Tem gente que precisa trabalhar, por Bruno Reikdal Lima

Segundo a lógica de Guedes, o trabalhador "precisa ir trabalhar" porque é o único jeito de moralmente dar conta de pagar a penitência pelo pecado de ser pobre.

Tem gente que precisa trabalhar, por Bruno Reikdal Lima

A recente “descoberta” por parte de neoliberais e ferrenhos defensores do Mercado total de que o fundamento de qualquer economia é o trabalho humano, trouxe consigo uma faceta nova de sensibilidade e preocupação com a vida de batalhadores e batalhadoras brasileiras: “tem que deixar trabalhar quem precisa trabalhar”. Já na informalidade, com empregos precários ou mesmo qualificados, pressionados pela mão de obra que forma o famoso “exército de reserva” não absorvido pelo Mercado, batalhadores e batalhadoras brasileiras entram no turbilhão de desespero que corta drasticamente a capacidade de consumo da classe média e aumenta o bolsão de pobreza para quem está a um fio de distância da metade da população brasileira que sobrevive com renda média de R$ 413,00 mensais. Nesse quadro, pequenos e médios empresários que compõem o grupo que mais emprega no país, vêm o caixa secando e a impossibilidade de manter as portas abertas. Nesse buraco, o discurso cínico contra quarentena trata de eliminar complexidades e “resolver o problema” liberando os necessitados a voltar ao trabalho.

Sim, tem gente que “precisa trabalhar”. Perceber isso implica (ou deveria implicar) na “descoberta” de que tem gente que não precisa trabalhar. E porque não trabalham? Nisso entra o primeiro passo do cinismo da grande preocupação com a manutenção de empregos e da abertura do comércio. Da mansão de campo ou da praia paradisíaca a elite preocupada com a vida dos trabalhadores e com a economia conclama as autoridades a incentivarem o retorno das atividades comuns na terra do capital. Mesmo sem precisar ir trabalhar, estão solidariamente preocupados com a manutenção da renda de quem os serve. Aliás, esse é um dado importante dado pelo ministro da Economia para aceitar a renda básica de R$ 600,00: auxiliar “gente simples que trabalha todos os dias para nos alimentar, para nos distrair”. Mas porque raio de motivos eles não precisam trabalhar? Enquanto gente batalhadora, com o pequeno negócio ou vendendo sua força de trabalho para qualquer atividade que garanta uma remuneração fixa se desdobra, alguém tem comido e se distraído “muito bem, obrigado”.

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Esse pequeno passo cínico que esconde a origem da desigualdade é uma fissura que pode romper para uma conscientização sobre os processos de exploração. No capítulo 24 d’O Capital, Marx trata da “assim chamada acumulação primitiva”, uma anedota fictícia que cumpre o papel ideológico de exaltar quem se beneficiou de um processo violento de exploração e amansar os filhos e filhas dos explorados. No mito da acumulação primitiva, que para Marx cumpre o mesmo papel que a narrativa do pecado original na teologia (moral e ideológico), alguém muito sábio e competente foi capaz de juntar riquezas e propriedades, enquanto outros não tão sábios e nem competentes perderam a corrida e estão fadados a vender seu próprio corpo para quem merecidamente pode apenas usufruir do bem conquistado. O enriquecimento que tem sua origem em escravidão, expulsão de camponeses de suas terras, guerras civis, genocídio de comunidades inteiras, colonização e uso do aparato militar para manutenção da ordem social são completamente apagados. Uns podem “não precisar trabalhar” porque são melhores, e não porque são herdeiros de violência e super exploração (que mantém em suas atividades cotidianas). Os sabotados por um sistema competitivo violento e excludente que sempre garante o benefício do mais forte precisam se conformar, pegar no batente e “ir trabalhar”, para ver se um dia conseguem o mínimo.

Isso fica bem claro na justificativa do ministro da Economia para a pobreza: “pobre não poupa, consome tudo o que ganha”. Logo, o pobre é culpado de sua pobreza, o trabalhador “precisa ir trabalhar” porque é o único jeito de moralmente dar conta de pagar a penitência pelo pecado de ser pobre. É problema ir para a Disney sendo empregada doméstica porque não está fazendo o que um pobre deveria fazer para se tornar um dia “um rico”, entrando no reino dos céus de quem não precisa trabalhar, que é “poupar”. Em uma situação de crise, já que não se realizou a virtude de “acumular” como miticamente a elite fez para ter o que tem, o pecado será pago pelo trabalhador e pela trabalhadora com a benevolência da permissão para cumprir seu papel social: alimentar e distrair quem pode pagar por seus serviços. Se expõe à morte própria e de sua família? Sim. Mas pelo bem maior e para sua própria salvação, vale mais a pena arriscar. A fome bate à porta, enquanto o filé na mesa de cima está intocado.

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Em última instância, de todo modo, o grupo de pequenos e médios empresários e seus funcionários, assim como informais, desalentados e desempregados, já está acostumado a morrer lentamente sem poder desfrutar da vida, ter tempo para a casa, para a família, para atividades regulares de divertimento e aprendizagem. A questão da não quarentena apenas acelera o processo, com mais uma justificativa ideológica que protege o grupo que não precisa trabalhar. Partilhar da riqueza tomada á força não seria uma possibilidade – claro, é sacrilégio contra o deus Mercado e sua religião moralmente muito bem estruturada. Alterar a preferência do Estado por salvar bancos, isentar rico de impostos e atender negócios que paguem bem cada agente político também seria inviável. Afinal, devolver parte dos impostos sacados da massa de classe média e pobre (enquanto se isenta a elite econômica) quebraria as sagradas leis do merecimento de acumulação e do livre Mercado, que funciona bem sozinho – são as pessoas que atrapalham. A aparente preocupação com quem precisa trabalhar não envolve mudar as relações sociais para que tenham garantias vida, e sim forçar à morte para que potencialmente possam pagar boletos em troca de mais exploração.

É nojenta a postura cínica de não transformar minimamente nossas relações sociais – que seja ao menos em uma pequena rodada de redistribuição de renda no país em que 6 famílias tem a mesma quantidade de riqueza que 100.000.000 de pessoas – para garantir a produção, reprodução e desenvolvimento da vida das nossas comunidades. A preocupação que é violentamente deturpada para pensar crise em um binômio de “vida ou emprego” e não “vida ou morte” não tem lugar em qualquer ambiente de solidariedade, em qualquer realidade em que efetivamente se defendem valores e não cifras. Essa moralidade tosca que elimina a complexidade do sistema de exploração  com sua gênese, história e manutenção por meio das relações de Mercado é assassina, legitimadora de genocídio e, pensando como comunidade humana, do suicídio coletivo. Quem não precisa trabalhar que o faça pelo menos uma vez na vida.

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