A realidade paralela da psy op militar: a bomba semiótica ‘Operação Pícaro’, por Wilson Ferreira

Psy op militar - operar duas facas no pescoço antes das eleições: na de Lula (a ameaça de nova condenação) e na da opinião pública – o fantasma da intervenção militar.

A realidade paralela da psy op militar: a bomba semiótica ‘Operação Pícaro’

por Wilson Ferreira

De “meu malvado favorito” na CPI da Pandemia (ou do Genocídio?), o ex-ministro da Saúde Pazuello agora assume um novo personagem na verdadeira realidade paralela criada pela guerra híbrida militar: o picaresco, o alívio cômico necessário para acompanhar o “herói” (no caso, o “Mito”), no alto do carro de som ao lado de Bolsonaro, em manifestação política no RJ. Uma exigência na atual narrativa desse mundo paralelo: um Sancho Pança para o Dom Quixote “alt right”. Para quê? Para reforçar o plot narrativo da ameaça de um suposto golpe militar “old school”: a desobediência de Pazuello do Regulamento Disciplinar do Exército colocaria a “alta cúpula militar”(entidade abstrata invocada pela mídia) contra Bolsonaro. Psy op militar – operar duas facas no pescoço antes das eleições: na de Lula (a ameaça de nova condenação) e na da opinião pública – o fantasma da intervenção militar. Que já aconteceu e ninguém viu por que foi híbrida. E a “Operação Pícaro” serve para apagar os rastros dessa operação. 

É notável a capacidade da guerra híbrida militar de informações conseguir criar uma verdadeira realidade paralela, para o deleite do respeitável público. Para a grande mídia é uma realidade repleta de drama (ataques à democracia e o fantasma de um golpe militar), thriller (a CPI e a ameaça da prisão de depoentes ao vivo), aventura (as cavalgadas do presidente moto rider que emula Mussolini) chegando até ao mockumentary (as constantes metalinguagens do telejornalismo mostrando os bastidores das coberturas dos acontecimentos políticos).

E para a esquerda e a mídia progressista, o wishful thinking de que a “cúpula militar” estaria com um suposto temor de as Forças Armadas perderem credibilidade e respeito diante dos acenos totalitários de Bolsonaro e general Pazuello – já que o socorro não veio do Exterior (denúncias ao Tribunal de Haia, ONU, OEA etc.), quem sabe se o “nacionalismo” dos militares não salve o dia.

Depois de o presidente performar uma passeata na orla do Rio de Janeiro (alguma coisa entre a paródia de Peter Fonda em Easy Rider e do Motoqueiro Fantasma de Nicolas Cage) acompanhado de uma legião de motoqueiros de luxo (para os quais Harley Davidsons e Ducatis são ostentações fetichistas de poder e potência), a grande mídia ativou o modo Alarme – a extensão simétrica aguardada pela psy op militar: 

(a) Bolsonaro provoca aglomeração e não usa máscara, dando um mau exemplo e colocando seu ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em saia justa;

(b) Bolsonaro coloca no palanque o general Pazuello (sem máscara) para fazer discursos de autoritarismo negacionista, colocando o Exército Brasileiro numa bola dividida: após desobedecer ao Regulamento Disciplinar do Exército que proíbe a participação de militares na ativa em atos políticos, caso Pazuello não seja exemplarmente punido, a Arma estaria expondo a democracia à extrema direita e ao fascismo – coisa que, supostamente, iria contra o “patriotismo” da “cúpula militar”.

Para um pesquisador nas ciências da Comunicação, como esse humilde blogueiro, é interessante perceber a eficiência da bomba semiótica detonada pela psy op militar no Rio de Janeiro, repleta de “coincidências”: começou passando pela avenida Salvador Allende (presidente chileno de esquerda que sofreu golpe militar em 1973) terminando no Monumento dos Pracinhas, no Aterro do Flamengo – de cabo a rabo, alusões militares.

Narrativa e Imaginário

A eficiência de uma bomba semiótica está na sua capacidade de ligar Narrativa e Imaginário – a Narrativa dos governadores imporem o totalitarismo através de medidas restritivas na pandemia, com o Imaginário do “presidente Mito”. A “cola” entre esses dois planos está justamente na narrativa ficcional com todos os recursos de um roteiro cinematográfico ou audiovisual.

Faltava alguma coisa na “Jornada do Herói” de Bolsonaro, uma exigência estrutural em qualquer narrativa ficcional: o alívio cômico, o companheiro de andanças do Herói: o personagem picaresco, o Pícaro – figura com origem nas obras da literatura espanhola dos séculos XVI-XVII; tipo de personagem descarada, astuta, ridícula e bufona. Em geral, personagem ligada ao herói, trazendo um alívio cômico após uma situação tensa. Comum em contos tradicionais e constante nas animações infanto-juvenis.

E nada melhor do que o general Pazuello. Para começar ele tem o physique du rôle para desempenhar o papel: baixinho, cara e corpo redondos, um jeito bonachão, o Sancho Pança perfeito para o Dom Quixote alt right. Não é por menos que, no alto do carro de som diante da militância motorizada, Bolsonaro exalta que ele é “esse é o gordo do bem. É o gordo paraquedista…”. Enquanto o general escancara a risada passando as mãos na barriga… nem Chacrinha!…

É conhecida forma como o discurso nazifascista mobilizou o riso e o humor (para começar, como Hitler e Mussolini emulavam o humor físico do cinema mudo slapstick) para ajudar as ideias totalitárias a romper a harmonia europeia – riso sardônico como desprezo a princípios éticos, morais, institucionais e civilizatórios – sobre isso clique aqui.

Enquanto o sebastianismo do mito Lula não necessita da narrativa picaresca por ser messiânica, ao contrário, o mito fascista necessita do alívio cômico sardônico – afinal, é necessária uma válvula de escape para tanta adrenalina do culto fetichista da força e poder. Além de mobilizar o ressentimento dos fracos: Bolsonaro é o capitão que leva as baixas patentes à forra contra um general três estrelas representando como um personagem ridículo. É a própria essência do riso sardônico: ridicularizar o mais “fraco”.

Essa é uma realidade paralela ficcional, uma operação psicológica militar com objetivos bem definidos numa guerra de informação criptografada.

A primeira pista é dada pelo professor de Antropologia da UFScar Piero Leirner em seu perfil no Facebook. Para ele, uma estratégia para apagar o processo para ressaltar apenas o resultado. Isso é apagamento de digital. De quem?

De quem fez o erro DESDE ANTES: seus comandantes. Pazuello tem essa função, uma vez que deu tudo errado: canalizar para si a energia e direcionar a descarga para o para-raios, seu suposto chefe, Bolsonaro. Mas quem elaborou Bolsonaro Presidente? Quem elaborou Pazuello para Bolsonaro Um grupo de Generais. Quando? A partir de 2014, até o presente. É isso que vão apagar. Com a suposta “punição a Pazuello”, fica a ideia de que o EB “voltou para  a caixinha”. E assim se dá um “processo de purificação” no laboratório da guerra híbrida brasileira, deletando as reais condições do processo de produção e jogando pro mercado a ideia de que a instituição está funcionando. 

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