A posição de Trump diante do complexo industrial-militar, por Rogério Mattos

O posicionamento de Donald Trump é próximo aos recentes pronunciamentos de Henry Kissinger, segundo o qual deve ser praticado pelos EUA uma distensão com a Rússia e um tensionamento com a China.

A posição de Trump diante do complexo industrial-militar

por Rogério Mattos

O atual debate de teor acadêmico transplantado para as redes sociais, um suposto embate entre stalinismo e liberalismo, só pode ser considerado um debate político de segundo ou terceiro grau, porque ajuda mais para confundir do que para entender o casamento singular nos dias de hoje entre o modelo da soberania e o da biopolítica. Tanto Stálin quanto Vargas, Mussolini, Hitler e Perón (entre outros) são exemplos de poder soberano de tipo autocrático, e que não sem um delicado debate podem se tornar ou não comparáveis.

O lado positivo do desentendimento que vemos foi o escancarar dos crimes dos liberais, tanto em sua vertente clássica quanto na que se estabeleceu no pós-guerra. Contudo, o debate de teor acadêmico acaba caindo no ridículo: Domenico Losurdo e Hannah Arendt aparecem como polos opostos, quase como se fossem rivais intelectuais, enquanto Churchill e Stálin se engalfinham para ver quem foi melhor ou “menos pior”.

O pequeno texto que segue é um breve estudo de caso, cujo intuito é mais esclarecer o debate político atual e mostrar, a partir de articulações já bem estabelecidas, as ambiguidades, limitações e perigos do singular casamento no séc. XXI entre soberania e biopoder”.

Em polêmica recente, Donald Trump “criticou o alto comando do Exército e do Pentágono porque, segundo ele, fazem guerras para aumentar a atividade das empresas que atuam no setor de defesa”. Bem antes sequer de se cogitar sua candidatura à presidência, tem sido a posição frequente do mandatário diante da participação dos EUA nas chamadas “guerras infinitas”.

Para os analistas que se dizem bem informados, deve ser considerado que não foram apenas os “red necks”, os caipiras (os de pescoço queimado de sol) ou a base evangélica ou o supremacismo branco que o elegeu. Na ocasião, amplos setores mais esclarecidos preferiram Trump à Hillary não só por serem contra a ideia geral de fim ou recuo das guerras no estrangeiro, mas pela situação alarmante que a atuação da OTAN no leste europeu e na Síria vinha causando.

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Ao contrário desse dado histórico básico, em matéria recente, de tom surrealista, a Carta Capital lançou matéria com o seguinte título: “Governo Biden deve revelar papel dos EUA no impeachment de Dilma, diz economista“. Então quer dizer que Biden irá revelar como seus partidários e cabos eleitorais, Obama e Hillary, e ele próprio como vice, dirigiram o golpe no Brasil? É digno de crença uma afirmação dessas?

Tendo em vista a reorganização dos setores de inteligência durante os mandatos de Obama, cujos primeiros resultados satisfatórios foram o assassinato do Kadafi e a eleição do Macron, não deixa de ser curioso um presidente soltar o verbo contra o próprio “complexo industrial-militar”. Fica evidente que Trump faz parte de outro projeto, não necessariamente “bom”, mas sem relação com a banca liberal financista e o partido da guerra. Trump é “terra e sangue”, Vaticano, nobreza negra (antigo guelfos venezianos), ou o chamado “dinheiro velho” europeu, contra a Wall Street [aqui]. Como digo há um bom tempo, hoje o mundo parece sem escolhas: capitalismo ou anarquia

O posicionamento de Donald Trump é próximo aos recentes pronunciamentos de Henry Kissinger, segundo o qual deve ser praticado pelos EUA uma distensão com a Rússia e um tensionamento com a China. Se o primeiro ponto pode ser visto como positivo, o segundo é o que, definitivamente, afasta Trump do chamado Partido da Guerra (da aliança Obama/Bush ou Hillary/McCain). Mas, ao mesmo tempo coloca em cheque qualquer possibilidade do slogan American First se tornar política de Estado.

Se a primazia americana, em seu aspecto não sectário, poderia significar a tentativa de reindustrialização do país, aumento da renda e do emprego, sem a China isso parece impossível. Uma das propostas que se tem como viável para a retomada econômica estadunidense passa por uma aliança com os chineses. O contingente de recursos que a China empregou para ser proprietária de grande porte da cavalar dívida pública dos EUA, poderia ser reconvertido em crédito onde empresas chinesas, em parceria com o Estado e empresas estadunidenses, fariam o necessário salto de qualidade da infraestrutura dos ianques, hoje em frangalhos [aqui].

Uma cooperação em ciência e tecnologia obrigatoriamente teria de ser feita em conjunto, o que reduziria as tensões comerciais entre os países, porém poderia representar um rápido salto tecnológico avançado em setores de alta complexidade. Na atual conjuntura, contudo, se trata de uma hipótese utópica, apesar de racional.

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No prometido encontro que diversos analistas internacionais projetam para o ano que vem, onde se reunirão Trump, Putin e Xi Jinping, inevitavelmente um processo de paz deve ser estabelecido. É o que se propõe como um novo Bretton Woods ou Yalta 2 (a depender do gosto…). Contundo, os EUA se posicionaram nessa mesa de discussão como Churchill ao lado de Roosevelt e Stálin, ou seja, como ator menor.

A diferença é que, no pós-guerra, com a morte de FDR e o início das “relações especiais” Inglaterra e EUA ou City de Londres e Wall Street, o processo de descolonização e de financiamento do desenvolvimento dos países mais pobres não foi levado adiante. Muito antes de Nixon acabar formalmente com os acordos originais de Bretton Woods ao repelir o padrão ouro nas transações comerciais e, mais tarde, Bill Clinton enterrar de vez com a lei de separação bancária Glass-Steagall (o que levou ao altíssimo grau de financeirização econômica atual), o eixo eurasiático hoje tem cada a força que a direção econômica imprimida por Roosevelt não pode ter.

Existe sim uma possibilidade de reversão do quadro de Guerra Fria nunca terminado desde o famoso discurso de Churchill, ao lado de Truman, onde se estabeleceu o paradigma da “cortina de ferro”. Se o cenário no curto prazo parece desanimador (capitalismo ou anarquia), cada vez mais que os ruídos da guerra total iniciada em 2014 diminuem cada vez mais, nos próximos anos há a possibilidade concreta do estabelecimento de um novo paradigma para a humanidade.

O sistema liberal-banqueiro-financista, ou o “dinheiro novo”, perdeu a batalha. A coronacrise, que recende a Vaticano (e não é por outro motivo que Giorgio Agamben foi seu mais polêmico crítico) deu errado na raiz. O projeto principal era a demonização da China, segundo os planos da parte da oligarquia transnacional que apoia Trump. De resto, apesar do choque inicial, o novo normal que se tentou estabelecer encontrará dificuldades para se consolidar nem tanto por causa da Eurásia, mas pela necessidade premente de desenvolvimento do Oriente Médio, África e América Latina.

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É inviável pensar em robotização e renda universal por aqui. A mera tentativa de se estabelecer um paradigma transindustrial no Brasil, por exemplo, irá dar de cara com um país na miséria, um Estado ineficaz (o Estado improdutivo ou ineficaz é sempre o neoliberal) e cujos pressupostos de um New Green Deal são miragens diante do que deve ser feito em relação à economia física, ou seja, a que se requer o emprego intensivo de poderosas matrizes energéticas.

 

Fica aqui portanto a constatação menos de uma oposição (democratas contra republicanos), mas de uma ambiguidade (o projeto alternativo representado por Trump) e um breve recado de esperança, já que as elites do Ocidente demonstraram nos últimos anos (apesar de vitórias parciais) sua total falta de habilidade ou mesmo de inteligência para lidar com o mundo do século XXI, ainda por nascer.

Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.  

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