Será que o Departamento de Estado dos EUA assistiu ao filme ‘Cronicamente Inviável’?, por Wilson Ferreira

O filme monta um quadro tão perfeito do mal-estar do povo e da má-consciência das elites que poderia ser a fonte de dados perfeita para a estratégia que acionou o gatilho da cismogênese que envenenou o psiquismo brasileiro, sustentando o golpe militar híbrido.

Será que o Departamento de Estado dos EUA assistiu ao filme ‘Cronicamente Inviável’?

por Wilson Ferreira

Ao revisitarmos o filme do cineasta Sérgio Bianchi, “Cronicamente Inviável” (2000), a primeira sensação que temos é de que, mais de vinte anos depois, nada mudou ou regrediu no País: estão lá as mazelas sociais e econômicas atuais – um abismo social marcado pela humilhação, intimidação, violência policial, preconceito etc. Mas há algo mais, assustador! O filme é tão metódico e didático em mapear as feridas psíquicas nacionais derivadas do militarismo e escravidão (não é um filme sobre luta de classes, mas sobre ressentimento e desespero) que se tornou objeto de inúmeros textos acadêmicos especializados nos EUA. Será que “Cronicamente Inviável” fez parte dos documentos primários dos “brasilianistas” do Departamento de Estado norte-americano que operou a “revolução colorida” da guerra híbrida brasileira? O filme monta um quadro tão perfeito do mal-estar do povo e da má-consciência das elites que poderia ser a fonte de dados perfeita para a estratégia que acionou o gatilho da cismogênese que envenenou o psiquismo brasileiro, sustentando o golpe militar híbrido. 

Glauber Rocha reivindicava a urgência de um “cinema da violência” que se opusesse aos “efeitos technicolors hollywoodianos”. Com o estilo vanguardista do Cinema Novo, Rocha afirmava que a “trágica originalidade” do Cinema Novo era fazer uma “estética da fome” – “filmes tristes, feios, gritos de desespero contra a fome que jamais será curada por governos de reformas moderadas”.

Trinta e cinco anos depois, nada mudou no Brasil. Isso é mostrado no filme de Sergio Bianchi Cronicamente Inviável (2000) que, assim como Glauber Rocha na década de 1960, pretende tornar a fome, miséria e a profunda desigualdade econômica tão palpável na tela que o espectador simplesmente não consiga ignorar.

Pensado para ofender, interrogar e chocar, cada simples quadro de Cronicamente Inviável quer desvelar as sucessivas camadas da hipocrisia social, religiosa e sexual através da qual a elite mantém a supremacia política.

Mas parece que, enquanto Glauber Rocha pretendia mostrar a “estética da fome”, Bianchi quer ir além desse viés econômico e político: o diretor paranaense pretende mergulhar fundo nas bases psíquicas da hipocrisia nacional: como o rancor, ódio e, principalmente, ressentimento, são os combustíveis psíquicos que mantém uma ordem social não só desigual, mas cruel. 

Um bom exemplo é a sequência em que Bianchi descreve como a empregada doméstica negra, humilhada pelos patrões, desfila depois orgulhosa no sambódromo enquanto, nos camarotes, estão os mesmos patrões que a observam como fosse um animal que se aperta por um estreito corredor indo para o abate. 

Glauber reivindicava uma estética da violência. Mas Bianchi propõe outra coisa bem diferente: a estética do terrorismo. Em cada sequência do filme, vemos vir à tona as feridas psíquicas nas quais se funda a sociabilidade brasileira: o preconceito contra os “baianos”, a intolerância contra empregados “preguiçosos”, o patrão que “enraba” um funcionário bêbado, a onipresença da meganhagem policial que espanca e humilha, o racismo escamoteado pelo mercado que transforma a miséria em produto turístico para gringos, a militância de classe média que confunde filantropia com transformação social.

Cronicamente Inviável é um sistemático mapeamento das nossas feridas psíquicas, didaticamente dividido em esquetes cujas sequências filtra o psiquismo coletivo através da ironia cruel do diretor.

Assistir ao filme vinte um ano depois, em primeiro lugar nos traz uma sensação óbvia de eterno retorno: de Glauber Rocha a Sergio Bianchi, a realidade sócio-econômica brasileira continua a mesma. O que muda é a estética fílmica do desespero: da estética da fome do Cinema Novo ao terrorismo explícito de final de século.

Mas também Cronicamente Inviável remete a um estranho sincronismo com eventos que explodiriam no País treze anos depois do lançamento do filme: as “Jornadas de Junho” de 2013 e a escalada da guerra híbrida brasileira cujo combustível foram as duas feridas psíquicas nacionais que são a fontes de todos os cruéis esquetes do filme de Bianchi: o militarismo e a escravidão. 

Cronicamente Inviável é tão inovador na forma como didaticamente expõe as verdadeiras veias abertas do psiquismo coletivo de uma nação que chamou a atenção dos scholars norte-americanos. É marcante a profusão de textos acadêmicos naquele país sobre essa produção brasileira. Basta dar um “Google Acadêmico”.

Olhando em perspectiva as estratégias de guerra híbrida no Brasil e seu modus operandi (a criação de cismogêneses), vem à cabeça uma questão conspiratória: será que os “bazilianistas” do Departamento de Estado dos EUA usaram também o filme de Bianchi como documento primário para as pesquisas antropológicas, sociológicas e psicológicas para entender a dinâmica de funcionamento do país-alvo? Pesquisas nas quais se fundou a cismogênese que pariu as grandes manifestações, o golpe e, em seguida, a ocupação do Estado pela extrema-direita militarizada.

O Filme

Cronicamente Inviável é um híbrido de narrativa ficcional e documental, porém sem ser um mockumentary. Afinal, trata-se de um painel caótico da realidade brasileira de final de século.

O filme gira em torno de dois plots principais: o das elites, em torno de um restaurante de luxo na cidade de São Paulo, e um escritor e sociólogo nômade chamado Alfredo (Umberto Magnani): ele vai da Bahia ao Sul, região amazônica, testemunha os incêndios e desmatamento em Rondônia para terminar em São Paulo com um grande fechamento irônico que dá todo o sentido ao título do filme.

Ele sai em suas viagens de gravador em punho gravando seus próprios comentários e teses sobre a realidade que testemunha. Alfredo parece ser o próprio alterego de Sérgio Bianchi, cravando uma série de diagnósticos sobre como o trabalho se torna escravidão, os mecanismos perversos que mantem os dominados alienados e resignados: a empregada que tem os seus minutos de glória no sambódromo enquanto os patrões se divertem nos camarotes; testemunha a violência policial um indígena numa praia da Bahia; vê crianças miseráveis tornando-se produto turístico nas praias do Rio em eventos afro-musicais para gringos etc.

Enquanto no núcleo do restaurante luxuoso de São Paulo encontramos o seu proprietário Luís (Cecil Thiré), um empresário escroto com seus empregados e que vive apenas o presente pelo presente – niilista, não vê futuro numa sociedade em que deve explorar ao máximo ante que tudo desmorone. Traficar, subornar, contrabandear, intimidar e humilhar são apenas alguns de seus verbos habitualmente praticados.

Senta-se à mesa para travar conversas com um típico casal de classe média com fantasias escapistas: Maria Alice (Beth Gofman) e Carlos (Daniel Dantas), prototípicos personagens de uma classe média cuja visão de mundo é a do “trambique” – única forma de viver num país onde os “impostos são tão altos e asfixiantes” que nos condenariam a viver sempre à margem da lei.  

O polo de tensão é representado pelo personagem Adam (Dan Stulbach), o garçom de origem polonesa (se negros foram os escravos na maior parte do país, no Sul os imigrantes europeus optaram pelos poloneses como mão de obra barata), e com tendências anarco-terroristas. Denuncia o tempo todo a escrotidão dos patrões: “Todo sacana deve saber que, mais cedo ou mais tarde, será alvo do terror”, grita a certa altura, antes de ser arrastado por policiais para um camburão.

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