A morte de Qasem Suleimani: um sacrifício aos Deuses Americanos da Guerra, por Daniel Barreiros

A obsessão com o Irã é certamente algo que une Trump aos seus adversários mais ferrenhos, sendo aquilo que os separa a estratégia para lidar com o “Grande Jogo” no século XXI.

(Photo by STR/AFP via Getty Images)

Enviado por Ronaldo Bicalho

A morte de Qasem Suleimani: um sacrifício aos Deuses Americanos da Guerra

por Daniel Barreiros (*)

Não é tarefa difícil detestar Donald Trump porque, entre outras coisas, ele próprio nos ajuda na empreitada, com dedicação quase monacal. Claro, há de se padecer de algum apego pela civilização para que se sinta enjoo e náusea de Mr. Trump, e não me passa em branco o fato de que conheço muita gente, lá e cá, bastante confortável com tiradas facistóides.

Deve ser a mudança climática a transformar ecossistemas, e prover aptidão evolutiva a espécies parasitas. E nem falarei do Messias; não vale uma missa. O fato é que o assassinato de Qasem Suleimani, figura controversa na geopolítica mundial, me trouxe ao fim de um périplo reflexivo, que derivou das circunstâncias de uma jornada inusitada pelos Estados Unidos, em meados do ano passado.

Peregrinei por universidades e think tanks da Nova Inglaterra e do Texas em busca de respostas para algumas perguntas que eu, então, acreditava sofisticadas. Ficaram todas para trás diante de uma inquietação estatística, que me surgiu em campo: a frequência de opiniões nitidamente contrárias ao Tariff Man era completamente contraintuitiva.

Dos analistas mais reacionários aos adeptos de uma esquerda yankee cirandeira democrato-independente, todos, sem exceção, tinham algo a dizer contra Mr. Trump. Coisas diferentes e em doses variadas, é certo. E por seis semanas vaguei na expectativa de captar alguma frequência que me levasse ao “America First”, e simplesmente não havia informação disponível naquela banda. Matutando, ainda ao norte do Equador, logo me dei conta de que eu não havia feito uma descoberta estatística: minha amostragem é que estava totalmente enviesada. Vou dizer-lhes a razão disso, e com um pouco mais de paciência do leitor, chegaremos ao general Suleimani, ao assunto que lhes prometi.

Estive nos Estados Unidos em missão acadêmica sob os auspícios do Departamento de Estado norte-americano, com o objetivo de debater assuntos de defesa e política externa com acadêmicos, políticos e analistas locais. De pacatos professores interioranos a pavoneantes senadores (vermelhos ou azuis, não importando a cor), o elenco formado pelos meus contatos foi escolhido pelas instituições acadêmicas envolvidas no programa, mas, naturalmente, chancelado pelo DoS.

E não havia entre eles sequer um declarado apoiador de Mr. T. Se vez por outra se ouvia um “my president” aqui e acolá, a demonstração de afeto político logo se desmilinguia diante de muitos poréns. Confesso meu desconforto de ter chegado à Pensilvânia, no dia um da minha missão, e imaginado que seria submetido a um eletrochoque trumpista por mês e meio; muita meditação antecedeu esse momento, preparando o espírito para a propaganda. Mas o que se seguiu contrariou minhas expectativas, porque, ao que me parece, eu estava ali testemunhando os reflexos mais epidérmicos da rebelião do deep state. Essa impressão me veio como hipótese, e dificilmente deixará de sê-lo, mas o fato é que aquele drone assassino sobre o Iraque me fez dobrar a aposta. Havia propaganda, sem dúvida, mas a mensagem era outra.

Realizar a síntese de mais de trinta dias de debates foi tarefa hercúlea, mas havia ali um fio narrativo, um centro de gravidade que me permitiu, uma vez desbridado o tecido morto e supérfluo, chegar ao núcleo da questão.

Donald Trump foi pintado, entre cores quentes e pastéis, como uma ameaça em potencial ao império norte-americano. O estilo de governar “para mudar o que está aí”, e que gerou uma cópia ctoniana aqui em nossas paragens, aparecia nas falas de meus interlocutores como um risco sério para a permanência do projeto de poder global dos Estados Unidos, para uma continuidade suprapartidária do modus operandi norte-americano de atuação na geopolítica mundial.

A estratégia trumpista no front interno soava nítida: tratava-se, primeiramente, de formar uma “organização paralela” tendo como pilar central o núcleo familiar do presidente somado a apoiadores mais devotos (gente do naipe de Pompeo, Esper, etc.), alocando-os em posições políticas estratégicas. Depois disso, seguindo um critério lógico, tratava-se de recrutar para a “organização paralela” atores de menor status ou desprestigiados em seus próprios círculos políticos, e que passavam a atuar como “elementos infiltrados”; o “pacto com o diabo” garantia-lhes status ascendente, permitindo que, entre outras coisas, esses agentes fizessem avanços em suas agendas pessoais de poder, criando então uma estrutura tentacular do trumpismo em várias instâncias do establishment.

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Os paralelos com o bolsonarismo são óbvios, mas contornarei o assunto. No caso norte-americano, a estupefação vem do fato de que tal estratégia permitira, até aqui, um “inaceitável” grau de autonomia do presidente no que diz respeito a princípios antediluvianos da estratégia imperial dos EUA, que remontam aos pais fundadores, e que transcendem os partidos. Nesse esteio, aos meus contatos, causava perplexidade as “inaceitáveis” concessões feitas por Trump aos adversários jurados dos Estados Unidos na Ásia desde o início de seu mandato, e reforçava-se a hipótese da “conexão Moscou”, da interferência russa no processo eleitoral e na política norte-americana como um todo.

“Make America Great Again” é um slogan que simboliza, para os analistas sobressaltados com os riscos ao império, uma cortina de fumaça eleitoreira, que sob a pirotecnia de truques mercantilistas e do pleno emprego, esconde do público o redesenho dos vetores de força geopolíticos no Oriente Médio.

Nele, a administração Trump buscaria renunciar aos custos materiais do controle social e político decorrentes das invasões do Afeganistão e do Iraque desde 2001-2003, protestando apenas moderadamente contra os avanços russos e chineses (especialmente na Síria), desde que Moscou e Pequim colaborassem intensamente para o sucesso da meta de prioridade máxima para os Estados Unidos: a contenção do poder iraniano em sua expansão progressiva em direção ao Levante. Isso porque a derrocada de Saddam Hussein e o avanço do Hezbollah na Síria criaram uma caixa de ressonância para o xiitismo, do Planalto Iraniano ao Mediterrâneo oriental, vibrando intensamente sobre quantidades abismais de reservas petrolíferas.

A obsessão com o Irã é certamente algo que une Trump aos seus adversários mais ferrenhos, sendo aquilo que os separa a estratégia para lidar com o “Grande Jogo” no século XXI. Se para falcões vermelhos e azuis há de se demonstrar aos russos e chineses quem manda, colocar freios à tal Nova Rota da Seda, e reduzir Teerã à sua insignificância antes que a segurança energética dos Estados Unidos seja comprometida, a imaginação de Trump et caterva os conduziu a uma abordagem “empresarial” de lidar com cada peão separadamente. E nessa dinâmica, inimigo de meu inimigo é meu amigo, o que significa que vale convidar o Talibã para uma conversa em Camp David antes que sua aproximação com Teerã possa resultar em algo sólido, e que talvez essa ideia do Califado possa vir a calhar desde que seja fraca o suficiente para não se concretizar, mas forte o suficiente para ser uma pedra no sapato dos aiatolás.

E assim seguia o baile: i) com chineses e russos desafiando descaradamente a marinha norte-americana no Pacífico; ii) com John Bolton se decepcionando diante da negativa do chefe em partir para o confronto militar com a Venezuela e fazer valer o Corolário Roosevelt (Venezuela, território sob a proteção declarada da Rússia e da China); iii) com os turcos – membros da OTAN – adquirindo sistemas de mísseis russos (o temido S-400); iv) com drones iranianos nas mãos de forças irregulares iemenitas atacando a maior refinaria de petróleo do mundo (de propriedade dos aliados sauditas); v) com o próprio Irã tirando dos ares um RQ-4 Global Hawk norte-americano em mais uma de suas – até então – impunes missões de espionagem; vi) e com os curdos deixados à própria sorte, para não provocar reações destemperadas de outro populista de direita, o senhor Erdogan. Sobra espaço nesse arranjo até para provocações do camarada Putin, que sugere ao colega americano que desista de buscar armas hipersônicas, e que venha comprá-las em Moscou.

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Aos defensores do império toda essa negligência benigna poderia significar que a estratégia política de Trump consiste em reforçar suas posições internas (America First) escorando-se, no front externo, em um suporte tácito dado por regimes que flertam com a direita populista (o que inclui a Rússia, Israel e mesmo a Turquia neo-otomanista), tendo como preço não bulir em demasia com suas agendas de projeção de poder regionais. A exigência: que todos colaborem para conter o Irã, mantendo as mãos americanas limpas e os cofres fechados, após os quase seis trilhões de dólares gastos com as guerras na Ásia desde 2001. Poder e dinheiro são irmãos siameses, bem sabemos, e isso não poderia dar certo aos olhos da liga imperialista. E voltei para o Rio de Janeiro em agosto com a impressão de que alguma coisa bem séria se arquitetava nos bastidores.

As coisas vieram a galope; em setembro, John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional, o senhor da guerra de Trump, foi demitido. Bolton, conservador, falcão empedernido, nacionalista violento, adepto das mudanças de regime e de ataques preemptivos, figura fácil nos recônditos da política imperial desde os tempos de Reagan, estava longe de se enquadrar no perfil das hostes trumpistas. Bolton era o outro lado da moeda, era o império contra-atacando, era o sistema se convidando, como penetra, a se juntar à ceia da famiglia. Cumpriu seu papel, disse Donny, mas foi longe demais quando tentou jogar água na fervura e sabotar os obscuros planos de negociação com o Talibã. Bolton, como o escorpião, agiu de acordo com sua própria natureza, e morreu afogado.

Essa notícia pegou de sobressalto muita gente, mas em alguma medida eu já havia sido preparado para ela, pelos meus colegas norte-americanos. Sintomaticamente, os russos entraram na jogada, chamando o Talibã para negociar na expectativa de, quem sabe, apagar um incêndio e manter o arranjo suportado pela negligência salutar americana no Oriente Médio. Sem efeito. A mensagem de Trump era demasiado explícita. Bolton era talvez a ponte mais importante entre o presidente e o deep state. Era porta-voz dos porões do Império, que exigia de Trump um sacrifício em sangue e fogo.

“You are fired!”, disse o show man. Não era esse o combinado. Com a última caravela queimada, pensei eu, acabaram-se as ilusões. E ainda em setembro, o circo do impeachment, que se arrastava desde 2017 com as investigações sobre o “conluio” com os russos, ganhou estrondoso fôlego com a denúncia das relações perigosas entre Trump e Zelensky, o comediante-presidente da Ucrânia. O delator: um anônimo empregado da CIA (“empregado” esse que pode ser apenas uma “marca de fantasia” para uma ação coletiva envolvendo múltiplos atores da comunidade de segurança, descontentes com as heresias trumpistas). Aceito alegações de paranoia política, mas Ms. Pelosi nunca me pareceu ser a protagonista daquele espetáculo.

Em minhas andanças, vi sangue nos olhos de democratas e de republicanos, de pequeno e de alto jaez, clamando por guerra e pelo enquadramento dos inimigos da América, russos e chineses incluídos. Ali rondava aquele espectro que dá unidade a um projeto de poder de uma elite, que leva seus integrantes a discutir sobre mais ou menos, mas nunca sobre sim ou não. Era preciso salvar o império de seus inimigos internos, antes que os inimigos externos se tornassem implacáveis.

Saturado por intenso fogo (semiótico) de barragem, lá pelas tantas num fim de Julho, caminhando pelo National Mall e diante da estátua de Lincoln, fui arrebatado pela ideia de que o deep state vê a famiglia como uma dinastia estrangeira e usurpadora. Essa era a mensagem que, a todo instante, meus interlocutores estavam bradando.

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Nesse caso, ou os manchus se tornam piedosos e fazem uma hecatombe aos deuses americanos, ou o mandato do céu lhes será caçado. Trump não deu aos deuses cem reses atiradas ao fogo, mas apenas uma, carbonizada pelo míssil de um MQ-9 Reaper (alusão arquetípica, aliás). Cinquenta e duas outras foram prometidas caso os persas não demonstrem obediência ao império, e os deuses finalmente regozijaram-se. Trump pode não ser tão bárbaro afinal, e talvez seja possível que se comporte, se mantido sob ameaça, como um legítimo herdeiro do trono imperial, com sua liturgia e costumes, tal como faria um Odoacro moderno.

O cadáver de Suleimani fez Moscou subir o tom, e Pequim aproveitar para repetir sua eterna ladainha de “expansão pacífica”, antes de também condenar o ato. E ninguém ouviu Ernesto, o idiota, a entoar seus cânticos de louvor, nem mesmo os deuses americanos, preocupados com aliados e inimigos, e não com lacaios.

Do alto do panteão, o mundo agora parece caminhar na direção prevista pelas leis divinas, graças a uma conversão ainda volúvel, mas promissora, do rei bárbaro. Daalder e Lindsay em seu The Empty Throne descrevem a pitoresca cena em que Donald Trump, já presidente dos Estados Unidos, é instruído no Pentágono por Rex Tillerson e John Mattis, então Secretários de Defesa e de Estado, respectivamente, a respeito das “responsabilidades” dos Estados Unidos no quadro da ordem internacional; após uma longa aula, Trump agradece aos presentes e lhes alerta: “This is exactly what I don’t want”.

Quem seria responsável por tamanha blasfêmia, capaz de deixar estupefatos os deuses, e levar os crentes ao jejum e à penitência? Tillerson e Mattis, com sua pedagogia imperial eficaz para a educação dos bem-nascidos da aristocracia política do império americano, foram pegos de calças arriadas por um impostor, por um Luís Napoleão embasbacado pela fortuna, pelas câmeras e por retweets, convencido de que, uma vez coroado (com papa ou sem) seria o mestre da cosmovisão imperial, a ser transformada à sua imagem e semelhança.

O assassinato de Qasem Suleimani é fruto de um dos muitos momentos em que o estadista (concedam-me o uso do termo) deslumbrado pela rapidez da curta duração, e pleno de agência, de arbítrio e de movimento, se depara com as forças profundas, com estruturas engessadas, com a longa duração das mentalidades e das instituições, com a “história lentamente ritmada” de que nos falou Braudel, Duroselle e Renouvin. Não que Donald Trump abunde em compaixão cristã e humanitarismo, e tenha sido forçado pela mão das trevas, obviamente.

Essa potencial versão high-tech de um arquiduque assassinado é resultado de um embate político de forças, de uma luta pela hegemonia no Estado ampliado norte-americano, que remonta aos primeiros dias de governo. Foi Mr. Trump finalmente batizado e convertido? O tempo dirá.

Não nos surpreendamos, contudo, se esse ato piedoso diante do altar, a espada do paladino caindo sobre o inimigo da fé, death from above, for recompensado com uma reeleição. Não pelo fato de que o “cidadão médio quer guerra”, e que isso dá ibope, ou outra explicação rasteira que o valha. Mas sim porque Donald Trump parece ter sido agraciado com a chance de não só reaglutinar suas bases políticas republicanas ao rezar o credo americano, mas também de marcar pontos com agentes públicos filodemocratas que, entre a saúde do império e as cores partidárias, hão sempre de fechar com a primeira opção.

(*) Professor do Programa de Economia Política Internacional do Instituto de Economia da UFRJ

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