equipamentos, bebedouros, frigos, ar condicionados, uma dúzia de pessoas, clientes, luminosos, etc.). Meu consumo beirava o mínimo, mas apesar de meus protestos formais, a ditadura democrática fernandiana que atropelou este país decidiu que eu tinha que pagar pela média dos últimos 12 meses. Que te parece? 

Além do mais, quem disse que empresa privada não "erra em preços"?

Erra sim! ... a maioria para mais!... mas há até quem quebre por isso, inclusive bancos proerizados!

Não sou contra qualquer preço, SE houver alternativas reais e honestas de concorrência, sem cartel ou monopólio.

Aí paga quem quer ...

 

"Não sou contra qualquer preço, SE houver alternativas reais e honestas de concorrência, sem cartel ou monopólio."

É tudo que desejo também, só não vai muito atrás do mito do monopólio é uma coisa "ruim"sempre, se ele se forma em uma economia de livre mercado ele na verdade não é um monopólio de fato já que os substitutos fazem concorrência ao monopólio, e sempre seu setor pode ser invadido caso pratique um preço abusivo.


 

Claro que é um monopólio, um monopólio natural, que não oferece seus produtos no preço de equilíbrio em situações de concorrência perfeita(porque opera em concorrência imperfeita), assim como oligopólios, também formados por meio do livre funcionamento do mercado e que também atuam em condições de concorrência imperfeita.

Aliança, o que você faz é aplicar um conhecimento muito precário dos conceitos mais básicos da teoria econômica na realidade, muito mais complexa(assim comoa  teoria é muito mais complexa)do que você imagina.

Se você se empenhar em estudar economia de verdade, garanto que logo ficará corado ao ler seus comentários, vai pedir pro Nassif apagá-los hehehehehehhe

 

E na estrutura oligopólica(predominante no sistema capitalista contemporâneo)o preço é formado como?

 

Vc já deu a resposta, forma se em um sistema fechado sem concorrência direta, digo direta pq ainda  assim temos os "substitutos" como forma concorrêncial. 

 

Sim, e em meu comentário sobre a estrutura oligopolística, está implícita a natureza imperfeita da concorrência.

O capitalismo oligopólico é um processo natural, uma bobagem dizer que, no capitalismo, os preços se formam livremente pela interação de oferta e demanda, essa afirmação se deve apenas à incapacidade teórica austríaca para evoluir dos modelos de concorrência perfeita.

 

Você está se baseando na tradição leninista do marxismo.


O que o marxismo mais atual prega é o não-trabalho/não-valor. O capitalismo possibilita a implantação do comunismo exatamente porque diminui o trabalho necessário a um mínimo. Se nas sociedades desenvovidas de hoje ele fosse implantado, os trabalhadores precisariam trabalhar talvez um ou dois dias por semana para manterem um padrão de vida confortável.


Nesta sociedade, o trabalho seria uma parte tão reduzida de nossas vidas que os bens perderiam o valor. Não se trata de DECRETAR o fim do mercado. Ele não vai deixar de existir. Simplesmente não vai fazer tanto sentido.

 

O marxismo se basea na escola classica de economia e replica os seus erros.

Hoje vc pode trabalhar 2 ou 3 dias se quizer tudo depende da sua produtividade e dos  gastos pessoais que tem.

 

Marx era crítico à economia política clássica. Vide o subtítulo do Capital.


Quanto ao tempo de trabalho, me refiro ao social, não ao individual. Trabalhar menos não é uma opção na nossa sociedade.


Li em uma entrevista antiga do Kurz, complementando o que disse antes: "[Quando o capitalismo atinge seu limite histórico] a massa real absoluta de valor agregado cai e a 'desvalorização do valor' leva à 'des-substancialização do capital'"

 

Ou seja, a China de hoje é o mundo de amanhã?

 

Só não percebe quem tem medo do amanhã.