A institucionalidade que recria o mundo como se fosse ‘o mundo’, por Luis Felipe Miguel

Ilustração – fragmento – Tiago Carvalho

A institucionalidade que recria o mundo como se fosse ‘o mundo’

por Luis Felipe Miguel

A institucionalidade é uma prisão mental.

Ela produz *um* mundo e nos impele a tratá-lo como se fosse *o* mundo.

Daí tantos bacharéis em Direito que acham que, já que conhecem a lei, conhecem o mundo. E daí tanta gente boa que acha que a luta política é equivalente à luta por votos e por cargos.

Tenho repetido que não vamos conseguir reverter o golpe e avançar na construção de um país menos injusto e menos violento se não recuperarmos a capacidade de pressão do movimento popular. O que mais ouço, como resposta, é:

– Mas com esse Congresso não dá! O fundamental é eleger deputados mais progressistas!

Eleger um Congresso de esquerda é bacana (embora muito improvável). Mas a composição do parlamento não é o único dado, nem o mais importante. O fato é que o capital nunca deixa de fazer sua pressão extra-institucional sobre o poder político. Numa sociedade capitalista, esta pressão está na “natureza das coisas”, por assim dizer. E, quando necessário, as corporações não deixam de mobilizar expressamente seus recursos, em público ou nos bastidores.

Se nós, do lado de cá, julgarmos que tudo se limita a fazer campanha e a delegar a decisão a fulano ou beltrano, é claro que o jogo já está perdido desde o começo.

Aliás, a metáfora do jogo também contribui para isso. O foco na eleição permite que a gente veja a política como um campeonato. Em outubro saberemos quem leva o troféu. Aos perdedores resta repensar a tática e renovar o plantel, à espera do novo torneio. Mas a política não é isso (felizmente, eu diria).

Leia também:  Vai-se a Ford, vai-se o fordismo, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

O nosso fechamento mental nessa institucionalidade é um efeito ideológico proposital da domesticação do conflito pela competição eleitoral – que foi uma conquista histórica dos dominados, mas é também uma forma muitíssimo limitada de democracia, com fortes vieses que beneficiam a expressão dos interesses dos grupos mais poderosos e a reprodução das relações de dominação existentes. Precisamos lutar contra ele, para melhorar nossas condições de lutar pela transformação do mundo.

Luis Felipe Miguel – Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).

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2 comentários

  1. O último parágrafo do artigo me fez lembrar do Malatesta
    “O sufrágio universal não é um instrumento de emancipação social, mas um meio de submissão ao Capital “. – Errico Malatesta

  2. Tá faltando criatividade, no campo de futebol e à esquerda

    Novamente, o pensamento binário que limita as chances de a esquerda em suas muitas vertentes tomar o poder e transformar o mundo. 

    Para quem conhece futebol, o antigo, misto de jogo e arte, sabe que não se reduz a ganhar campeonato – se assim fosse, não haveria times de várzea, disputas de amistosos, jogos de final de semana, “peladas” de rua e campo, molecadas de todos os gêneros nas ruas “onde houver dois e uma esfera, lá Eu estarei” – disse Deus ao criar o futebol, ou mesmo, um único indivíduo e uma bolinha de qualquer material, botões ou tampinhas não são discriminados por sua forma; o espírito do jogo é indefinível e irredutível a formas fixas, cujo uso como metáfora busca exatamente essa simbologia múltipla e criativa e não a disputa binária insossa capturada pelo capitalismo e pela indústria do entretenimento. 

    Assim como na política, a dicotomia real entre poder representativo em instituições oficiais e representação popular em movimentos sociais organizados tem derrotado a esquerda, que ora se concentra em um, ora em outro, como se eles fossem de fato alternativos e não complementares. Os governos progressistas falharam quando aceitaram a dicotomia e reduziram a participação das instâncias populares mobilizadas. Os movimentos organizados à esquerda erraram quando identificaram a Política com a Burocracia e deixaram de disputar os espaços de representação, ocupados por bancadas conservadoras. 

    No livro “Os irredutíveis – teoremas da resistência para o tempo presente”, Daniel Bensaid procede à crítica desta idéia adotada por parte de alguns movimentos sociais, de que não era necessário disputar os poderes institucionais para fazer a revolução, como apregoado no livro, mencionado por ele, “Mudar o mundo sem tomar o poder”, de John Holloway; segundo Bensaid, o próprio movimento zapatista do México, autor da frase-conceito, já estaria fazendo sua revisão crítica da opção política. 

    Eu, pessoalmente, acho que estabelecer essa escolha quando a situação não a impõe estrategicamente, é como andar mancando, ou seja, se abre mão de práticas que são antes complementares, não necessariamente alternativas, e que assim se tornam quando uma das frentes de ação política está desgastada ou subdesenvolvida, muitas vezes pelo “narcisismo das pequenas diferenças” que faz a esquerda uma versão Peter Pan rebelde ou uma senhora ranzinza que faz menos pelo mundo do que poderia, e deveria. 

    Enquanto a esquerda e suas veredas pensarem pequeno e estreito, falsos dilemas serão a miragem da qual a direita vai se aproveitar para tomar o Legislativo, o Executivo, o Judiciário, as instituições públicas em geral e o coletivo inconsciente. 

    Saiamos do divã de vez em quando e olhemos para o mundo que está em ebulição, para o qual a esquerda tem falhado em oferecer projetos mais comunitários e menos paroquiais. 

    Ah, quem sabe voltar a jogar futebol com bolinha de meia possa ajudar. Imaginação criativa, ocupar espaço onde ele existe mas só craques sabem enxergar e explorar com talento, a serviço da beleza do jogo da vida. Ou seremos condenados a assistir, pagando ingressos caros, aos pernas-de-pau de jogos de confraternização corporativos. 

     

    Bola de meia, bola de gude – Milton Nascimento (voz) 

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=G9RS2BkbqHw%5D

    https://www.youtube.com/watch?v=G9RS2BkbqHw

     

    Sampa/SP, 04/06/2018 – 16:39 (alterado às 16:48, 16:52 e 16:58)

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