A arte encurralada, por Gustavo Conde

E a homenagem à Elizabeth Bishop pela Flip atualiza a eterna discussão sobre o que o artista produz e o que o artista fala.

A arte encurralada

por Gustavo Conde

E a homenagem à Elizabeth Bishop pela Flip atualiza a eterna discussão sobre o que o artista produz e o que o artista fala. Só de recolocar esse tema a Flip já está de parabéns.

O tema é quente porque o Brasil experimenta a aniquilação da arte por parte de um governo de extrema direita e assiste a cumplicidade de muitos artistas com essa aniquilação.

Há uma dificuldade muito grande em aceitar que os sujeitos são múltiplos e heterogêneos. E outra dificuldade talvez ainda maior em pelo menos considerar a hipótese de que a arte possa ser maior que o artista.

Arte e ética não andam de mãos dadas, pelo contrário: é justamente essa disjunção que permite à arte o grau máximo de liberdade criativa.

Arte e ética se entrelaçam não no artista, mas na explosão de sentidos que a experiência estética estabelece enquanto ‘fuga’ para nosso universo de convenções.

Em um certo sentido, a arte não pertence ao artista. Ele é ‘apenas’ um ‘materializador’ do ‘excedente’ simbólico que escapa ao discurso social (político).

É por isso que a relação entre arte e política se dá em outro plano que não esse plano simplista dos engajamentos.

O gesto em si da arte é um gesto potencializador de interlocução (e, portanto, de democracia, se se quiser simplificar a questão).

Um artista “de direita”, nesse sentido, seria um oximoro, um paradoxo, uma impossibilidade. Se é artista, não se pode ser um assassino, basicamente (a miserável condição semântica a que foi relegada a direita).

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Tudo isso é conceitual, é bem verdade. Mas estamos vendo a constatação empírica desta tese nesse imenso laboratório chamado Brasil, neste exato momento: a impossibilidade de a arte conviver com o fascismo. São polos opostos na experiência cognitiva e subjetiva e isto está sendo observado na prática.

Esta constatação não impede que haja artistas que se autoidentifiquem – na sua intimidade e/ou sua relação institucional com o universo simbólico das convenções – como extrema direita. Aliás, é uma autoidentificação que perturba a própria compreensão da arte e que, portanto, cumpre o papel de desestabilizar as significações – o que poderia ser outra experiência estética, não fosse edificada nas hostes do racionalismo banal.

Esse é o ponto: a arte enseja a liberdade, mas no interior de seu universo discursivo: a manifestação estética (e não no proselitismo barato da persuasão egocêntrica).

Isso vale para a própria esquerda: aparelhar a arte é uma violência – e neste momento específico um monumental erro estratégico.

Quando vejo um artista “falando”, eu tomo muitos cuidados. Em quase 100% dos casos, sua fala ‘pessoal’ não coincide com sua produção estética. São dois mundos completamente diferentes.

Na maioria dos casos, igualmente, o artista ‘entende’ muito pouco de sua própria arte – não é ofício do artista entender a si mesmo. A arte não é um amontoado de intencionalidades, é o exato oposto disso.

A dialética estética, neste sentido, atende pelos mesmos pressupostos: a experiência estética não é compreender de maneira racional um poema. É senti-lo.

Eis a nossa angústia de sempre, potencializada nesse Brasil do nunca: não estamos ‘sentindo’ mais, nem a arte nem as pessoas nem o momento. Queremos tudo explicado, mastigadinho, debruçado na máquina de moer carne pedagógica de comentaristas político-culturais – sic.

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É daí que vem o fenômeno impressionante da ‘literalização’ no que restou de debate público em nossa sociedade neste momento. Há uma demanda pela codificação quase matemática dos enunciados. As bipolaridades reacenderam: certo/errado, bem/mal, céu/inferno.

A discussão sobre fake news (o que é mentira, o que é verdade?) nos remete à mais insidiosa infantilização do discurso. As metáforas vão perdendo sua força estrutural de abastecer a linguagem com a ‘reposição’ dos sentidos e a arte da leitura se torna rarefeita, defensiva e automática.

A arte encurralada é um animal selvagem: ela independe das volições de turno e da pretensa hegemonia do humano como princípio irradiador de sentido.

Enquanto nosso simplismo institucionalizado insistir em se preocupar mais com os artistas do que com a arte, o tempo do fascismo se estica, se espreguiça e agradece.

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