O dia seguinte começa antes
Do IBAD ao Project 2025, como se prepara o poder antes de conquistá-lo
por Celso P. de Melo
“Plans are worthless, but planning is everything.”
Dwight D. Eisenhower.
Uma mudança de tempo verbal
Dois dias depois do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, Flávio Bolsonaro já falava sobre o que poderia acontecer depois de uma eventual vitória no segundo escrutínio.
O resultado das urnas não lhe dera apenas a dianteira na corrida presidencial: fortalecera também a direita no Congresso, sobretudo no Senado. Era essa segunda vitória que parecia interessá-lo quando, ao lado de aliados em Goiânia, afirmou que a nova correlação parlamentar permitiria “mudar a Constituição” e “redemocratizar este país” [1].
A frase exigia cautela. Constituições democráticas estabelecem os próprios procedimentos de mudança; propor uma emenda não constitui, por si só, ameaça à democracia, nem uma declaração entre os dois turnos equivale a um programa de reorganização do Estado.
Mas havia ali uma mudança de tempo verbal: a campanha ainda não terminara e já aparecia a linguagem do dia seguinte.
Rogério Marinho, coordenador da campanha e líder da oposição no Senado, também passou a defender uma mudança regimental que tornaria automática a abertura de processo de impeachment contra ministros do Supremo quando um pedido reunisse 49 senadores, relacionando-a ao que considerava uma intervenção excessiva do Judiciário e à nova composição da Casa [2].
A questão, portanto, era maior que a eleição. Quando começa um governo? Na posse, na vitória – ou antes, quando pessoas, ideias, diagnósticos, redes e projetos começam a ser preparados para o momento em que o poder estiver disponível?
A pergunta parece contemporânea. Não é.
Fevereiro de 1964
Em fevereiro de 1964, Roberto Campos voltou ao Brasil após sua passagem pela embaixada em Washington.
João Goulart ainda era presidente; o Congresso funcionava sob a Constituição de 1946 e as Reformas de Base estavam no centro de uma disputa cada vez mais áspera. O golpe que derrubaria o governo poucas semanas depois ainda pertencia ao futuro.
Campos procurou o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPES. Ele próprio recordaria, três décadas depois: “Ao regressar, em fevereiro de 1964, busquei contato com o think tank” [3].
Criado em novembro de 1961 por empresários do Rio de Janeiro e de São Paulo, o instituto apresentava-se como organização de estudos e educação cívica, mas tornou-se um centro de oposição ao governo, de propaganda anticomunista e de articulação política. Reunia empresários, técnicos, intelectuais e militares e funcionava também como laboratório de um programa econômico e institucional alternativo às Reformas de Base, com grupos dedicados à reforma agrária, organização bancária, administração pública, tributação, habitação e planejamento [3-5].
Isso não significa que o IPES tenha escrito antecipadamente o programa do regime militar. A ditadura construída depois de abril de 1964 resultou da interação de militares, políticos, empresários, tecnocratas e correntes que nem sempre desejavam as mesmas coisas.
A continuidade, porém, é difícil de ignorar. Depois do golpe, quadros ligados ao IPES chegaram a posições centrais do Estado: Roberto Campos assumiu o Planejamento; Octávio Gouvêa de Bulhões, a Fazenda; Golbery do Couto e Silva criou e dirigiu o Serviço Nacional de Informações; José Garrido Torres, coordenador de trabalhos do instituto, presidiu o BNDE de 1964 a 1967. Outros integrantes e colaboradores ocuparam ministérios, bancos públicos, autarquias e empresas estatais [4-6].
O próprio Campos atribuiria importância aos trabalhos anteriores do IPES para as reformas posteriores, destacando estudos sobre tributação, reforma agrária, sistema bancário e habitação [3]. O próprio Campos atribuiria importância aos trabalhos anteriores do IPES para as reformas posteriores, destacando estudos sobre tributação, reforma agrária, sistema bancário e habitação [3]. O IPES não “escreveu o PAEG” – o Programa de Ação Econômica do Governo, lançado em 1964 pela equipe econômica de Castelo Branco e que orientou reformas estruturais nas áreas fiscal, monetária, financeira e administrativa –, mas ajudou a produzir diagnósticos, propostas e quadros que encontrariam canais de implementação no novo governo [5].
Mais importante do que saber onde nasceu cada medida é perceber que, antes mesmo do novo governo existir, pessoas, diagnósticos e propostas que nele encontrariam espaço já vinham sendo preparados fora do Estado.
O dia seguinte começara antes. Mas, para chegar a ele, era preciso atravessar o dia anterior.
Antes do IPES ocupar o Estado, alguém precisava disputar a política
Voltemos dois anos.
Em 1962, os brasileiros foram às urnas num país atravessado pela Guerra Fria. Três anos depois da Revolução Cubana, Washington acompanhava com inquietação a política brasileira, enquanto João Goulart governava em meio a conflitos sobre reforma agrária, trabalhadores, capital estrangeiro, inflação e política externa.
Foi nesse ambiente que ganhou notoriedade o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o IBAD.
Criado em 1959, tornou-se particularmente ativo nas eleições de 1962. Por intermédio da Ação Democrática Popular, a ADEP, apoiava candidatos de diferentes partidos considerados compatíveis com sua orientação anticomunista. Recursos transformavam-se em propaganda, material impresso, rádio, transporte e serviços publicitários [4].
Não bastava entregar dinheiro a um candidato. Era preciso convertê-lo em capacidade política: o cheque virava cartaz, a mensagem era impressa e distribuída, candidatos viajavam e alcançavam os eleitores. A influência sempre exigiu infraestrutura.
Em 1963, quando a Câmara abriu uma CPI para investigar IBAD e ADEP, a pergunta era direta: de onde vinham os recursos e para onde iam? A investigação percorreu contas bancárias, empresas, publicidade e campanhas em busca da presença de capital estrangeiro na disputa eleitoral [4].
Era possível, ao menos em princípio, seguir o dinheiro.
É aqui que 1962 começa a conversar com 2026.
Capital de risco político
Em setembro de 2026, documentos revelados pela imprensa brasileira trouxeram ao debate outra organização pouco conhecida no país: a Rockbridge Network.
Criada nos Estados Unidos por Chris Buskirk e J.D. Vance antes de este chegar à Vice-Presidência, a Rockbridge reuniu grandes doadores e investidores interessados em construir uma infraestrutura política conservadora para além das campanhas tradicionais.
Documentos de uma tentativa de implantação no Brasil descreviam uma espécie de political venture capital – capital de risco político – voltado a estruturas duradouras: mídia, formação de jovens, universidades, produção de dados e apoio legislativo. As contribuições anuais previstas chegavam a US$ 500 mil ou US$ 1 milhão. A Rockbridge reconheceu a criação de uma pessoa jurídica para o projeto, mas afirma que a iniciativa não prosperou, nunca recebeu recursos e jamais entrou em operação [7].
Um projeto não executado não pode ser tratado como se tivesse produzido os efeitos imaginados. Seus documentos, porém, revelam intenções que iam além de uma eleição. Material divulgado posteriormente descrevia um “Conselho de Tecnologia” capaz de beneficiar tanto a campanha de Flávio Bolsonaro quanto um eventual governo, aproximando-o de empresários e investidores; outro documento propunha produzir “capital político permanente” para além dos ciclos eleitorais [8].
A tentação é perguntar se a Rockbridge seria um novo IBAD.
Provavelmente é a pergunta errada.
IBAD, ADEP, IPES e Rockbridge nasceram em épocas, países e sistemas políticos distintos. Nada autoriza imaginar uma linha contínua entre eles, muito menos afirmar que a Rockbridge reproduza no Brasil o papel do complexo IPES/IBAD.
A comparação interessa quando, em vez de organizações, comparamos funções: financiamento, pesquisa, produção de argumentos, formação de quadros, comunicação, informação, articulação entre empresários e políticos, elaboração legislativa e conversão de recursos econômicos em capacidade política.
A distância histórica continua enorme. O espelho, porém, começa a refletir imagens reconhecíveis.
Antes do algoritmo, a gráfica
A propaganda de 1962 pertencia à comunicação de massa: rádio, jornais, cinema, televisão ainda incipiente, cartazes e panfletos levavam mensagens semelhantes a grandes públicos. Hoje a mensagem pode procurar o eleitor.
Campanhas trabalham com pesquisas contínuas, redes, bancos de dados, testes de mensagens, segmentação e plataformas capazes de distribuir conteúdos de acordo com perfis e comportamentos. A inteligência artificial acrescenta outra camada.
A tecnologia não aboliu o velho problema do financiamento; o tornou menos visível. As regras eleitorais brasileiras limitam suas fontes e exigem identificar a origem dos recursos, inclusive os estimáveis em dinheiro [9]. Mas valor econômico não é apenas transferência bancária: pesquisas, dados, consultorias, comunicação, sistemas tecnológicos e trabalho especializado também custam dinheiro.
Por isso merece atenção um episódio de 2026. Segundo seis pessoas próximas à candidatura ouvidas pela Folha de S.Paulo, dois empresários associados pela reportagem ao ambiente da Rockbridge prestaram apoio ou aconselhamento a Flávio Bolsonaro. Pedro Sang teria elaborado e comentado relatórios de redes sociais e pesquisas, participado de reuniões e frequentado a sede da campanha; Tallis Gomes afirmou ter conversado dezenas de vezes com o candidato e que propostas suas sobre tecnologia entraram no plano de governo. A campanha nega ter recebido verba ou estrutura estrangeira, e os empresários contestam aspectos das relações atribuídas a eles com uma eventual Rockbridge Brasil [8].
É preciso respeitar os limites do que a documentação permite afirmar. Aconselhamento de empresários relacionados a uma rede não demonstra financiamento da campanha pela organização; afinidade não prova coordenação; um relatório entregue ao candidato não estabelece sua origem financeira. Demonstrar eventual financiamento ilícito exigiria identificar o benefício, a origem, o valor, a destinação e as condições de recebimento.
O episódio, contudo, revela a dificuldade investigativa do século XXI. Em 1963, seguir o dinheiro podia levar ao serviço. Em 2026, talvez seja necessário seguir o serviço para descobrir de onde veio o dinheiro.
O governo que existia antes da eleição
Nos Estados Unidos, a passagem entre campanha e governo foi recentemente transformada em um método explícito.
Seu nome era Project 2025.
Coordenada pela Heritage Foundation e reunindo uma coalizão de cem organizações, a iniciativa partia de uma constatação: ganhar a Presidência não garantia a capacidade para transformar rapidamente a administração federal. Era preciso chegar preparado [10].
O projeto organizou-se em quatro pilares: o programa Mandate for Leadership; um banco de pessoas para uma futura administração conservadora; uma academia para treiná-las; e um playbook de transição de 180 dias. O objetivo era reunir conservadores alinhados, selecionados e preparados para trabalhar no “Day One” [11].
A Presidential Administration Academy ensinava futuros nomeados a operar a burocracia enquanto equipes preparavam planos para órgãos específicos antes mesmo de saber quem seria o próximo presidente [12]. O Project 2025 procurava, assim, reduzir a distância entre ganhar o governo e saber utilizá-lo.
Trump distanciou-se publicamente do projeto durante a campanha de 2024. Depois da vitória, porém, figuras associadas a ele chegaram ao governo; Russ Vought, um de seus principais arquitetos, voltou a dirigir o Office of Management and Budget. Em abril de 2026, a PBS, rede pública de televisão dos Estados Unidos, registrou um levantamento segundo o qual 283 de 532 recomendações domésticas catalogadas – 53% – haviam sido iniciadas ou concluídas pela administração. A metodologia pode ser discutida; a continuidade entre parte do pessoal e das propostas do projeto e o governo é mais difícil de negar [13].
O Project 2025 não era clandestino: documentos, objetivos e cursos eram amplamente públicos. Sua importância está justamente em explicitar uma tecnologia política frequentemente menos visível – preparar o exercício do poder antes de saber se ele será conquistado.
É difícil olhar para essa ideia sem retornar ao Brasil de 1964.
Também havia um dia seguinte
Quando Campos procurou o IPES em fevereiro daquele ano, não havia um Mandate for Leadership nem uma academia para milhares de futuros ocupantes da administração pública. A analogia literal fracassa; a funcional é mais resistente.
O IPES reunira especialistas, empresários e formuladores, produzira diagnósticos, discutira reformas e construíra redes entre o mundo empresarial, a política e setores militares. Seu Grupo de Levantamento da Conjuntura, chefiado por Golbery do Couto e Silva, acompanhava acontecimentos, fazia avaliações e mantinha um “banco de informações” que, segundo a documentação reunida pela FGV, serviria depois de 1964 à montagem do arquivo do Serviço Nacional de Informações, criado e dirigido por Golbery [14].
Quase materialmente, uma capacidade construída fora do Estado atravessou a mudança de regime e encontrou nova função dentro dele. O mesmo ocorreu em outras áreas: empresários e técnicos ligados ao IPES chegaram ao governo, propostas anteriormente discutidas encontraram canais de implementação e a presença de ipesianos tornou-se particularmente significativa em órgãos econômicos e empresas estatais, inclusive no BNDE [4-6].
É também aqui que o espelho precisa ser quebrado.
O dia seguinte de 1964 nasceu de uma ruptura constitucional: João Goulart foi derrubado, direitos políticos seriam cassados, eleições presidenciais diretas desapareceriam e o país caminharia para uma ditadura de duas décadas.
O Project 2025, quaisquer que sejam as controvérsias sobre suas propostas, preparava uma administração que chegaria ao governo depois de uma eleição. No Brasil de 2026, defender emendas constitucionais, mudanças regimentais ou reformas do Estado pertence ao funcionamento normal da democracia, enquanto respeitados seus procedimentos e limites.
Comparar funções não significa equiparar regimes. Mas a diferença entre os desfechos não elimina uma pergunta comum: quanto do exercício futuro do poder pode ser preparado antes de a sociedade decidir quem irá exercê-lo?
O “dia seguinte” brasileiro
É essa pergunta que torna mais interessante a conversa iniciada depois do primeiro turno de 2026.
Flávio Bolsonaro passou a relacionar a nova composição do Congresso à possibilidade de mudar a Constituição. O PL elegeu 121 deputados e passará a ter 28 senadores; sozinho, não dispõe dos votos necessários nem para alterar a Constituição nem para afastar ministros do Supremo [1].
Uma PEC exige três quintos dos votos em cada Casa – 308 deputados e 49 senadores –, enquanto o afastamento de um ministro do STF requer dois terços do Senado, 54 dos 81 votos. Depois do primeiro turno, levantamento apontava ao menos 49 futuros senadores favoráveis, em diferentes graus, ao impeachment de ministros do Supremo: número suficiente para aprovar uma PEC no Senado, não para efetivar o afastamento [2, 15].
Rogério Marinho, coordenador da campanha, defendeu então que um requerimento subscrito por 49 senadores provocasse automaticamente a abertura do processo de impeachment, independentemente da decisão do presidente da Casa. A mudança, ainda dependente de aprovação do Senado, não alteraria os 54 votos necessários para afastar o ministro [2].
Mas o “dia seguinte” começava a aparecer também de outra maneira: na antecipação de nomes e políticas para um eventual governo. Eduardo Bolsonaro, apontado como possível chanceler do irmão, passou ele próprio a sugerir essa possibilidade e a antecipar posições que defenderia na política externa, entre elas maior alinhamento estratégico com Washington, transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, adesão ao chamado Escudo das Américas e uma ampla revisão da orientação e dos quadros do Itamaraty [16]. A campanha, porém, afirmou que Eduardo não falava oficialmente pelo candidato, e sua eventual nomeação ainda não estava formalmente definida.
Esse movimento importa menos pelo nome de um possível ministro do que pelo processo que revela. Antes de o eleitor decidir quem governará, começam a ser discutidos não apenas programas, mas também pessoas que poderiam executá-los, instituições que seriam modificadas e prioridades que orientariam um eventual governo. É precisamente essa passagem entre conquistar o poder e preparar-se para exercê-lo que torna o Project 2025 uma referência útil para a comparação.
Isso não significa que exista um Project 2025 brasileiro. Até onde permite afirmar a documentação pública, não conhecemos equivalente ao Mandate for Leadership, um banco sistemático de futuros nomeados, uma academia destinada a prepará-los ou um plano abrangente para os primeiros meses de governo.
Mas algumas peças aparecem. Uma rede conservadora internacional planejou instalar-se no Brasil com documentos sobre mídia, formação de jovens, apoio legislativo, dados e “capital político permanente”; outro material imaginava um Conselho de Tecnologia capaz de servir à campanha e a um eventual governo. Empresários relacionados a esse ambiente mantiveram contato com o candidato e, segundo relatos da imprensa, ofereceram aconselhamento ou serviços. Agora, nomes para um possível ministério e linhas de política pública começam igualmente a ser antecipados. Depois do primeiro turno, dirigentes da candidatura passaram ainda a relacionar a nova correlação parlamentar à possibilidade de mudanças institucionais [1, 7, 8].
Nada disso demonstra a existência de um sistema ou de um comando comum. A Rockbridge afirma que seu projeto brasileiro não entrou em operação; não há evidência pública de que tenha elaborado propostas constitucionais para Flávio Bolsonaro, de que o Project 2025 tenha sido transplantado para o Brasil ou de que o governo norte-americano coordene a preparação institucional de um eventual governo brasileiro.
Há peças. Ainda não demonstramos a existência do sistema.
Preservar essa diferença é condição para investigar seriamente o que está diante de nós..
Quando o Estado entra em cena
Há ainda um circuito diferente, que não deve ser confundido com a Rockbridge nem com qualquer campanha eleitoral: o do próprio Estado norte-americano.
O Human Rights and Democracy Fund (HRDF), administrado pelo Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor do Departamento de Estado, financia desde 1998 programas de promoção de direitos humanos e democracia no exterior. Em documento oficial, o próprio Departamento chegou a defini-lo como seu venture capital for democracy – capital de risco para a democracia [17].
Em 30 de setembro de 2026, a administração Trump destinou cerca de US$ 176,9 milhões do fundo a 43 programas orientados por novas prioridades. Entre eles aparecia uma iniciativa de US$ 1 milhão intitulada Countering Lawfare and Censorship in Brazil, destinada a apoiar organizações da sociedade civil contra aquilo que o programa caracterizava como ativismo judicial excessivo e censura no país. Parte dessas destinações enfrentou objeções no Congresso norte-americano, posteriormente superadas pelo Departamento de Estado [18].
Uma documentação revelada posteriormente acrescentou uma peça importante. Documentos do governo dos Estados Unidos e do Congresso obtidos pelo UOL mencionam, no contexto do programa destinado ao Brasil, o lobby realizado por Eduardo Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas em favor de sanções contra Alexandre de Moraes. Um deles afirma que a iniciativa pretendia dirigir-se ao Supremo Tribunal Federal e à percepção, nos Estados Unidos, de que decisões da Corte atingiam a liberdade de expressão naquele país; em seguida, registra nominalmente a atuação de Eduardo em Washington [19].
A proximidade é relevante, mas seus limites também precisam ser explicitados. Os documentos não demonstram que Eduardo Bolsonaro tenha criado o programa, participado de sua formulação, indicado seus beneficiários ou recebido recursos. Eduardo negou ter recebido qualquer valor. Tampouco são conhecidos publicamente os destinatários finais do US$ 1 milhão; segundo a reportagem, sua identidade permanecia sob sigilo, embora já tivessem sido definidos [19].
Há, contudo, algo novo. Já não se trata apenas de observar, em paralelo, a atuação de um político brasileiro em Washington contra decisões do Supremo e a criação, pelo governo norte-americano, de um programa dirigido ao mesmo campo de conflito institucional. Os dois elementos aparecem agora no mesmo contexto documental. Isso não demonstra causalidade nem coordenação, mas torna insuficiente tratá-los simplesmente como acontecimentos sem relação a ser investigada.
A coincidência temporal com a eleição brasileira já levara a Advocacia-Geral da União a pedir investigação sobre eventuais beneficiários e sobre a utilização dos recursos [20]. A nova documentação torna ainda mais importante esclarecer quem receberia o dinheiro, quais atividades seriam financiadas, quando ocorreriam os desembolsos e se existiu alguma relação entre os beneficiários, atores políticos brasileiros ou outras redes privadas que operavam no mesmo ambiente.
A distinção continua indispensável. A Rockbridge pertence ao circuito privado; o HRDF, ao circuito estatal. O lobby de Eduardo Bolsonaro constitui ainda outro tipo de fluxo: o de um ator político brasileiro procurando influenciar decisões de um governo estrangeiro sobre instituições de seu próprio país. Esses circuitos podem convergir sem serem coordenados.
Convergência não é coordenação; proximidade documental não demonstra causalidade. Mas, quando atores, objetivos e instrumentos começam a aparecer nos mesmos documentos, a possibilidade de conexão deixa de poder ser descartada como simples coincidência e passa a exigir investigação.
É justamente por isso que seguir apenas o dinheiro de campanha já não basta. É preciso acompanhar também programas, serviços, consultorias, dados, redes de relacionamento e infraestruturas através dos quais recursos externos podem transformar-se em capacidade política interna.
De Moscou a Pequim
Em 1962, boa parte do mundo político organizava-se em torno de uma palavra: comunismo. Cuba, sindicatos, reforma agrária, nacionalismo econômico, relações com a União Soviética e mobilização popular eram interpretados em uma narrativa de segurança que conferia dimensão internacional aos conflitos brasileiros. IPES e IBAD pertenciam a esse ambiente da Guerra Fria e do anticomunismo hemisférico [4].
A palavra perdeu sua antiga centralidade. A lógica geopolítica, não.
Hoje, a competição entre os Estados Unidos e a China atravessa semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, portos, energia, infraestrutura digital, cadeias produtivas e minerais críticos. Empresas controlam tecnologias estratégicas, fundos participam de decisões geopolíticas, plataformas adquiriram enorme poder informacional e cadeias de suprimentos tornaram-se instrumentos de segurança nacional.
A geopolítica passou a habitar a infraestrutura.
Uma mina de terras raras pode ser um empreendimento privado e ativo estratégico; um data center, investimento e uma infraestrutura de segurança; uma plataforma digital, empresa, meio de comunicação e instrumento de poder informacional. Crime transnacional, narcotráfico, terrorismo, fronteiras, cibersegurança e cadeias estratégicas também passam a compartilhar a linguagem da segurança hemisférica.
Nada disso demonstra uma operação externa sobre a democracia brasileira, mas altera o ambiente em que redes privadas, governos e atores domésticos se encontram. Nos anos 1960, interesses empresariais, anticomunismo e estratégia norte-americana podiam convergir sem pertencer à mesma cadeia de comando. Hoje, investidores de tecnologia, redes conservadoras, interesses em minerais críticos, preocupações com a China e políticas de segurança também podem convergir sem constituir uma única organização.
A distinção entre convergência e coordenação é decisiva. Sem ela, investigação vira teoria conspiratória; com ela, começa a aparecer o problema real.
A soberania antes da decisão
Estamos acostumados a pensar soberania no momento final: o Congresso vota, o presidente sanciona, o tribunal julga, o eleitor escolhe. Se as decisões permanecem formalmente brasileiras, parece natural concluir que ela está preservada.
Mas toda decisão começa antes.
Começa quando alguém define o problema, pesquisas delimitam alternativas, especialistas transformam preferências em propostas, redes aproximam pessoas, dados revelam quais mensagens funcionam e meios de comunicação ampliam certas ideias.
Antes de uma política chegar ao Congresso, alguém pode ter financiado o estudo que a justificou; antes de um ministro ocupar seu gabinete, alguma organização pode tê-lo identificado e conectado a uma rede; antes de um candidato defender uma solução, especialistas podem ter preparado o diagnóstico que a tornou plausível. Uma infraestrutura intelectual, econômica e tecnológica ajuda, assim, a definir quais alternativas serão consideradas possíveis.
É nesse espaço anterior à decisão que aparece aquilo que poderíamos chamar de soberania de processo.
Isso não significa que uma sociedade soberana deva produzir sozinha todas as ideias que utiliza. Ciência, tecnologia, cultura e economia dependem de intercâmbio; democracias aprendem umas com as outras; empresas investem além das fronteiras; universidades cooperam; movimentos políticos observam experiências estrangeiras.
O problema não é a conexão, mas sua opacidade: quando a cooperação se transforma em dependência ou capacidade de direcionamento; quando a circulação de ideias inclui serviços de valor econômico; quando a infraestrutura pela qual uma sociedade imagina suas alternativas deixa de ser visível para aqueles que escolherão entre elas.
Foi por isso que a CPI do IBAD procurou contas bancárias em 1963: era preciso saber por quais caminhos recursos externos se convertiam em capacidade política interna [4].
Sessenta e três anos depois, a pergunta continua válida. O caminho até a resposta ficou mais longo.
O dia seguinte começa antes
Quando Roberto Campos voltou ao Brasil em fevereiro de 1964 e procurou o IPES, João Goulart ainda era presidente e ninguém conhecia exatamente o regime que surgiria poucas semanas depois, quanto tempo duraria ou em que se transformaria. Empresários que financiavam organizações anticomunistas, técnicos que elaboravam propostas, militares que conspiravam e políticos que imaginavam uma reorganização institucional tampouco controlariam necessariamente o futuro que ajudavam a abrir.
Nós conhecemos esse futuro. É precisamente por isso que 1964 não deve ser usado como profecia para 2026.
O Brasil de hoje tem outra Constituição, outras instituições e uma experiência democrática construída também sobre a memória da ruptura. A Rockbridge não é o IBAD. O Project 2025 não é o IPES. Flávio Bolsonaro não é Castelo Branco. Uma emenda constitucional não é um golpe de Estado. Apagar essas diferenças seria usar a história para rotular o presente, não para compreendê-lo.
O passado pode servir de maneira mais exigente: mostrando como o poder começa a ser preparado antes de ser exercido.
Em 1962, investigar essa preparação significava seguir empresas, contas bancárias, gráficas, publicidade, organizações políticas e rádio. Em 2026, seria preciso seguir também as consultorias, os bancos de dados, os serviços tecnológicos, as plataformas, as redes transnacionais, os programas de formação, os think tanks, os investidores e os projetos capazes de atravessar a fronteira entre campanha e governo.
O cheque não desapareceu; apenas deixou de viajar sozinho. Ao seu redor cresceu uma infraestrutura capaz de transformar dinheiro em ideias, ideias em programas, programas em campanhas e, eventualmente, campanhas em políticas de Estado.
O Project 2025 explicitou essa sequência ao preparar pessoal, políticas e instrumentos para o Day One antes da eleição [11]. O IPES, em circunstâncias inteiramente diferentes, acumulou quadros, estudos, informações e projetos antes que a ruptura de 1964 lhes abrisse as portas do Estado [3, 4].
No Brasil de outubro de 2026, não sabemos se as peças hoje visíveis pertencem a algo comparável. Sabemos que, mal terminara o primeiro turno, a linguagem começou a mudar: da conquista da Presidência para aquilo que uma nova correlação de forças permitiria fazer com o Congresso, o Supremo e a própria Constituição.
Foi por essa mudança de tempo verbal que esta história começou.
Em fevereiro de 1964, Roberto Campos regressou ao Brasil e procurou um think tank onde ideias para um futuro governo já estavam sendo discutidas.
Em outubro de 2026, talvez ainda seja cedo para saber o que será feito no dia seguinte. Não é cedo para descobrir quem já pensa nele, quais ideias prepara, quais quadros aproxima e quais infraestruturas constrói para quando o futuro se tornar presente.
Porque, na política, o futuro raramente começa quando chega.
O dia seguinte começa antes.
Bibliografia
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18. Roth, A. e J. Gedeon, Trump administration diverts human rights funds to push far-right agenda abroad. Washington.
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20. Brasil, M., AGU pede investigação sobre possível financiamento dos EUA a ataques ao Supremo. Folha de S.Paulo, 01/10/2026.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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